Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

A primeira oportunidade que o Servo dos Servos (SS) o Papa Francisco refere na reflexão; inicial deste Sínodo dos Bispos é a de «encaminhar-nos, não ocasionalmente, mas estruturalmente para uma Igreja sinodal: um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar.» A ideia não é a de re-pensar o ser da Igreja, mas o modo de ser Igreja. Uma Igreja diferente. Mas há quem receie que a abertura daqueles que estão habituados a cantar a solo a que nos tornemos coro, se torne numa peixaria em dia de mercado cheio de gente.

Todos os coros têm um maestro. O Papa Francisco é claro ao reforçar a realidade de que o nosso Maestro é o Espírito Santo, não ele próprio, ou qualquer cardeal, bispo ou presbítero, ou leigo responsável seja pelo que for. É Deus-Amor. Por isso, quem tem receio de re-pensar as estruturas da Igreja para dar voz a todos, será que acredita na acção do Espírito Santo? O desafio está em como fazê-lo sem entrar na ilusão de que uns têm mais noção daquilo que o Espírito nos sugere do que outros. Mas podemos ver o exemplo dos grupos de oração do renovamento carismático.

Num grupo de oração, a leitura e meditação da Palavra de Deus alimenta a oração ao longo do tempo em que estamos juntos. E sempre admirei como é feito esse discernimento. Alguém da Assembleia abre a Bíblia e lendo uma passagem sente de a pôr em comum com o grupo, mas confronta-se com o irmão que está ao lado. Se esse ao ler a passagem confirma-a, quem a escolheu lê para todos; mas se não a confirma, imediatamente perde a ideia e continua em oração. O mesmo acontece com um cântico ou qualquer outra iniciativa que se pretende propor a todo o grupo. São traços de vivência de uma Igreja Sinodal onde a verticalidade está no discernimento comunitário e a horizontalidade está na possibilidade de qualquer membro poder propor algo aos restantes. Porém, há quem se queixe de falta de verticalidade na Igreja.

Um artigo de opinião do autor católico Robert Royal mostra o sentir americano em relação a esta iniciativa do Papa Francisco criticando a reestruturação e apelidando-a de radical. Em primeiro lugar considera a sinodalidade como um entusiasmo momentâneo, mas pergunta a quem se dirige o Papa quando aponta três riscos: o formalismo (não elitismo como Royal refere, pois, o Papa restringe o elitismo à ordem presbiterial separada dos leigos); o intelectualismo; e o imobilismo.

Na opinião deste autor, a verticalidade na vida espiritual, como na ordem hierárquica, é uma necessidade para uma entidade global como a Igreja católica. O aumento da dimensão horizontal da Igreja, expressa pela justiça social, esconde a transcendência que impede a política dos totalitarismos. E uma Igreja demasiado “horizontal” acaba por morrer com essa posição como os defuntos num cemitério. O intelectualismo é o que nos impede de ir por onde a “realidade” vai, por isso, alguma abstracção no pensamento católico é necessária para combater realidades desvirtuadas do caminho evangélico. E, por fim, o Papa deveria ficar descansado porque imobilismo é o que não há na Igreja. Há um sector da Igreja que prefere manter a tarefa primordial como — «salvar as almas» — na visão deste autor. Não é fácil sairmos da zona de conforto, mas é esse o convite que Deus nos faz através da inspiração do Papa Francisco com o re-pensar das estrutura para darmos ao mundo uma experiência ímpar de Igreja Sinodal.

Reconheço que muitas actividades dão-nos uma sensação de realização, mas servem apenas para cumprir calendário. Reconheço que, por vezes, somos capazes de elaborar pensamentos lindíssimos, mas completamente desprovidos de vida. E reconheço que uma grande parte das pessoas prefere manter as coisas como estão quando os tempos estão a mudar, e a exigência da escuta atenta e desapegada da Voz do Espírito é mais importante do que nunca. As oportunidades que sair da zona de conforto nos proporciona são — segundo o Papa Francisco — a Igreja Sinodal; a Igreja da Escuta; e a Igreja da Proximidade. E modificar as estruturas da Igreja para dar acolher a potência contida nestas oportunidades pode dar alguma dor de cabeça a quem está habituado a que não lhes questionem o que pensam; a quem está mais habituado a falar do que a escutar; e a quem gosta de manter as distâncias porque — «alto lá! Respeitinho porque não estamos ao mesmo nível.» É uma caricatura, bem sei, mas muitos ecos oiço e assisto que não se afastam desta dor quando nos fechamos à Vontade de Deus que não cessa de nos surpreender.

Uma vez estava numa acção de formação de agentes pastorais e tive de aguentar quase uma hora a falarem-nos sobre estruturas. Recordo ter pensado e escrito que pensar demasiadamente nas estruturas, mata o que se estrutura, porque as verdadeiras estruturas provêm da (e existem para a) vida. Por isso, mexer nas estruturas implica re-pensar a vida e avaliar se estamos apegados mais às nossas ideias do que à Vontade de Deus, sempre nova e renovadora.

Assumo que a minha opinião é parcial e estou totalmente em sintonia com o sentir do Papa Francisco de que uma Igreja para o século XXI, como sinodal, fundamenta-se na comunhão, participação e missão. Pois, são três palavras-chave que implicam relação, e não há realidade mais fundamental na narrativa universal do que a relacional. Não é o que esperaríamos de um Deus-Trindade, Pessoas-em-Comunhão? A hierarquização dos relacionamentos na Igreja precisa de ir à raiz dessa palavra — hierarquia – que significa liderança sagrada. Por isso, comecei este artigo referindo-me a SS o Papa Francisco não como Sua Santidade, mas como Servo dos Servos. A hierarquia é como uma pirâmide invertida onde o que mais responsabilidade têm são os que se colocam na base, ao serviço de todos, sobretudo dos últimos. Abrir o re-pensar das estruturas da Igreja à participação de todos não gerar anarquia, mas hierarquia no sentido de que cada ideia é uma responsabilidade, e faz daqueles que as dão líderes que se colocam ao serviço. Não foi esse o exemplo de Jesus que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão» (Mt 20, 28). Ao pensar nos desafios que a concretização de uma Igreja Sinodal terá de enfrentar, só me recordo das primeiras palavras de São João Paulo II, ecoando as de Jesus — «Não tenhais medo!»


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