39 mil utentes no concelho do Seixal sem médico de família levaram Alexandra Fernandes a mudar de vida. Deixou o seu emprego estável e os pacientes que acompanhava há 25 anos, para «combater a injustiça» junto daqueles que chama os seus «prediletos» – as pessoas fora do sistema.
Nesta conversa ficamos a conhecer a formação cristã que os pais não crentes lhe quiseram dar, o exemplo de igualdade com que cresceu em casa, o projeto de financiamento internacional que criou com a herança do seu pai, e a escada do filme «Indiana Jones» que sempre encontra na sua vida quando sente os seus passos vacilar.

“Sempre tive mais vocação para combater a injustiça do que para aliviar o sofrimento, mas há muita injustiça no não alívio do sofrimento. Eu gosto muito de pessoas, de estar com pessoas, e gosto muito de fazer várias áreas da medicina. Prevenir a doença, tratar pessoas doentes, acompanhá-las ao longo da sua vida, tratar pessoas no final da vida. Eu acompanho as pessoas desde que elas são um desejo dos pais”, valoriza.

«Acompanho pessoas até à morte e quase sempre fui ao velório das pessoas, cumprimentar a família. É uma relação íntima e familiar. É-nos dado entrar em espaços sagrados da intimidade familiar. Acho isso muito interessante».

«A primeira coisa que vou perguntar a Deus quando o encontrar diretamente, é sobre o sofrimento causado, em especial as doenças de crianças. As doenças que causam sofrimento é um mistério que não consigo resolver. Dá ideia de que Deus podia ter sido mais perfeito, nos meus critérios. Tenho dúvidas sobre normas e dogmas da Igreja, mas não me distancio porque aquilo em que eu tenho a certeza que acredito, já me dava para duas vidas».

«A magnitude do mal parece quase impossível de combater. Parece que não aprendemos, que não evoluímos, e eu parece que me esgoto quando olho para isso. O que penso é que contra a totalidade do mal, com maiúscula, o bem, com maiúscula, que é Deus. É preciso fazer a nossa parte. Temos de descobrir a nossa parte e fazê-la».

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