No XVI Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde, bispo de Setúbal convidou jovens a descobrir «alegria de servir» e a compreender a felicidade para lá do «sucesso individual»
Lisboa, 17 out 2026 (Ecclesia) – O cardeal Américo Aguiar disse que que o voluntariado é um “espaço de encontro” entre diferentes pessoas, uma “imagem da sociedade” a construir, e um sinal no mundo que insiste em fazer “das diferenças” motivos de divisão.
“Num tempo em que tantas diferenças são transformadas em motivos de divisão, o voluntariado pode constituir um extraordinário espaço de encontro, onde pessoas de diferentes idades, profissões, culturas e convicções trabalham juntas ao serviço de uma causa comum: aliviar o sofrimento e promover a dignidade humana. É uma bela imagem da sociedade que desejamos construir, uma sociedade em que ninguém seja considerado inútil por estar doente, em que ninguém seja abandonado por ter envelhecido e em que a fragilidade não seja motivo de exclusão, mas apelo à responsabilidade de todos”, afirmou o bispo de Setúbal numa conferência intitulada «A Igreja e os valores do voluntariado», no XVI Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde.
No texto enviado à Agência ECCLESIA, o cardeal falou do voluntariado como “escola de aprendizagem e de transformação pessoal” e de “humanidade”: “Quem serve transforma-se, quem escuta cresce e quem acompanha descobre dimensões da vida que dificilmente conheceria se permanecesse fechado no seu próprio mundo”.
D. Américo Aguiar pediu estruturas que acolham, orientem e sustentem o voluntariado, sem o “instrumentalizar” e sem que este sirva para “suprir carências estruturais dos serviços de saúde”.
“Precisamos de programas de formação adequados, critérios claros de atuação, de acompanhamento regular e de uma verdadeira integração dos voluntários nas comunidades institucionais onde prestam serviço. O seu contributo tem uma natureza própria, que deve ser respeitada e protegida, porque acrescenta humanidade, proximidade e participação cívica, sem desresponsabilizar as instituições das obrigações que lhes competem”, pediu.
“Um hospital pode dispor dos melhores equipamentos, dos mais avançados recursos tecnológicos e dos mais competentes profissionais, mas nunca será plenamente humano se não existir, no centro de toda a sua atividade, o reconhecimento da pessoa na sua dignidade integral”, afirmou.
Pedindo uma Igreja de proximidade e que vá ao encontro, das pessoas o também bispo de Setúbal recordou que o voluntário “não espera” que alguém venha ao seu encontro; “decide aproximar-se, sem perguntar primeiro se a pessoa merece ajuda, se partilha as suas convicções, se pertence à sua comunidade ou se lhe poderá agradecer”.
D. Américo Aguiar afirmou que cuidar dos doentes é uma missão partilhada, onde “ninguém atua verdadeiramente sozinho.”, sendo por isso necessários “médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, técnicos, capelães, famílias e, naturalmente, dos voluntários”, uma vez que “o hospital não é apenas um espaço onde se encontram profissionais e doentes, mas uma verdadeira comunidade humana, onde a competência científica e técnica deve caminhar de mãos dadas com a sensibilidade, a ternura, a responsabilidade e o respeito pela dignidade de cada pessoa”.
Nesse sentido afirmou que a “humanização não pode limitar-se à simpatia ou à cordialidade”, mas “exige respeito efetivo pela dignidade, pela informação, pela privacidade, pela confidencialidade e pela participação de cada pessoa nas decisões que dizem respeito à sua saúde”.
Ao recordar a sua missão de Provedor do Doente no Hospital de São João e capelão no Hospital da Prelada, ambos no Porto, o cardeal Américo Aguiar pediu gestos “simples” que fazem a diferença.
“Uma visita, uma conversa, um sorriso, uma mão estendida ou uma presença discreta. São pequenos gestos que não aparecem nos relatórios clínicos, mas que podem fazer uma enorme diferença na experiência de quem está doente, ajudando a aliviar a angústia, a enfrentar a incerteza e a descobrir que, mesmo nos momentos mais difíceis, ninguém deveria sentir-se abandonado”, indicou.
“O voluntariado não consiste em ocupar todos os silêncios, em oferecer conselhos para todas as situações ou em transmitir permanentemente mensagens de otimismo. Há sofrimentos que não admitem respostas fáceis e situações em que uma palavra precipitada pode ferir mais do que ajudar”, acrescentou.
Aos jovens convidou a descobrir a “alegria de servir”, apelando à geração mais nova para compreender a felicidade para lá do “sucesso individual”.
“O voluntariado é uma extraordinária escola de cidadania e de fraternidade, que ensina a responsabilidade, a perseverança, o respeito, a cooperação e a atenção aos outros. Num mundo em que os jovens são frequentemente convidados a procurar visibilidade e reconhecimento, o voluntariado propõe-lhes um caminho diferente: descobrir a grandeza de uma vida que se torna dom”, valorizou.
O cardeal Américo Aguiar quis deixar um “obrigado” a quem oferece o seu “tempo, disponibilidade e atenção”, num mundo em que “tantas coisas se medem pelo seu preço”.
“O voluntariado continua a recordar-nos que aquilo que é verdadeiramente essencial não se compra nem se vende, mas se oferece gratuitamente, como expressão de uma humanidade que se reconhece responsável pelo bem dos outros”, valorizou.
“O voluntário é chamado a oferecer uma presença que não invade, mas acompanha; que não impõe, mas respeita; que não julga, mas acolhe; e que não procura protagonismo, mas coloca o outro no centro”, assinalou.
O XVI Encontro Nacional do Voluntariado em Saúde decorreu em Cascais, na Escola Superior de Hotelaria e Turismo, no Estoril.
LS

