Irmão José Paulo considera que neste tempo pós-pandemia, de guerra, e de «tantos desafios sociais e económicos se fala mais de saúde mental»

 

Lisboa, 10 out 2022 (Ecclesia) – O superior provincial da Ordem de São João de Deus em Portugal afirmou hoje que a saúde mental “é uma emergência social”, no dia mundial desta área, e que os recursos “nunca” são suficientes para aquilo que sonham e querem fazer.

“É evidente que a história tem tido muitas etapas e muitos movimentos, e tempos melhores ou piores, mas agora que estamos a viver um tempo pós-pandemia, e um tempo de guerra, e tantos desafios sociais e económicos é evidente que se fala mais de saúde mental”, disse o irmão José Paulo, em entrevista à Agência ECCLESIA.

O superior provincial da Ordem hospitaleira de São João de Deus em Portugal acrescenta que a saúde mental é “uma emergência social” e em todos os setores ouve-se falar do impacto que tudo isto tem para a saúde mental, “mas sempre foi um problema”.

“Nós dizemos entre nós que a saúde mental é o parente pobre da saúde mas também não há saúde, sem saúde mental. Há um desequilíbrio, uma desvalorização, talvez também associado ao estigma sobre a saúde mental”, realçou.

‘Tornar a saúde mental e o bem-estar de todos uma prioridade global’, foi o tema definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o Dia Mundial da Saúde Mental 2022, que se assinala anualmente a 10 de outubro.

O irmão José Paulo salienta a importância de “mais saúde mental para todos, mais investimento e mais acesso aos serviços”, destacando o “desafio enorme” que a OMS lança de investir mais e “não esquecer nunca as sociedade e populações menos favorecidas”.

“As dificuldade socioeconómicas afetam claramente, quanto menos recursos menos acesso aos cuidados”, acrescentou no Programa ECCLESIA, transmitido hoje na RTP2.

Segundo o entrevistado, ainda há “muito estigma sobre a saúde mental”, existem sociedades e comunidades mais abertas, mais tolerantes, mas o relatório da Organização Mundial de Saúde indica que “o suicídio em 20 países é considerado crime”, suicídio que é “um problema claro de saúde mental”.

“Mesmo na nossa sociedade portuguesa percebemos que os doentes mentais são estigmatizados, são excluídos, são vistos de uma forma diferente”, referiu, adiantando que os irmãos de São João de Deus, e as suas instituições e casas de saúde, “pelo menos, desde os anos 90” trabalham muito na comunidade, com residências, apartamentos, “com unidades de atividades ocupacionais, e agora apoio domiciliário com vários programas”, onde inserem os seus utentes na população.

O irmão José Paulo adianta que vão notando alguma “mudança positiva em termos de tolerância e aceitação”, salientando que “o problema é quando estão descompensados”, quando estão nalguma aldeia, nalgum sítio onde “não têm consciência que aquela pessoa está doente, há exclusão”.

A Ordem Hospitaleira, fundada em Granada (Espanha) pelo português João de Deus, de Montemor-o-Novo, está a comemorar 450 anos e é uma referência nesta área da saúde mental

A ordem religiosa tem obras concretas em saúde e ação social em 54 países, não são “muitos irmãos” mas têm muitos colaboradores, mais de 65 mil, e muitos voluntários que “tornam possível a atualidade desta obra”.

Em Portugal, a Ordem de São João de Deus tem vários centros de saúde mental, seis casas de saúde/hospitais psiquiátricos “com alguma dimensão, o maior tem 430 camas”, com mais de 100 anos, a Casa de Saúde do Telhal, “que é uma obra emblemática”., também no norte e nas ilhas da Madeira, e da Terceira e São Miguel, nos Açores.

“Temos cada vez mais pequenas unidades de Cuidados Continuados em saúde mental e Cuidados Continuados gerais. Temos Cuidados Paliativos também em Montemor-o-Novo, em Lisboa”, explicou o irmão José Paulo.

HM/CB/PR

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