Sacerdote jesuíta reflete sobre a herança de um cristianismo de sofrimento que afasta e confunde as pessoas

Lisboa, 30 mar 2021 (Ecclesia) – O padre jesuíta Vasco Pinto de Magalhães afirmou que a tristeza é compatível com a alegria, sentimentos que podem coabitar neste tempo de Semana Santa, e que a comoção perante os acontecimentos não impossibilita o reconhecimento de um sentido.

“Confundimos muitas vezes tristeza com se fosse o contrário da alegria: a tristeza não é o contrário da alegria, mas sim o pessimismo, a desistência, a negatividade, a depressão. Quando Jesus diz «afasta de mim este cálice» ou se retira para o monte das Oliveiras para rezar, está a recuperar o ânimo; há um choro profundo mas não necessariamente uma perda de alegria, de vontade de ir para a frente”, explica o padre jesuíta à Agência ECCLESIA.

“Naquele momento e circunstância, Ele precisava de ânimo para enfrentar o que estava a acontecer e que ia ser duro. Uma coisa não tira a outra, mas precisava da alegria, da vontade de ir ao encontro, da vontade de acolher o espírito e o amor do Pai para se por de pé”, acrescenta.

O padre jesuíta explica que a dificuldade no caminho não retira o sentido de missão, tal como acontece com um peregrino que na estrada “não perde o sentido de onde quer chegar”; “Às vezes o caminho custa-lhe e tem sentimentos contraditórios, mas o que lhe tiraria a alegria de chegar ao fim seria o pessimismo, a desistência. A tristeza não”.

O jesuíta recorda que a alegria tem marcado o pontificado do Papa Francisco que coloca esse convite nas Exortações Apostólicas que tem escrito, «A Alegria do evangelho», «A Alegria do Amor», «Alegrai-vos e Exultai», ou em textos seus publicados, «A Alegria de ser cristão» e «Alegres da Esperança».

“O Papa está sempre a falar da alegria, do amor, do Evangelho, da família, mas ele não está a dizer que andamos todos muito divertidos. Está a dizer que temos de ter essa atitude de consciência profunda de ser amado para poder amar, e amar é sair de si. E a Semana Santa é isto, a santidade é isto, esta limpeza de coração”, sublinha.

O padre Vasco Pinto de Magalhães alerta para um “cristianismo de sofrimento” da qual os cristãos são herdeiros, mas lembra que o mérito não é consequência do sofrimento, mas do amor.

“Pensamos que por uma pessoa sofrer muito, merece ir para o céu. Depende. Viveu o sofrimento de uma maneira positiva e construtiva ou sofreu rejeitando tudo e todos, fechando-se em si? O mérito não está no sofrimento mas no amor. E o amor é difícil, exigente, obriga ao perdão, obriga-nos a reconhecer a nossa fragilidade. O mérito está no amor”, regista.

Segundo o sacerdote o foco num cristianismo de sofrimento, afasta e confunde as pessoas.

“Ninguém quer um caminho de susto, de medo, de pesadelo. Então Deus não me salvou? Não estou a testemunhar a garantia de ser amado, na criação, ser salvo na redenção? A garantia de que a Páscoa é para todos, ninguém fica de fora? Que cristianismo estou a propor? Uma coisa pesada? Não é essa a mensagem de Jesus, embora ele tenha sido muito forte, mas o que nos veio anunciar não era um pesadelo ou uma vida de sorte para os eleitos”, esclarece.

O padre Vasco Pinto de Magalhães indica que no caminho humano “é importante ter consciência das limitações, dos pecados e fragilidades”, mas, indica, “Deus já deu a sua graça” a todos e que a Igreja nasce quando quando esclarece este convite.

Ao longo da Semana Santa, a Agência ECCLESIA propõe pequenas reflexões do padre Vasco Pinto Magalhães para encontrar a alegria nestes dias a partir dos gestos de Jesus.

LS

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