Isabel Figueiredo, Secretariado Nacional das Comunicações Sociais

Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais

A publicação de uma peça de comunicação, seja uma notícia, um artigo de opinião, uma reportagem ou uma entrevista, é sempre objeto de várias leituras, tantas quantas as pessoas que se interessam por ler, ouvir ou assistir ao trabalho de alguém. É nesta base que reside a relação entre utilizadores dos meios de comunicação e profissionais de comunicação, seguindo uma designação que Dom Samuel Lauras, abade trapista, utiliza no seu mais recente livro publicado em Portugal, intitulado “Filhos da Luz em Tempos de Prova”. Arrisco-me a dizer que todos os dias são publicadas milhões de peças de comunicação, muitas delas lidas, vistas ou ouvidas por outros tantos milhões, assim como, muitas delas também serão lidas, vistas ou ouvidas, por parcas dezenas de amigos pessoais ou ocasionais. Faz parte deste mundo, em que a liberdade de escrever e de dizer é igual à liberdade de ler, de ver e ouvir… apesar de nem todos terem o mesmo acesso ao conhecimento que permite critérios de escolha.

No livro citado, a determinado momento, o autor faz a seguinte afirmação: «a honestidade dos utilizadores dos meios de comunicação será, nos próximos anos, tão decisiva como a dos profissionais da informação». Confesso que esta afirmação me tem feito refletir com preocupação, mas também com esperança. Partir do princípio de que os profissionais da informação são pessoas honestas é algo de perfeitamente legítimo e, na maioria das vezes, acredito que verdadeiro. Mas o passo que o autor nos faz dar, coloca-nos noutro patamar de reflexão. Também precisamos de considerar como relevante a honestidade dos utilizadores dos meios de comunicação. Este apelo direto à responsabilidade de cada um de nós, na comunicação que consome e partilha, lembra aqueles toques que os professores de bailado dão para que os seus alunos corrijam a postura. Precisamos de estar atentos, de escolher e de rejeitar.  E a esperança está na dimensão de um outro futuro, colocando na capacidade de discernimento dos jovens, o presente que irão construir. E se esta honestidade assim vivida é decisiva quando falamos de temas como economia, politica, saúde, não é menos quando se comunicam temas relacionados com dimensão espiritual da vida de cada um, ou especificamente com a vida da Igreja, tema recorrente pelas melhores e piores razões no tempo que vivemos.

O Papa Francisco não se cansa de repetir palavras que, de tantos ditas, poderia parecer que já estavam devidamente assimiladas por tantos de nós: a relevância do diálogo, a urgência da paz, a necessidade de um forte sentido ético, o valor da verdade, a importância da moderação na linguagem, a indispensabilidade do encontro… é muito real a sua determinação em nos fazer acreditar que é possível chegar a bom porto, ou como quem diz, é sempre possível fazer mais e melhor.  Ou ainda dito ainda de outra forma, até do mal se pode tirar o bem. Isto apesar de continuarmos a ser surpreendidos pela capacidade de alguns conseguirem até do bem, retirar o mal.

E termino com mais uma citação de Dom Samuel Lauras no livro cuja leitura recomento: «a chave para uma vida verdadeiramente cristã encontra-se aqui: ver-se mutuamente como pecadores sedentos de salvação, como doentes à procura de um médico, como ministros que trazem em vasos de argila unguentos capazes de curar qualquer ferida. Se nos olharmos mutuamente desta forma, haverá mal-entendidos, tensões e conflitos, até faltas, mas serão o sinal de que enfrentamos o único combate digno de empreender: o dos filhos da Luz contra o Príncipe deste mundo. E para lutar contra ele precisamos de Deus e uns dos outros. Nesta perspetiva, as nossas relações fraternas, e a própria amizade deixam de ser apenas encontros cara a cara. Adquirem o caracter de uma busca de Deus.» Não são palavras dirigidas especificamente aos profissionais da informação, mas sinto-as como palavras certeiras para todos os que procuram Deus.

 

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