Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragança-Miranda

Ao olhar de perto a vida e a história de Natanael – que depois viria a ter o nome de Bartolomeu (Santo e Apóstolo) – e a forma como Jesus o chama (ver atentamente o Evangelho de São João, capítulo 1, versículos 45-51), fez-me compreender que é sempre Deus que se dirige, em primeiríssimo lugar, a nós, desinstalando-nos da mediocridade das nossas existências e revelando-nos o que realmente somos e estamos destinados a ser. Por outras palavras, Deus olha-me, vê-me. Isto é perturbador! Vejam, Deus vai ao ponto de se diminuir para se tornar um par entre nós, um connosco e um para nós. Ele desce e vai em busca e ao encontro do homem perdido em si mesmo. Deus vem matar o egoísta, o pavão que há dentro de mim e dentro de cada um de nós. Na verdade, este é um princípio vital da espiritualidade cristã, em contrapartida à espiritualidade pagã e desta “new age”. Segundo esta espiritualidade, é o homem que tem de ir ao encontro de Deus, como que às apalpadelas, para depois formar uma ‘crença’. Ao inverso, nós, católicos, somos, primeiramente, tocados por Deus e por isso nos é dado o dom da Fé. Como é belo isto! Ele que me escolheu é também aquele que me salvou e, continuamente, me salva. É também Aquele que me re-modela como se fosse novamente o barro do início da criação, como se voltasse ao lugar do Adão e da Eva, como se fosse o fruto das suas entranhas. Que visão tão doce e tão bela Deus tem de nós e para nós! Quem dera que todos nós nos pudéssemos envolver nesta visão de inenarrável amor.

É importante dizer que na nova ordem mundial, nesta “new age”, profunda e intimamente, laicista, quer relegar a religiosidade para a intimidade do homem, para a vida privada da pessoa humana e, pior, tornar a experiência do sagrado como uma experiência excessivamente sensorial e subjectiva. Numa linguagem futebolística, esta nova ideologia pretende colocar Deus no banco de suplentes, colocando-O à margem do protagonismo da Vida, da História e do Homem.

Segundo o teólogo e bispo, D. José Ignacio Munilla Aguirre (bispo de San Sebastián, Espanha) esta nova ideologia não é outra coisa que não uma miscelânea entre neo-marxismo e um neo-liberalismo. Mas que cultura dominante é esta? É a cultura da ideologia do desejo e de liberalidade sem reservas. Por outras palavras, é o homem que se auto-define, que quer criar um “deus” configurado a partir das suas próprias categorias de auto-satisfação e auto-referencialidade, ou seja, de um homem focado sobre si e em si mesmo, amarrado aos ‘eus’ do seu próprio ‘eu’, amuralhado no seu próprio orgulho e na arrogância do seu próprio ‘eu’. Aqui não há lugar para o outro, para a alteridade, para a doação e para a solidariedade.

Portanto, isto colide com o pensamento religioso, particularmente o católico. Porque o sentido religioso da vida é religar-se com o Criador da vida e do mundo. Não sou eu que vou dizer o que é ou o que são o homem e o mundo. É Deus quem mo diz; é Ele que, tocando na minha miséria, me faz ver o mundo como um lugar de todos e para todos, me faz ver a vida como espaço de doação aos outros e que me faz sentir, de forma positiva, parte integrante e activa na história da humanidade.

Assim compreendemos que, para a vida, levamos a vida que vivemos. A vida como eu a penso e a vida como eu a desejo repercute-se no viver quotidiano da minha dimensão social e relacional. Precisamos, porém, de tomar consciência destas nossas tendências narcisistas e hedonistas, desta nova ideologia do “new age” e desta nova ordem mundial. Isto traz consigo – quer queiramos, quer não – uma grande luta interior, uma grande batalha para lutarmos contra este novo paradigma. Não nos esqueçamos que o grande inimigo está dentro de nós mesmos: está no meu próprio ‘eu’, onde Satanás se manifesta e nos coloca como um ‘cão com coleira’, nos põe a rastejar e a comer o pó da terra, impedindo-nos de sermos “homo erectus”, homens com cabeça erguida e livres da escravidão do meu ‘eu’ graças ao amor gratuito e salvífico de Deus.

Termino com uma estória que pude ler recentemente e que achei oportuna para esta temática. Trata-se de comparar o Amor de Deus à água a ferver. O autor mostra como três coisas podem alterar no contacto com a água a ferver. Quais são essas três coisas? São elas: um ovo, uma cenoura e o pó de café. No contacto com a água a ferver o ovo endurece, a cenoura, que era dura, amolece e o pó de café deixa-se misturar com a água e torna-se numa bebida deliciosa e fabulosa. Então qual é a conclusão da estória? Compreende-se, pois, que o nosso coração pode assumir uma das três reacções (ou até as três em simultâneo) quando confrontado e envolvido no amor de Deus: ou ficar duro e insensível como o ovo, ou fica mole e frouxo como a cenoura, ou deixar-me envolver e, envolvido, misturar-me e mesclar-me com esta água a fim de me tornar uma delícia e uma doçura como pessoa e como ser humano. Façamos estas perguntas: qual dos três eu sou? Que vida é a vida que eu levo?

 

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