Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Para que servem os rituais? Uma experiência que tive em relação a isso levou-me sentir-me em casa. Estava numa conferência científica em Heidelberg e queria ir à missa. Numa tarde antes de começar a conferência andei pelas ruas com um mapa na mão. — ”Edifício grande, uma cruz. Deve ser aqui!” — Apontei o horário e no Domingo lá estava. Entrei e, discretamente, sentei-me no fundo. Sabia que falariam em alemão, e eu não sei alemão, mas tudo era diferente e estranho. O padre não tinha a habitual estola e não estava a entender os ritmos. Voltei-me para o banco de trás, peguei num livro de cânticos e vi que se tratava de uma outra tradição cristã que não a minha. Bolas. Saí e dirigi à Igreja mais próxima indicada no mapa.

Foto de K. Mitch Hodge em Unsplash

Ao aproximar-me do local comecei a ouvir um cântico a partir de vozes alegres e enérgicas. Fiquei contente. Deve ser aqui! Mas, conforme me aproximava, vislumbrava um letreiro em alemão onde se distinguia a palavra Luther… Bolas. Não é aqui. Continuei em direcção à próxima Igreja indicada no mapa. Enquanto caminhava, cansado e desiludido, vi uma freira a entrar na terceira igreja. Não restava dúvida que tinha, finalmente, encontrado a possibilidade de participar na eucaristia.

Senti-me em casa. Não percebi uma só palavra, mas sabia perfeitamente em que momento estava e o que significava liturgicamente. Vivi uma experiência de Deus através do ritual por ser o mesmo em todo o mundo. Através dessa experiência percebi a importância dos rituais. Mas, entretanto, chegou a Covid-19.

 

Novo cenário exige algo mais

No cenário novo de pandemia, vivemos um longo período de eucaristias online. Uma benção proporcionada pelas novas tecnologias, e uma experiência completamente fora da normalidade dos rituais presenciais. Mas com o tempo, com prudência, fomos encontrando um novo normal com missas campais, pessoas de máscara, procedimentos de higiene mais rigorosos para os sacerdotes, e outros (acólitos, diáconos, ministros da comunhão, etc.), que estão ao serviço durante a missa. Tudo feito com esforço e sacrifício para bem dos mais vulneráveis a esta doença.

Pensamos que será uma situação a viver durante pouco tempo, mas não é bem assim. Ed Yong, escritor para o The Atlantic expõe num artigo interessante como os infectados com o vírus e são assímptomáticos, vivem outras dificuldades físicas que os debilitam. Fadiga, falta de concentração, entre outros, são sintomas aparentemente menores, mas que vividos ao longo do tempo produzem um efeito duro na vida das pessoas. Quer isso dizer que estamos longe de nos encontrarmos em condições de voltar ao que era antes.

O uso da máscara é desconfortável (eu que o diga, não gosto nada), mas enquanto em Portugal o número de óbitos ascendeu a mais de 1500, países muito mais populosos, e próximos da China, como o Japão, o número não chegou aos 1000. Porquê? Jeremy Howard da Universidade de S. Francisco nos EUA, que publicou, recentemente, um importante estudo de revisão da literatura sobre o uso das máscaras, afirmou ao New York Times que — «O Japão, penso que muitas pessoas concordarão, fez muita coisa errada, com o pobre distanciamento social, bares de karaoke aberto e trânsito público concentrado próximo da zona onde os surtos piores aconteceram. Mas uma coisa que o Japão fez bem foi usar máscaras.»

Nas eucaristias vemos ainda pessoas que não usam as máscaras quando, e como, seria suposto, ou que continuam a querer receber Jesus na boca, ou que não respeitam o distanciamento físico que estes tempos exigem. Eu sei que é difícil alterar rituais que fazem parte do nosso modo de viver a espiritualidade cristã, mas será que Deus estará a pedir-nos um passo em frente diante deste cenário?

Penso que esse passo seja o da profundidade.

 

Passo da profundidade

Todos os gestos em rituais são um meio, não um fim em si mesmos. Se os tempos actuais exigem sacrifícios nesses rituais, vale a pena ponderar que o fazemos pelo outro, não por nós mesmos. A origem da palavra sacrifício é fazer de algo, algo sagrado. Neste caso, é a sacralidade do outro que importa e a sua saúde que está em jogo. E contra um vírus como este, ainda não estamos em vantagem porque a medicina não evoluiu o suficiente para lidarmos com esta situação.

António Guterres refere que o cenário mais optimista de retorno à normalidade demorará dois a três anos. E se demorar mais? O que pode significar “voltar à normalidade”? Queremos a normalidade de antes? Ou seremos capazes que ver nesta época uma oportunidade para criar uma normalidade mais profunda. Onde os valores que nos levam a saber aprender cada vez mais e melhor sobre nós mesmos, os outros e o mundo que nos rodeia, orientam a nossa vida, em vez de andarmos de entretenimento a entretenimento, imersos em momentos fugazes de distracção em distracção.

Talvez este seja o momento de nos re-inventarmos e movermos em direcção a uma vida plena e profunda. Nem que isso nos custe o desconforto de uma máscara, de modo a colaborarmos na protecção dos mais frágeis. Se um desconforto favorece a vida do outro. Assim seja.

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