Cardeal português analisa a dimensão crente no contexto dos teatros da paixão, afirma que Deus «atua nos limites da história» e que esta Páscoa é vivida com um «nó na garganta» 

Semana Santa com o cardeal Tolentino #3 – A fé no drama da paixão: a de Jesus e da atualidade."Muitas vezes pensamos que a fé é uma coisa adquirida, uma espécie de assentimento da alma que permanece intocado, sem variações, ou então que é um bem que nos foi transmitido e que transmitiremos a outros; ou então é um elemento de cultura que nós herdamos, como se a fé nunca atravessasse o drama, como se a fé não fosse o que ela é: um palco onde, no estremecimento, o sim ou o não se decidem, o seguimento ou a recusa de Jesus podem e estão sempre a acontecer. Por isso, é importante pensar a fé a partir da categoria do drama. Porque ela é isso.Se a fé é uma itinerância, uma espécie de nomadismo interior, um caminho que fazemos no tempo, é verdade que a fé é atravessada por tantas interrogações, tantos dilemas tantas crises. E nada do humano é indiferente à fé.Nós vivemos esta Páscoa com um nó na garganta. Vivemos sentindo a provisoriedade radical da nossa humanidade. Sentimo-nos todos precários.As nossas lágrimas, o nossa fragilidade, o nosso desejo, aquilo que não vamos conseguir fazer, as liturgias em que não vamos conseguir participar, essas são as nossas ‘precárias’. Traduzem a extensa precariedade da nossa vida de que agora temos maior consciência. E, ao mesmo tempo, são como incenso que se eleva na tarde, são como a palavra dita diante do Altíssimo. São como a oferta, o dom de nós mesmos, que nós colocamos perante o silêncio amoroso de Deus.Deus está presente, manifesta-se, atua nos limites da própria história, nos nós cegos em que parece que a história é irresolúvel, que não tem uma solução. Para quem crê, Deus não está fora da história, porque Ele é o crucificado. Ele é o primeiro a estender a sua solidariedade redentora a todos os homens e a todas as mulheres, em qualquer circunstâncias. Jesus é o primeiro a atender, a escutar, a chegar, a abraçar, a conduzir, a confortar… (D. José Tolentino Mendonça)

Publicado por Agência Ecclesia em Terça-feira, 7 de abril de 2020

Cidade do Vaticano, 07 abr 2020 (Ecclesia) – O cardeal D. José Tolentino Mendonça considera que a humanidade experimenta uma “provisoriedade radical”, afirma que a fé “não é uma garantia”, atravessa “o drama da paixão” e liga-se a tudo o que acontece à volta dos crentes.

No itinerário que faz na Agência ECCLESIA em torno dos “teatros da paixão”, o arcebispo português sustenta que “é importante pensar a fé a partir da categoria do drama”.

“A fé atravessa o teatro da paixão, deixa-se iluminar por ele”, afirmou.

“Muitas vezes pensamos que a fé é uma coisa adquirida, uma espécie de assentimento da alma que permanece intocado, sem variações, ou então que é um bem que nos foi transmitido e que transmitiremos a outros ou então é um elemento de cultura que nós herdamos, como se a fé nunca atravessasse o drama, como se a fé não fosse o que ela é: um palco onde, no estremecimento, o sim ou o não se decidem, o seguimento ou a recusa de Jesus podem e estão sempre a acontecer”, disse D. José Tolentino.

Para o cardeal madeirense, “a fé é uma itinerância”, um “nomadismo interior”, que é “atravessada por tantas interrogações,  tantos dilemas, tantas crises” e “nada do humano é indiferente à fé.

“Nós, cristãos não podemos dizer: a minha fé não tem nada a ver com a pandemia, não tem nada a ver com o que acontece à minha volta”, lembrou.

D. José Tolentino Mendonça analisou o itinerário crente de São Pedro, nas narrativas do Evangelho, para constatar que a sua “não é uma fé plástica, pré-fabricada, abstrata, mental, isenta de turbulências da sua própria vida interna e daquilo que acontece”.

“Pedro é aquele que reconhece e ao mesmo tempo aquele que não reconhece. A fé de Pedro balança entre a proclamação, o conhecimento e a ignorância, a dureza o obstáculo ao projeto de Jesus”, afirmou.

O cardeal Tolentino Mendonça considera que a fé do crente “é sempre pouca” e o mais importante é reconhecer perante Deus “a fragilidade” de quem acredita, colocando nas “nas mãos de Deus essa escassez”.

“A fé é deixarmo-nos ser socorridos. A fé não é uma garantia, é uma confiança. É podermos viver com humildade o estado de confiança”, afirmou.

O arcebispo madeirense disse que o contexto atual e pandemia, “com as igrejas fechadas, com a impossibilidade que as assembleias têm de participar nas liturgias” deixa “um aperto ao coração.

“Nós vivemos esta Páscoa com um nó na garganta. Vivemos sentindo a provisoriedade radical da nossa humanidade. Sentimo-nos todos precários. E essa precariedade dói como um espinho cravado na nossa carne”, afirmou.

“A nossa condição de mais precários do que nunca, mais impotentes do que nunca é em si mesma uma oração”, referiu.

Para D. José Tolentino Mendonça, “Deus está presente, manifesta-se, atua nos limites da própria história” e nos “nós cegos” do quotidiano, acrescentando que, “para quem crê, Deus não está fora da história, porque ele é o crucificado”.

“Ele é o primeiro a estender a sua solidariedade redentora a todos os homens e a todas as mulheres, em qualquer circunstâncias. Jesus é o primeiro a atender, a escutar, a chegar, a abraçar, a conduzir, a confortar”, afirmou.

Interpelado sobre o gesto do Papa que, numa sexta-feira, decidiu preencher o vazio da Praça de São Pedro para uma alocução e bênção, à cidade de Roma e ao mundo, Francisco foi “como que abraçado pela força da oração”.

“A partir daquela sexta-feira, o vazio foi como que exorcizado e deixou de ser alguma coisa que quase nos sufoca e, pelo contrário, tornou-se ponto de partida. O Papa saiu do vazio e chegou até Cristo”, afirmou.

“Se abraçarmos os vazios na fé, eles tornam-se lugares para a revelação”, disse D. José Tolentino Mendonça.

No entardecer desta quarta-feira da Semana Santa, o cardeal Tolentino Mendonça refere-se às “figuras do caminho de Jesus” no teatro da Paixão.

PR

Ecclesia: Viver cada dia da Semana Santa com o cardeal Tolentino Mendonça (c/vídeo)

Semana Santa: O outro é uma «oportunidade de salvação» no cristianismo e num contexto de uma pandemia (c/vídeo)

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