Sacerdócio e sinodalidade

Homilia do bispo do Porto na na Missa Crismal

Caros irmãos nos três graus do sacerdócio ministerial,

para o bispo, é motivo de profundo contentamento, e até de alguma emoção, olhar para esta catedral e ver nela uma “multidão revestidade branco”, como refere o Apocalipse (Ap 7, 9), qual expressão da luz que vence a morte, da alegria originada na pureza, da vida nova santificada, da glória de Deus manifestada na ressurreição de Jesus, da eternidade que concede meta à materialidade. Como bons «pais de família», a nívelespiritual, sois vós quem mais insere estes dons na existência da nossa gente. Motivo mais que suficiente para que todos vos agradecessem continuamente o vosso ministério. Mas porque não são muitos os que o fazem, aqui está o bispo para vos dizer: obrigado porque, na força do Espírito, sois vós quem edifica uma Igreja diocesana de luz, alegria, vida em plenitude, fé e eternidade. Obrigado e parabéns!

​Mas não me esqueço que a passagem do Apocalipse que citei também refere que os eleitos sustentavam “palmas na mão” e tinham vindo “da grande tribulação” (Ap 7, 14). Ora, como sabemos, a Igreja sempre ligou a palma à tribulação do martírio, como símbolo de fidelidade até ao fim e da consequente glória, de beleza espiritual associada ao triunfo definitivo de Deus e do seu Ungido. Ah, e quanto isto é atual! Quantos teimam em fazer de vós sofredores e mártires, excluídos e proscritos, ridículos e desprezados. Tende a certeza que o povo simples está convosco. E, com ele, também está o bispo!

​Claro: temos de saber conquistar a simpatia dos nossos cristãos. Esta não acontece na rispidez, na receção fria, na complicação do que é simples, no mau humor, etc. Pelo contrário, dá-se naquela cordialidade que cativa, na vontade de um serviço sempre mais humanizado, numa familiaridade que se vai construindo, no fazer do crente um corresponsável dos assuntos da Igreja. A este propósito, vem-me à mente uma frase de um saudosista do passado, mas que nos deve levar a refletir: “Que figura de padre para o nosso tempo? O Cura de almas, passeando pelas ruas e praças da sua Paróquia, com sotaina e breviário na mão, saudando e recebendo saudações, ou os de agora, quais CEO’s de uma empresa, afastados do povo, a debitar ordens e regulamentos?”.

​Quem assim carateriza os padres deste nosso tempo é perfeitamente injusto e sectário. Não conhece a realidade. Não obstante, remete-nos para o estilo do Senhor Jesus, em cujo sacerdócio participamos. No dizer de Isaías, que o Salvador aplicou plenamente a Si mesmo, somos ungidos “para anunciar a Boa Nova aos pobres” e enviados “a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor”. Somos enviados às pessoas concretas. Quer dizer: a conceção do sacerdócio católico passa impreterivelmente por uma maior integração nossa na realidade da vida do povo de Deus e por uma maior participação do laicado nas tarefas e atividades das comunidades a que presidimos. Supõe um caminhar conjuntamente, uma compreensão relacional e comunitária, um exercício concreto de corresponsabilidade baseada na escuta, na reflexão e no discernimento partilhado no seio da Igreja.

​A nossa Diocese do Porto optou decididamente por um Sínodo diocesano. Terá este título ou mote: “SER PORTO: formar, reformar, transformar”. Como tem sido divulgado, muito trabalho já se fez e, se Deus quiser, no próximo dia de Pentecostes, será aberto solenemente, proposta a metodologia e linhas de força e apresentada a calendarização. Antevejo-o como uma consumação da esperança para a nossa Igreja. Oseu êxito ou fracasso dependerão, em parte determinante, do empenho dos ministros ordenados. Mas não duvido que todos daremos o mais generoso contributo. Como parte de uma Igreja concreta, cuja missão se faz em constante relação com os fiéis e as diversas vocações nela presentes, seremos motores, incentivadores, dinamizadores de todos os leigos e mesmo de outros homens e mulheres de boa vontade.

​O sacerdócio só se concebe como um serviço integrado no povo de Deus e partilhado na corresponsabilidade. Sabemos que, por motivos históricos, à medida que se acentuou o clericalismo, mais os leigos se tornaram meros «consumidores». E hoje, consumidores exigentes. Só ultrapassaremos isso promovendo a participação de todos. É necessária, de facto, uma Igreja mais «horizontal». Uma Igreja que não põe em causa a «hierarquia», mas na qual o ministro é irmão entre os irmãos, apesar do seu papel específico de líder. É urgente escutarmos mais o Espírito e com Ele e n’Ele, discernir o que Ele nos pede. Sem o Espírito, a Igreja fica uma mera organização humana. E esta, por mais importante e simpática que o seja, jamais ligará a terra ao céu.

​Para esta ligação do natural ao sobrenatural, muitos sacerdotes e diáconos têm dado um contributo a todos os títulos notável. Seja-me permitido assinalar aqueles que passaram para a Igreja triunfante ou celebram datas assinaláveis. Assim, desde 17 de abril de 2025, faleceram os seguintes sacerdotes: Cón. Arnaldo Cardoso de Pinho (15/05/2025); Pe. José da Silva Dias (26/07/2025); Pe. António de Brito Peres (25/10/2025); Pe. Fernando Silvestre Rosas Magalhães (26/10/2025); Pe. Albino de Almeida Fernandes (28/10/2025); Pe. Augusto Guedes Pinto (24/01/2026); Pe. Joaquim Valente Martingo (17/02/2026) e Pe. Joaquim Marques Ferreira (26/02/2026). E os seguintes diáconos: Diác. Orlando Lopes da Rocha (21/07/2025); Diác. Lírio da Rocha Ferreira (23/12/2025) e Diác. Adão Vieira (13/03/2026). O Senhor lhes conceda a plenitude da Luz que já acenderam na terra no coração e na mente de tantos fiéis.

Para o serviço no ministério, graças a Deus, também tivemos novos «reforços». Foram ordenados Diáconos em ordem ao sacerdócio (08/12/2025): Isaias Higuera; João Nuno Marques Silva; José Manuel Silvares Máximo e Rui Filipe Ribeiro Soares. A eles há que acrescentar o Diác. Permanente António Armindo Gomes de Sousa. E os seguintes novos sacerdotes (13/07/2025): P. Emanuel João Macedo da Mata; P. José Manuel Ferrão Abrantes e P. José Moisés Ramirez Guerra.

Ao longo deste ano civil, celebrarão Bodas sacerdotais os seguintes bons servidores do Evangelho. Em Bodas de Prata, teremos (ordenação em 2001): Pe. Arlindo Rafael da Silva Teixeira; Pe. Augusto Manuel Miranda Carneiro da Silva; Pe. Carlos Armindo Oliveira Felgueiras; Pe. Davide Carlos de Carvalho Matamá; Cón. José Alfredo Ferreira da Costa; Pe. José Augusto Ribeiro Ferreira; Pe. José Pedro da Silva Azevedo e Pe. Nelson António Vieira Soares. Em Bodas de diamante (1966), temos S.E.R. D. António Maria Bessa Taipa e Mons. Agostinho Cesário Jardim Moreira. E assinalamos ainda os belos setenta anos de sacerdócio (1956) dos caríssimos Pe. Domingos Gomes de Almeida; Pe. Joaquim Rodrigues Vieira Cavadas e Mons. Cón. Sebastião Martins Luís Brás. Curiosamente, não temos bodas de ouro, pois em 1976, no Porto, não houve ordenações, porventura efeito secundário da Revolução do 25 de abril de 1974.

​Caros sacerdotes e diáconos, projetamo-nos, para o nosso Sínodo diocesano. Projetamo-nos para o nosso povo e para uma Igreja que os inclua e os sirva. Constituirá uma das maiores ocupações e preocupações dos próximos tempos. Como tantas vezes tem sido proferido, o Sínodo não é um parlamento, uma panaceia, uma ilusão, mas um espaço para escutar o Espírito e discernir como ser Igreja hoje, ultrapassando zonas cinzentas para um renovado impulso missionário. Então, pelo amor que temos a Jesus e à sua Igreja, demos-lhe o relevo que ele merece. E que Deus permaneça convosco, vos abençoe, vos proteja e vos conceda força de ânimo para prosseguirdes nas vias do serviço e da dedicação apaixonada à tarefa da missão. E, por tudo, muito obrigado!

D. Manuel Linda
Bispo do Porto

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