Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Os humanos estão condenados à extinção. É esta a opinião do paleontólogo e biólogo evolucionista Henry Gee que num artigo; para a Scientific American

argumenta como a degradação da nossa casa comum, a baixa variação genética e o declínio da fertilidade estão a encaminhar o ser humano para o colapso. É curioso que esta opinião surja no momento em que nos Estados Unidos, o aborto volta às notícias com a decisão do Supremo Tribunal a 1 de setembro de permitir ao estado do Texas que banisse a maior parte dos abortos. Se a nossa espécie está à beira do colapso, não é isso sinal suficiente para tornar o aborto e outros atentados às vida como absolutamente absurdos?

Foto de julien Tromeur em Unsplash

O excesso de população era uma preocupação dos anos 1960, mas 50 anos depois, apesar de termos duplicado, o conforto que a maioria dos seres humanos possui não diminuiu. O que está a diminuir é a capacidade de renovação da nossa espécie. E de acordo com os estudos dos paleontólogos, uma das condições para a espécie humana evoluir é a variabilidade genética. Porém, além da diminuição da fertilidade das mulheres com as incursões da mentalidade contraceptiva, também a diminuição do valor humano da maternidade em comparação com o valor associado ao sucesso profissional, são razões para a baixa variabilidade genética que compromete a sobrevivência da nossa espécie. Talvez existam sinais de que o desejo de variabilidade de experiências de vida (em vez de variabilidade genética) tenha entrado no âmbito da evolução cultural através da tecnologia, o que pode comprometer ainda mais a nossa sobrevivência. Sinais como o Meta.

Mark Zuckerberg mudou o nome do Facebook para Meta que afirma ser um novo capítulo nas conexões sociais. Quando estimulamos relacionamentos entre as pessoas jovens, levando-as a constituir família, aumentamos a variabilidade genética que garante a sobrevivência da nossa espécie, mas a orientação do Meta é diferente. Meta é o nome curto do metaverso que pretende digitalizar os relacionamentos entre as pessoas, abdicando da presença real como uma condição necessária ao desenvolvimento desses relacionamentos. Nas palavras de Zuckerberg — «irás sentir realmente que estás ali com a outra pessoa. Verás as suas expressões faciais e a linguagem corporal.» — E quando quisermos fazer um intervalo nesta nova realidade virtual, podemo-nos «teleportar para a bolha privada para estarmos sós.» Com o Facebook como a maior fonte de desinformação da história humana capaz de mudar a mente das pessoas com falsidades, o que poderá este passo representar para a nossa espécie?

Em 1992, Neal Stephenson publicou uma obra de ficção intitulada Snow Crash onde Metaverso corresponde ao nome de um mundo virtual onde um magnata procura controlar as pessoas através da realidade virtual. Aliás, depois de atrair massas de pessoas para o metaverso, esse magnata lança um vírus neuro-linguístico que lhes retira a capacidade de usar a linguagem, causando o colapso cerebral. Será Stephenson visionário? Ou a maior parte das pessoas acha que isso não passará de ficção? Por que razão terá Zuckerberg escolhido como nome para esta iniciativa algo há anos associado com uma distopia e insanidade mental das massas?

Recentemente, um grupo de investigadores canadianos publicou um estudo; onde concluiu que os jogos em realidade virtual são potenciais impulsionadores de respostas negativas emocionais que podem causar danos às pessoas se não forem geridos com atenção. Porém, o responsável do Facebook pelo Metaverso reconheceu; que essa gestão emocional é virtualmente impossível. Logo, por um lado, este projecto sacia a nossa sede de vivermos mundos imaginários com relacionamentos virtuais desprovidos de alguns dos nossos sentidos, mas por outro, esse “jogo de realidade virtual” apresenta um enorme perigo para as nossas emoções. Não é difícil imaginar um desfecho distópico. Falta a dimensão da fé.

Se as emoções que a realidade virtual despertam nas pessoas são negativas, não podemos esperar nada mais contrário à mensagem do Evangelho. Depois, muitas destas tecnologias estão apenas acessíveis aos que mais recursos têm, deixando de lado uma parte significativa da humanidade, aumentando o fosso entre os que pretendem manter o seu estilo de vida consumidor de energia e os que gostariam de ter a energia suficiente para sobreviver. Das iniciativas descontroladas e desinformativas do Meta podemos esperar mais divisão, mal-estar e menos mansidão. Aquela que Jesus procurava testemunhar e convida-nos a viver a todo o momento.

A dimensão da fé coloca o ónus das nossas escolhas na vida profunda. E devido ao aumento do consumo de gratificações instantâneas, tudo parece trivializar-se, diminuindo o tempo necessário entre uma novidade e a próxima. Ora, dado que a realidade virtual oferece mundos infindáveis e ilimitados como a nossa imaginação, a tendência para darmos corpo à ficção científica em filmes como o Real Player One, ou outros em que vivemos conectados à rede e desligados do mundo, é elevada.

É verdade que para muitas pessoas que vivem distantes, a possibilidade de se encontrarem virtualmente com algum realismo é apelativa. Falo por mim que por motivos profissionais vivo regularmente uma situação dessa natureza na família. Ou se pensar na necessidade de moderar as presenças em tempo de pandemia, poder ver o outro, nem que seja através desta realidade virtual, seria uma lufada de ar fresco. Mas alguma vez pensaram na razão por vivermos ainda a frase de S. João de que “a Deus nunca ninguém o viu”? É preciso ver para sobreviver? O que diria o cego?

A dimensão da fé abre a nossa experiência de vida à possibilidade de construir relacionamentos reais apesar das distâncias que vivemos entre nós. A dimensão da fé estimula a nossa criatividade para encontrar os modos mais imaginativos de nos fazermos presentes, seja por uma carta, um presente, ou um gesto. A dimensão da fé é o que nos ajuda a saber aprender a reconhecermos a realidade e a verdade no meio de tanta virtualidade e desinformação. A dimensão da fé abre-nos o espaço de confiança de que o futuro da nossa espécie é incorporado, em vez de desincorporado; e nessa dimensão intuímos a importância da vivência de uma profunda comunhão entre nós e com o ambiente que nos rodeia para sabermos aprender a sobreviver no mundo real.


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