Ser-nos-á roubada a alegre experiência da Ressurreição?

Padre Diamantino Alvaíde, Diocese de Lamego

Foto Diocese de Lamego

A cultura do nosso tempo e tempo da nossa cultura estão prisioneiros de uma voragem tecnológica que, por um lado, assombrosamente nos fascina e, por outro, nos assusta tenebrosamente.

Assistimos, em poucos anos, a avanços estonteantes naquilo que é a capacidade e a velocidade da realização de múltiplas operações que as novas tecnologias realizam de forma perfeita. Basta pensarmos no poder, já hoje, da inteligência artificial e nas previsíveis – tanto quanto possível – transformações que esta vai trazer às mais elementares tarefas do nosso quotidiano.

Mas estes avanços não têm implicações apenas no que temos e no que fazemos. Têm também influência séria e consequências profundas naquilo que somos, e seremos, no que pensamos e no que sentimos, no que acreditamos e no que esperamos. Ou seja, estamos, ao longo destas semanas, imbuídos e embebidos na alegria inebriante da Páscoa. É de tal ordem importante para nós a Ressurreição do autor da Vida, que nos arrogamos a prodigalidade de a celebrar durante 50 dias. Percebemos facilmente o significado que isso confere à nossa existência. E temos noção que esta alegria só é possível graças à finitude da nossa condição humana. Se fossemos imortais nunca gozaríamos da eterna novidade do Ressuscitado.

Como sabemos, os desmedidos e – se deixarmos – descontrolados avanços tecnológicos e científicos, que alimentam e fomentam as novas correntes ideológicas transumanistas, prometem-nos um prolongamento indefinido da vida terrena. Os defensores do transumanismo acreditam que, através das tecnologias emergentes, será possível potenciar e elevar as nossas capacidades físicas, intelectuais e psicológicas a um patamar pós-humano, que nos tornem imunes aos efeitos do tempo, como são o envelhecimento e a morte. Isto significa que o ser humano alcançaria a vitória definitiva sobre a morte no mais imediato presente, no aqui e no agora do espaço e do tempo.

Esta é uma realidade que contradiz cabalmente a nossa conceção de vida eterna. Embora alguns a possam confundir, e pensem a eternidade como o prolongamento ilimitado da nossa condição humana horizontal, não é disso que se trata. A vida eterna é a vida de Deus e em Deus, que se alcança em plenitude depois do ocaso desta vida, atravessando a fronteira da morte. Daí a inaudita e inesgotável alegria da ressurreição, que nos permite perceber que a morte não é um fim em si mesma, mas porta de um novo início sem fim.

Portanto, por absurdo que isto possa parecer aos olhos da cultura do nosso tempo, a morte apresenta-se-nos assim como uma das maiores necessidades da nossa vida. Precisamos irremediavelmente de sentir a contingência da nossa existência, e as consequências disso mesmo, para que esta tenha verdadeiramente sentido. A este respeito, é bastante eloquente a opinião de alguns autores ao defenderem que «a certeza de não dever morrer aniquilaria a vida, far-lhe-ia perder qualquer interesse ou atração. Uma vida intramundana perpétua deixaria de ser vida: viveríamos como mortos, não agiríamos mais. Porque fazer hoje, se o tempo é inexaurível? Um tempo inesgotável é já um tempo esgotado» (R. Lucas Lucas, Orizzonte verticale: senso e significato della persona umana, 2007, pg. 67).  E ainda: «Se tudo pudesse ser adiado até ao infinito, não teria sentido nenhum trabalhar duramente para concretizar quaisquer possibilidades e seria absurdo o simples sacrifício de levantar-se logo pela manhã» (W. Schmid, Serenità. L’arte di saper invecchiare, 2015, pg. 76).

Em suma, estamos dispostos a arriscar a estabilidade de quase tudo do nosso dia a dia, em troca das surpreendentemente imprevisíveis inovações tecnológicas. Mas não nos impeçam de morrer no tempo, para que não nos seja roubada a alegria de ressuscitar para eternidade.

Padre Diamantino Alvaíde

Coordenador Diocesano de Pastoral

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