Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

O que pode uma pessoa sem qualquer responsabilidade política, ou influência que os outros consideram importante na sociedade, fazer pelo planeta? O planeta é tão grande e cada um é tão pequeno, que a vida de uma pessoa fará alguma diferença planetária? Bom, se um vírus bem mais pequeno que o mais fino cabelo humano produziu alterações culturais profundas, porque não? Fazer a diferença não é uma questão de escala, mas de consciência. E, nesse sentido, importa tomar consciência de sermos agentes de comunhão.

Há uma realidade inegável. Hoje, sabemos que o ser humano possui a capacidade de mudar a face do planeta, tornando-se, assim, numa força geológica da natureza. Por esse motivo, dizemos que o planeta entrou no Antropoceno. Enquanto um vírus como a Covid-19 consegue-se lidar no nosso tempo de vida, as alterações climáticas são como um comboio que poderá ser difícil travar se nada fizermos agora. Porém, fazer alguma coisa passa por cada pessoa começar a tomar consciência da necessidade de uma nova atitude mental em relação ao meio ambiente para lidar com as alterações climáticas que vivemos interiormente.

Passaram cinco anos desde que o Papa Francisco nos ofereceu a Laudato Si’. E de 23 a 25 de outubro, em Castelgandolfo e via Zoom, a iniciativa cultural EcoOne, ligada ao Movimento dos Focolares, reuniu participantes de todo o mundo para reflectir sobre os novos caminhos que a Encíclica aponta na direcção de uma Ecologia Integral. Partilho-vos um pouco do meu contributo neste congresso que procurava a direcção para uma nova consciência ambiental.

O modo como o ser humano se tornou numa força geológica tem a ver com a evolução do nosso planeta. Toda a dinâmica provém da capacidade de captar a energia solar. Primeiro, as plantas conseguiram-no através da fotossíntese. Depois, nós conseguimos ao converter essa energia em trabalho. Mas o modo mais recente de conversão de energia, e que tem estado muito associado com o início do Antropoceno, dando origem à Grande Aceleração a partir da década de 50 do século XX, foi a conversão da energia solar em informação. E, assim, começa a Era da Informação.

Na Era da Informação (e há quem fale já de uma nova Era, a da Imaginação), ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa, a economia não é a melhor metáfora evolutiva, mas antes a comunicação. Nesse sentido, a sobrevivência na Era da Informação está reservada aos mais aptos a comunicar. Qual a origem da palavra comunicar senão a palavra: comunhão? Mais do que ser agente de comunicação, uma nova consciência ambiental passa por nos reconhecermos como agentes de comunhão. Basta seguir o exemplo que encontramos na natureza.

Um grupo de investigadores, ao estudar as florestas, encontrou uma verdadeira Wood Wide Web entre as árvores e os fungos que nascem e crescem à sua volta. Entre esses forma-se uma ligação de comunhão para troca de informações sobre insectos, clima e outros perigos, de modo a ajudar as árvores a sobreviver.

Um outro exemplo encontrei num dos episódios da nova série da Apple TV+ Tiny World, onde uma espécie de acácia vive em comunhão simbiótica com as formigas. Apenas das folhas serem pontiagudas, as girafas conseguem comê-las, mas as formigas abrigadas e alimentadas por estas árvores correm ao seu socorro, e conseguem com picadas na língua afastar as girafas. São dois exemplos daquilo que o astrofísico Brian Swimme e o eco-teólogo Thomas Berry referem como — «ver nesta actividade a ordem cosmológica da comunhão.»

Comunhão não é uma palavra exclusivamente teológica. É bem mais abrangente e profunda, significando mútua íntima imanência. Mas, para podermos ser agentes dessa comunhão, um dos maiores desafios que enfrentamos na Era da Informação é a capacidade de prestar atenção.

Com o desenvolvimento da internet e da velocidade de comunicação, bem como das redes sociais e o email, emerge uma nova economia da atenção. Isto é, a fonte dos milhares de milhões de Euros ganhos por empresas como o Facebook, Twitter, Google, etc., provém da capacidade de capturar a nossa atenção. Recordo o recente documentário da Netflix, “O Dilema da Redes Sociais” que recomendo. Recuperar a nossa atenção passa por nos envolvermos activamente no presente, notando coisas novas, ao que a psicóloga de Harvard, Ellen Langer, designa por atenção plena (mindfulness). E não há melhor ambiente para recuperar a nossa atenção do que a natureza.

Há dois ou três anos, eu comecei a experimentar alguns ataques de ansiedade que me impediam de conduzir. Nessa altura de férias, fomos descansar para uma casa de campo. A brisa fresca pela manhã, o canto dos pássaros e a dança das árvores ao som do vento, levou-me a perceber o quanto estava cansado por demasiado tempo passado em frente aos ecrãs. Imerso na natureza comecei a sentir-me melhor e percebi como passar tempo num ambiente natural não é somente um belo pensamento, mas uma experiência cognitiva que me afectava fisicamente. É o que mais tarde vim a saber ser o que Rachel e Stephen Kaplan haviam desenvolvido como a Teoria da Restauração da Atenção. A comunhão da natureza em relação a mim, melhorou a minha saúde e foi aí que pensei o quanto não poderíamos fazer se nos tornássemos agentes de comunhão para melhorar a saúde física, mental e social das comunidades onde vivemos.

Há quem pense ser imune à captura da sua atenção e ter o controlo absoluto sobre o tempo que dedica à vida digital na Era da Informação. Vive imerso num fluxo imenso de informação que preenche a sua vida 24 sobre 24h, mas, pergunto — é mais feliz hoje? Sente-se cheio de energia ao fim de 1h a deslizar o dedo pelo mural do Facebook?

O facto de estarmos conectarmos digitalmente 24h/365dias não quer dizer que vivamos espaços de comunhão que nos dão profundidade e plenitude de vida. Muito pelo contrário, a maior parte das pessoas que experimenta um jejum das redes sociais descobre quanto tempo a mais tem para fazer tudo aquilo que antes não havia qualquer tempo para se dedicar.

Saber aprender a ser agentes de comunhão passa pela criação de diversos hábitos universais e transformativos, mas sugiro começar por um, muito simples, e muito eficaz: caminhar pela natureza. Não importa se por 1 ou 10 minutos. Caminhar pela natureza desenvolve a nossa receptividade aos momentos de comunhão e leva-nos a experimentar momentos de presença autêntica de espaço e tempo que nos restauram.

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