Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

O mês dedicado à celebração do Tempo da Criação termina a 30 de setembro, embora estejamos cada vez mais conscientes da importância de não dedicar apenas um mês, mas todo o ano. Pois, começámos já a sentir os efeitos das alterações climáticas, como a água que não chega, ou aquela que banha demais a terra, destruindo os ambientes naturais e culturais. A razão de não nos preocuparmos muito se o nosso carro continua a contribuir para estas alterações é porque não tememos o suficiente o clima. Há muitos anos que os Esquimós entenderam o que precisamos de compreender para temer.

Foto de Jeremy Thomas em Unsplash

Os Esquimós mantêm um relacionamento de maior proximidade com a natureza do que a maior parte de nós no mundo ocidental. Ou pelo menos é o que depreendi daquilo que o escritor americano Barry Lopez conta no seu livro “Artic Dreams” — «Para os Esquimós, a maioria dos relacionamentos com animais são locais e pessoais. Os animais que encontramos fazem parte da nossa comunidade, e temos obrigações em relação a eles. Um aspecto muito confuso da cultura Ocidental para os Esquimós é a nossa despersonalização dos relacionamentos com os membros humanos e animais das nossas comunidades.» — E depois Lopez partilha a origem do temor que os Esquimós têm da natureza apesar da proximidade. — «Os Esquimós não mantêm a intimidade com a natureza sem pagar um certo preço. (…) eles têm mais medo do que nós. (…) não um medo debilitante. Eles têm medo porque aceitam totalmente o que é violento e trágico na natureza. É um medo ligado ao seu conhecimento de que os eventos cataclísticos inesperados fazem tanto parte da vida, ou de realmente viver, quanto os momentos em que fazemos pausas para contemplar algo belo.» Os Esquimós não negam o conhecimento e aceitam os fins como finalidades. No mundo Ocidental, o sentimento é diferente.

Desde a revolução tecnológica que nos habituámos a controlar as coisas e o ambiente à nossa volta. Construímos carros, navios e aviões, bem como espaços climatizados onde podemos controlar a temperatura ambiente dentro das nossas casas e locais de trabalho. Estamos habituados a controlar e nem nos damos conta de que o preço desse controlo é o elevado consumo de energia. Depois da guerra na Ucrânia, começámos (da pior maneira) a darmo-nos conta de quanto consumimos em energia, sobretudo de fonte não renovável. E o preço pago pelo consumo energético não afecta apenas quem paga a factura, mas o planeta inteiro reage e todos os ecossistemas acabam por sofrer a conta que uma só espécie gerou. Parece-lhe justo?

As condições de aquecimento e secura poderão, inclusive, afectar 75% das árvores que naturalizam as nossas cidades e todas as espécies que delas dependem. Num artigo para o New Scientist, Manuel Esperon-Rodriguez na Universidade de Western Sidney na Austrália chega mesmo a afirmar que — «Essas árvores é provável que morram.» Uma solução seria humedecer as árvores das nossas cidades com água, mas também essa escasseia. Notemos que a água em falta não desapareceu porque a única forma de isso acontecer seria se fosse perdida para o espaço. A água existe, mas as alterações ao clima levam a assimetrias na sua distribuição, de tal modo que a escassez numa parte do mundo representa excesso noutra parte, e em ambas as partes, o resultado pode ser destrutivo.

Nos últimos dias notei na proliferação de moscas pela cidade e questionei-me se teria alguma coisa a ver com as alterações do clima. Mas em várias partes do mundo se tem observado a proliferação de espécies, por exemplo, os besouros-de-casca que comem a árvores no seu interior, matando-as. Não é que devamos erradicar essa espécie, mas antes as condições climáticas propícias à sua proliferação. Caso contrário, podemos encontrar uma solução para o momento, mas como tudo na natureza está ligado, corremos o risco que ao agir de um determinado modo, produzimos efeitos desconhecidos e imprevisíveis. Será que o melhor seria ficar quieto? Ou talvez saber aprender a “temer” a natureza como deve ser?

A ideia do “temor” está muitas vezes associada ao medo e a uma ansiedade sem fundamento. Mas temer a natureza como fazem os Esquimós possui um sentido diferente. Isto é, os Esquimós compreendem a diferença que existe entre a sua pequenez e a grandeza daquilo que lhes rodeia.

É verdade que, como S. João na sua primeira carta (4, 18) — «No amor não há temor; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o temor; de facto, o temor pressupõe castigo, e quem teme não é perfeito no amor.» — Mas quantas vezes não ouvimos falar do temor de Deus? Temor de Deus é temer como Ele teme, e em Provérbios 8, 13 diz que — «O temor do Senhor detesta o mal.» — Por isso, o temor de Deus liga-se à reverência e admiração que sentimos por Ele, detestando o mal. Mas poderíamos questionar se a admiração pela natureza e aceitação dos eventuais cataclísticos (que nos fazem mal) não seria aceitar algo que detestamos.

A reverência da natureza poderia passar pelo controlo dos nossos comportamentos. Sem dúvida que esse controlo é necessário, mas uma reverência inspirada pela experiência de “temor de Deus” deveria orientar os nossos comportamentos para algo mais profundo. Ninguém consegue segurar com as mãos um vento a uma velocidade de 120 km/h. Para um vento assim somos como uma folha que vai até onde o vento a levar. Deixar-te levar.

Há muito tempo que andamos a fazer a nossa vontade. E se experimentássemos não fazer a nossa vontade por um período e procurar incessantemente a Vontade de Deus? Saber aprender a “temer” a natureza significa, hoje, abandonarmo-nos ao cataclismo da Vontade de Deus, de modo a deixar morrer em nós o desejo de querer controlar tudo e a deixarmo-nos conduzir por uma Vontade diferente da nossa. A seguir ao Tempo da Criação poderá vir o Tempo da Pausa para aprender o desapego que sincroniza a nossa com a Vontade de Deus.


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