O padre César Costa é o diretor do grupo Gólgota, criado há 30 anos para evangelizar através do teatro, e que reúne 150 pessoas, entre atores e figurantes, a maioria leigos

Num ano tudo mudou. Habituados a atuarem na rua para multidões, em 2020 os missionários Passionistas, do grupo Gólgota, viram-se forçados a cancelar os espetáculos da Semana Santa. Em 2021 decidiram aproveitar os meios digitais ao dispor para transmitirem peças já exibidas, mantendo assim a proximidade com o seu público. Mas gostavam que no final do verão ainda fosse possível repor algumas das peças no formato habitual.

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 

Como é que estão a fazer para dar a volta às dificuldades e desafios impostos pela atual situação sanitária? Obrigou-vos a repensar a vossa forma de estar e de intervir?

Sim, sem dúvida. Depois de no ano passado termos sido forçados a cancelar a Semana Santa, e tudo aquilo que vínhamos a preparar já há alguns meses, este ano decidimos não enveredar pelo mesmo comodismo de não fazer. Então, reinventamos e tentamos colocar ao barulho a comunicação social, as rádios e os jornais locais, e também aqueles que são parceiros do grupo Gólgota, a Câmara Municipal e a empresa municipal ‘Feira Viva’. Tentámos reinventar a Semana Santa, pegando naquilo que era a programação base – e daquilo que ao grupo Gólgota diz respeito, que são as recriações históricas – e, já que não nos era possível recriarmos este ano com público e na rua, aproveitámos umas gravações que tínhamos feito há uns anos, com bastante qualidade, e vamos mostrar – isso em estreia – nas redes sociais, para que aqueles que nos acompanhariam nos acompanhem na mesma, chegando a um público mais vasto.

 

Foi um grande desafio passar das multidões das ruas para estas novas formas? Os meios digitais têm sido bons aliados, no sentido de chegar às pessoas?

Sim, porque podemos chegar a outros públicos, de facto, mas isto obriga-nos a uma mudança de chip, porque não é a isto que estávamos habituados. Enquanto membros da Igreja – não só nós padres, mas também os leigos – tivemos de redescobrir uma nova forma de estar presente e de celebrar a fé. A verdade é que já há um ano que não sabemos o que é ter multidões numa igreja. Para nós ter uma igreja cheia é quando atinge o limite máximo que nos é permitido com os distanciamentos, portanto, creio que cada vez mais vamos experimentando aquilo que as primeiras comunidades experimentavam, de serem poucos, mas de vivermos com entusiasmo a fé, reinventando formas.

Neste momento alto do calendário cristão, não poder haver manifestações públicas de fé – como as procissões e, no vosso caso, não poderem fazer estas recriações na rua – condiciona de alguma forma a vivência destes dias? Ou esta espécie de intervalo forçado até pode ajudar a valorizar mais estes momentos celebrativos?

Talvez porque sou por natureza positivo, creio que isto nos conduz a uma vivência interior mais aprofundada. Não o consideraria um intervalo, mas uma prova que, com entusiasmo, nos permitirá viver e redescobrir a Semana Santa e estes momentos altos da nossa fé de um outro jeito, que de outra forma se calhar não experimentaríamos, tão envolvidos que estávamos e tão habituados ao mesmo de sempre. Isto obriga-nos a um distanciamento físico e presencial, mas creio que nos leva a uma maior união, até união espiritual, porque mais do que nunca fizemos das nossas casas igrejas domésticas, e mais do que nunca usamos as redes para evangelizar, e descobrir isso é fantástico.

 

O desafio deste ano é que a dimensão coletiva seja vivida a partir das casas, e numa vivência mais interior?

Exatamente. Até porque todos sabemos que a cultura se alia perfeitamente com a fé, desde a imagem, a palavra, os gestos, também a presença no coletivo, são elementos que nos atiraram para uma evangelização inserida profundamente na cultura. E isto faz com que descubramos que podemos estar juntos, ainda que presencialmente não possamos estar. Portanto, mais do que nunca a aposta na cultura se calhar é uma excelente forma de diálogo.

O padre José Júlio Pinheiro, que foi um dos pioneiros da Pastoral da Cultura em Portugal, dizia que verdadeiramente a Igreja só foi escutada quando se inseriu na cultura, quando se voltou para a cultura. E esta é uma oportunidade de ouro para fazermos mais e melhor esta aposta na cultura.

 

E pode até vir a inspirar-vos para novas peças, novas intervenções? É possível, por exemplo, pensar em novos figurantes para as vossas peças, com base nas experiências que tem havido de dor e de luto?

Sim, nomeadamente a Via Sacra. É um percurso representativo da vida de Jesus que só encontra verdadeiro eco na nossa vida se formos capazes também de o atualizarmos e de o misturarmos, por assim dizer, com a nossa vida. Vivendo essa esperança, essa simbiose entre a vida de Jesus e a nossa, talvez nos projete para uma atualização mais encarnada na vida de hoje, e assim poderemos verdadeiramente falar de esperança.

D. António Couto, no recente livro que publicou, diz que nós, enquanto cristãos, devemos anunciar uma esperança que não se vende em saldos, mas uma esperança que é arrancada da dor e do sofrimento, portanto, mais do que nunca se calhar pegar nessa dor e nesse sofrimento que nos atinge a todos de uma forma muito direta, procurarmos redescobrir a esperança e anunciá-la, e se calhar atualizá-la, porque isto vai marcar, ou melhor, já está a marcar a nossa vida de uma forma indelével.

 

O grupo Gólgota está a fazer 30 anos. Foi criado em 1991 para ser “uma expressão cultural e social da espiritualidade passionista”, e já tem várias peças criadas especialmente para o grupo. Tem havido interesse das pessoas em assistir e participar nestas representações? Têm recebido bons testemunhos ao longo destes anos?

Temos, e tem sido muito bom, porque as pessoas identificam-se com o teatro, mas também se identificam com esta espiritualidade, porque têm a possibilidade de viver de uma outra forma esta semana maior (Semana Santa). Não só semana, mas ao longo de todo o ano, partilhando esta espiritualidade passionista. E este ano, em que o Gólgota celebra 30 anos, e a nossa congregação celebra 300 anos, maior empenho de querer continuar a seguir as pegadas de São Paulo da Cruz, e de continuar a sentir desse Crucificado a força que nos arrasta e conduz. E sentimos isso, que as pessoas vêm, apesar de se manterem distantes fisicamente, apesar de não haver ensaios, não haver reuniões, encontros ou formação, fomos reinventando formas de nos encontrarmos, e as pessoas continuam sedentas e querem estar juntas.

 

Estas recriações são mais do que simples teatro. Quem representa também o faz por uma questão de fé?

Sim, e isto às vezes é particularmente difícil para aqueles que têm uma personagem, digamos, mais difícil, os ‘maus da fita’. Para alguns é muito custoso, e torna-se um desafio, mas muitos deles são capazes depois de dizer ‘se calhar a minha vida às vezes é um pouco esta personagem’. Portanto, fazer e viver estas recriações, que não são mero teatro, são acima de tudo uma expressão de fé. Pegamos sempre no termo ‘recriação histórica’, porque queremos recriar, mais ou menos, como terá sido, mas queremos que não seja simples teatro. Queremos que seja verdadeiramente uma vivência interior por parte daqueles que participam diretamente, e por parte daqueles que nos veem, e que também são convidados a participar.

Quantas pessoas é que envolve o grupo em termos de atores, e não só? São sobretudo leigos?

Na sua maioria são leigos.

 

Leigos aqui no sentido católico, que não são religiosos nem clérigos.

Sim, sim. Exatamente. A verdade é que também somos todos leigos no mundo do teatro.

 

Como é por amor, são amadores…

Isso, amadorismo. Somos cerca de 150, entre atores, figurantes. Depois procuramos envolver outras pessoas: as crianças da catequese, por exemplo, na entrada triunfal; o grupo de escuteiros, na Via Sacra; outras pessoas profissionalizadas nalgumas áreas, na música… Queremos que deem mais cor, mais vida, alegria e entusiasmo a estas recriações.

 

O que é que fazem ao longo do ano? Para além do teatro dinamizam outras atividades?

Sim, normalmente vamos preparando algumas peças de teatro, que vamos colocando em cartaz. Participamos em festivais, recebemos outros grupos, temos anualmente o festival de teatro.

As nossas peças, ainda que muitas vezes se aposte na comédia, procuram ser críticas da sociedade, com uma proposta de valores. Acima de tudo, percebendo que é possível brincar e, no meio da comédia, tirar ensinamentos. Depois, procuramos também fazer algum tipo de formação, no campo do teatro e da espiritualidade, para crescermos, para que o grupo seja uma oportunidade de crescimento.

Na dimensão social, procuramos estar atentos, respondendo juntamente com uma associação dos Passionistas, o ‘Rosto Solidário’, uma ONG.

 

Esta dinâmica coletiva pode ser inspiradora para o pós-pandemia, como exemplo de capacidade de mobilização e realização comunitária?

Eu não sei como será o pós-pandemia, ninguém sabe…

 

Mas é bom termos já algumas armas definidas do que pode ajudar a comunidade a recriar-se…

Sim, a aposta que vamos fazendo ao longo deste grande exílio pandémico, digamos, foi a de ir construindo, dando pistas para que, quando nos for possível encontrarmo-nos, haver essa vontade de recriar, de reinventar, de fazer coisas. Há gente, dentro do grupo, que está a pensar no que poderemos fazer, apostar nalgumas direções, preparar esta peça…

Estamos a celebrar 30 anos com a esperança de que o amanhã vai ser melhor e queremos já colocar isto em prática, ainda que seja com poucas pessoas na nossa sede – 5, 6, 10 –, para podermos criar coisas para o futuro.

 

O Grupo está sediado em Santa Maria da Feira. Como é a vossa relação com outras instituições da cidade? Contam convosco noutras alturas do ano e para outras  iniciativas, para além da Semana Santa?  Sentem que a vossa presença é valorizada?

Sim, o Grupo Gólgota foi construindo o seu historial, acima de tudo, na relação com os outros. A Semana Santa nasce de uma vontade de unir a sociedade civil e a sociedade eclesiástica, digamos assim, várias forças vidas da cidade. Ao longo do ano, Santa Maria da Feira é palco de várias atividades culturais, nomeadamente a viagem medieval, e o grupo tem estado, tem participado com o teatro e noutras situações.

A nossa presença é valorizada e também procuramos que essa valorização assente na partilha de conhecimentos, nas parcerias, no podermos fazer mais e melhor, juntos.

 

Os missionários passionistas apresentam-se como “anunciadores da vida de jesus”, e assumem fazer apostolado através da expressão artística. O teatro é a vossa forma de evangelizar por excelência e de intervir na sociedade?

Sim, para o Grupo Gólgota, acima de tudo. Não pode ficar só pelo teatro, é preciso aprofundar e conhecer um pouco esta espiritualidade. Neste ano, pelo 300.º aniversário de fundação da congregação, nada melhor do que voltar às origens, do que redescobrir o que é esta congregação, com diferentes formas de estar no mundo, presente nos cinco continentes, em 60 países…

 

Em Portugal, onde é que estão para além de Santa Maria da Feira?

Os Passionistas estão presentes em Barroselas, a casa-mãe, a mais antiga, em Viana do Castelo. Para além de Santa Maria da Feira, estamos presentes também em Setúbal, Santo António da Charneca, com uma comunidade, através do trabalho pastoral nas paróquias e no apoio à Capelania dos Fuzileiros. Procuramos ser uma presença passionista, deste amor ao crucificado.

 

As limitações que tem havido na circulação – entre países, e até dentro do país – têm dificultado de alguma forma a vossa ação missionária?

Há um misto: a evangelização estava muito centrada no encontrar-se com as pessoas. No último ano, fomos tentando reinventar formas. Há sensivelmente um ano, criamos e lançamos um podcast, ‘Ora Pois’, que procura ser uma presença digital, ao longo das semanas, chegando a várias pessoas. Vamos tentando reinventar, através das redes sociais, mas tem sido difícil conciliar, adaptar-se a uma nova realidade.

 

Já aconteceu quem tenha descoberto a vocação para ser missionário passionista ao ver as vossas peças? Ou quem tenha chegado à ‘Rosto Solidário’?

Isso tem acontecido, acima de tudo, no despertar da consciência social, particularmente nos mais jovens, percebendo que afinal é possível fazer mais, dar mais. Talvez começando pelo teatro, depois disponibilizam-se; alguns deles acabaram por participar em missões ‘ad gentes’, dois ou três meses em Angola, onde temos presença passionista em três comunidades, neste momento. Ao mesmo tempo, suscitou o voluntariado cá, o estar disponíveis para o trabalho de bastidores – como organizar bancos de recursos, procurar distribuir e estar atentos a realidades concretas de carência em Portugal e nos meios que nos circundam.

 

Uma última pergunta sobre a atividade do Grupo Gólgota: esperam conseguir retomar as recriações bíblicas quando? Ainda em 2021, com alguma peça, ou vão concentrar-se na Semana Santa e Páscoa de 2022?

Para este ano, no que diz respeito à Semana Santa, vai ser no meio digital, como sabemos. Alimento – e não só eu – a esperança de poder trazer a Via Sacra mais duas ou três recriações, em setembro…

 

Na festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro)?

Exatamente, até porque é uma festa significativa para nós Passionistas, a celebrar 300 anos da congregação, seria uma oportunidade fantástica. Se não for possível, vai haver duas apostas: concentrarmo-nos na Semana Santa do próximo ano e ir preparando algumas atividades, mas para que assim que possamos, regressemos aos palcos e à atividade cultural.

Se quiserem consultar o programa da Semana Santa, podem fazê-lo em www.semanasanta.pt, e acompanhar as transmissões através do Facebook (www.facebook.com/semanasanta.pt)

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