Sociedade: Ciclo de pobreza é «muito complexo» e não se resolve com um comprimido, afirma Cáritas Diocesana de Lisboa

Carmo Diniz e Soledade Duarte, presidente e vice-presidente do organismo, estiveram no programa ECCLESIA, no âmbito do encerramento das comemorações dos 50 anos

Lisboa, 29 jun 2026 (Ecclesia) – A Cáritas Diocesana de Lisboa (CDL) alertou para a complexidade do fenómeno da pobreza, que tem “muitos rostos”, está “muito entrelaçada em problemas” e para a qual não há uma fórmula.

“O ciclo de pobreza é um ciclo muito complexo e não é um comprimido que se dá. Não é uma solução, é um acompanhamento”, afirmou Carmo Diniz, diretora-executiva da instituição, em declarações ao programa ECCLESIA, transmitido hoje na RTP2.

A responsável dá o exemplo de que não é por dar uma casa a pessoas em situação de carência que de repente fica tudo bem.

“Por outro lado, estávamos a falar do exemplo de uma pessoa que tem um trabalho e tem um ordenado baixo e que, por causa disso, pode perder a casa. Perdendo a casa pode vir a perder o emprego. Desestrutura a sua vida toda”, acrescentou.

A Cáritas Diocesana de Lisboa encerrou, no dia 23 de junho, o programa de comemorações dos seus 50 anos, com uma Missa presidida por D. Rui Valério, na Basílica da Estrela.

“O senhor patriarca sublinhou muito bem que nada substitui a presença humana, nada substitui a relação, o poder dizer ‘eu estou aqui contigo mesmo nesta fase mais difícil e não vou sair daqui enquanto precisares de mim’. Isso exige soluções diferentes, exige muita gente, exige uma aldeia, uma comunidade para ajudar uma pessoa a superar esse ciclo”, defendeu Carmo Diniz.

Apesar de os relatórios apontarem para a diminuição da pobreza, a diretora-executiva do organismo dá conta que a CDL continua a encontrar no dia a dia muitas pessoas a precisar de apoio “muito sério” a todos os níveis.

“A solidão é pobreza. E a solidão vê-se na velhice, vê-se nos migrantes. E não é fácil, de facto, encontrar uma solução. Não é uma coisa que se resolva de um dia para o outro nem com uma única solução. Temos que ser muitos, muitos parceiros, muitas pessoas a combater a pobreza para a erradicar de vez”, disse.

Foto: Cáritas Diocesana de Lisboa

A rede Cáritas do Patriarcado de Lisboa abrange 285 paróquias, dando resposta a “uma vasta área geográfica”, que começa no rio Tejo e termina no sul de Leiria, com diferentes realidades.

“Já há 50 paróquias com as Cáritas Diocesanas, mas ainda temos um longo percurso a percorrer, porque o objetivo é que cada paróquia tenha uma presença da Cáritas Diocesana”, assinalou.

Soledade Duarte reforça que a “pobreza tem muitos rostos” e que não é por pessoas em situação de fragilidade virem de outra confissão religiosa que o organismo vai negar ajuda: “Nós temos esta vocação mais universal de apoiar quem precisa e quem recorre aos nossos serviços”.

A Cáritas Diocesana de Lisboa tem registado o aumento do “número de voluntários”, quer ao nível da sede do organismo, como nas paróquias, indica a responsável.

“Quantas vezes nós temos um formulário de inscrição de voluntário no site e recebemos e-mails de pessoas a oferecerem-se. E se no momento não temos necessidade de voluntários, encaminhamos para vários parceiros”, refere Carmo Diniz.

Falando da própria experiência, Soledade Duarte dá conta que ao longo da vida sempre sentiu muita a “necessidade de poder estar próxima de pessoas que necessitam”, inspirada pela educação cristã.

“Sempre procurei, de facto, estar disponível e pronta. E à Igreja não se diz que não, portanto, quando eu tenho um desafio ou um convite que me vem da Igreja para fazer seja aquilo que for, pois eu não digo que não”, sublinha.

Carmo Diniz (à esquerda) e Soledade Duarte

A vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa realça que o voluntariado é algo que a “preenche profundamente”: “É muito mais o que nós recebemos do que o que nós damos”.

“Há uma sensação de plenitude, de dever cumprido, de sentir que estamos, de facto, a ter um impacto na vida daquela pessoa”, evidenciou.

Sobre o futuro da CDL, Carmo Diniz aponta para os quatro eixos fundamentais da organismo, entre ele as migrações.

“Temos um trabalho já muito consistente com migrantes e vamos continuar a trabalhar e evoluir nesse sentido. Portanto, a migração é um tema que nos importa. Temos o dossiê das migrações, que é informativo para todos com quem partilhamos, para sensibilizar para o tema”, começou por dizer.

A responsável destacou depois o isolamento social, a conversão ecológica e a solidão como temas aos quais o organismo quer dar atenção.

HM/LJ/OC

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