Irmã Paula Carneiro diz que pessoas não têm  oferta real de acompanhamento no sofrimento

Idanha, 18 fev 2020 (Ecclesia) – A responsável pela Casa de Saúde da Idanha (concelho de Sintra), das Irmãs Hospitaleiras, defendeu que os cuidados paliativos representam a verdadeira intervenção “dignificadora” da vida e da morte, questionando a falta de investimento no setor.

A irmã Paula Carneiro considera que a Rede Nacional de Cuidados Paliativos é burocrática e lamenta que metade das 10 camas da unidade na Idanha, contratualizadas pelo Serviço Nacional de Saúde, estejam vazias.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, a religiosa fala de um trabalho de “humanização, de controlo de sintomas, de comunicação, de apoio, até, no luto da perda”.

“O nosso país precisa de fazer um discernimento sobre o que estamos a oferecer às pessoas”, aponta.

Na Idanha, os doentes são integrados na rede de cuidados continuados e referenciados para cuidados paliativos, de acordo com as suas necessidades.

A unidade procura oferecer uma resposta “multifacetada”, com equipas multidisciplinares, incluindo áreas como “sentido de vida e de esperança”.

A irmã Paula Carneiro sustenta que não basta intervir na doença, mas “na pessoa”, por uma “morte mais digna, uma morte sem sofrimento”.

“Ajudar a pessoa a viver com dignidade os dias que, efetivamente, são os dias da sua vida”, indica a responsável pela Casa de Saúde da Idanha.

Entre as prioridades da unidade de cuidados paliativos estão falar com os doentes, as famílias, conhecer as expectativas, para que a pessoa possa “sentir-se bem com ela própria”, com a criação de espaços de “escuta, de atenção, de silêncio”.

A entrevistada lamenta a falta de tempo e de “informação”, aos doentes e às famílias, numa cultura em que se esquece progressivamente a dimensão de finitude e “vulnerabilidade”.

“Não se fala sobre a morte na sociedade atual, escondemos a morte”, aponta.

Onde está a liberdade de escolha destas pessoas, se não lhes são dadas alternativas, se não sabem a paz que pode surgir dentro de si quando consegue verbalizar que não queria colocar a família a sofrer, sobre o dia em que vai partir?”.

Segundo a irmã Paula Carneiro, a filosofia dos cuidados paliativos “ainda não entrou na transversalidade dos cuidados clínicos” e vive ainda com o espectro do “não há nada a fazer”

“A intervenção tem de ser muito precoce”, apela, alertando que “é mais fácil descartar”.

A religiosa sustenta que o valor da dignidade humana não está ligado à produtividade.

“O pedido de morte está muito antes de um pedido verbalizado, a morte já foi ocorrendo, na vida social da pessoa, nas relações”, reflete.

Sílvia Noné, psicóloga, fala, por sua vez de um trabalho feito com os doentes e suas famílias, promovendo uma “comunicação aberta”, como “facilitadora”.

“O nosso grande objetivo aqui é perceber como é que o doente está a viver a sua situação de doença, também como é que a sua família está a viver esse processo de doença”, indica.

A especialista considera que a forma como se comunica “faz toda a diferença”, desde a forma como é dada a notícia da doença, porque “a comunicação é ela mesma terapêutica”.

O Parlamento agendou para quinta-feira a discussão e votação de projetos do PS, BE, PAN, PEV e IL no sentido da despenalização da eutanásia.

SN/OC

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