Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Somos todos um pouco precipitados nos nossos juízos. Quando a 6 de janeiro, o papa Francisco fez um comentário da Audiência Geral onde dizia — «Há dias, falei sobre o inverno demográfico que há atualmente: as pessoas não querem ter filhos, ou apenas um e nada mais. E muitos casais não têm filhos porque não querem, ou têm só um porque não querem outros, mas têm dois cães, dois gatos… Pois é, cães e gatos ocupam o lugar dos filhos. Sim, faz rir, entendo, mas é a realidade. E esta negação da paternidade e da maternidade diminui-nos, cancela a nossa humanidade.» Que horror! Uma papa que sugere que os adultos que optam por animais em vez de crianças são egoístas e são ainda parte da razão de estarmos a viver um inverno demográfico no mundo ocidental. Terei sido precipitado no meu juízo daquilo que o papa realmente disse?

Foto de Sammy Williams em Unsplash

A nuance daquilo que o papa Francisco disse está em focar-se em casais que têm possibilidades financeiras, estrutura familiar, etc., para acolher crianças no seio familiar, mas ter animais, negando por opção a paternidade e maternidade. A parte que custa muito ouvir, mas eu subscrevo, é que negar a paternidade e maternidade, optando por animais, diminui-nos e retira-nos um pouco de humanidade. Ele nada refere que tenha a ver com pessoas que não possam ter filhos, ou pessoas que não têm meios para sustentar os filhos, mas somente aqueles que optam, conscientemente, pelos animais de estimação quando teriam todas as condições necessárias e suficientes para ter filhos. Por que razão as pessoas se precipitaram a julgar erradamente o que o papa disse?

Todas as famílias sabem que os filhos exigem sacrifícios, aprender a lidar com a confusão, saber abdicar dos nossos planos para os acomodar aos dos miúdos, e não existem famílias iguais no modo de ser e fazer. Decidir acolher uma criança neste mundo é profundamente pessoal e irreversível. Daí que as pessoas reajam mais facilmente a tudo o que tem a ver com trazer crianças ao mundo. Mas a emergência de partidos que procuram defender os direitos dos animais, e todo o movimento ecológico, sobretudo, o que a Laudato Si’ inspira, são sinais importantes do valor que o relacionamento com os animais possui. O problema está em colocar crianças e animais de estimação na mesma frase. Nuances à parte, gera tomadas de posição precipitadas. Porém, existem outros tópicos fracturantes que semeiam divisão nas comunidades e na sociedade em geral. Por exemplo, a homossexualidade no mundo católico.

Numa notícia; do Sete Margens tomei conhecimento de um Manifesto; escrito por diversos leigos e sacerdotes alemães intitulado “Por uma igreja sem medo”. São pessoas que se identificam « entre outras coisas, como lésbicas, homossexuais, bissexuais, inter-sexuais, queer e não binários.» Quando li a notícia, a minha reacção foi precipitada, considerando que o Manifesto semeia a divisão e entra na actual imposição cultural de uma minoria que mina a noção de família assente no relacionamento de um homem com uma mulher, quando essa é fonte de equilíbrio e progresso social. Apela-se à igualdade e usa-se uma linguagem contra a discriminação reafirmando ser uma luta que devia pertencer a todos pela dignidade das escolhas de alguns. Talvez me tenha precipitado ao criticar este manifesto, mas não consigo deixar de questionar, no caso dos sacerdotes, por que razão “sentem” necessidade de afirmar a sua orientação sexual quando são celibatários?!

No âmbito de uma Igreja Sinodal, acredito na importância de dar voz a todos e em tudo, incluindo aqueles que partilham dos valores e ideias apresentados neste manifesto. Se alguém manifesta algo que penso de uma maneira completamente oposta, o amor a essa pessoa deve superar qualquer divergência de opinião ou experiências. Confesso ter alguma dificuldade em entender a necessidade deste tipo de afirmações de reconhecimento sobre a orientação sexual, embora vislumbre a sua importância pelo facto de sermos um corpo-alma. Logo, tudo o que sentimos através do corpo afecta a vivência espiritual. Não tenho uma resposta para este tipo de manifestos, mas estou certo que a sua emergência, como a reacção ao manifesto, tornam-nos susceptíveis a atitudes precipitadas. O que quer isso dizer?

Quando alguém propõe algo disruptivo em ciência, a atitude seguida é, usualmente, a do estudo e a da serena procura pela verdade. Quantas vezes um impasse resolveu-se numa simples caminhada, ou depois de uma boa noite de sono. Mas o mais comum em ciência é demorar anos até encontrar uma solução, como aconteceu a Einstein quando desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral, Obra-Prima que alterou profundamente a nossa visão do mundo. Mais estudo requer que o assunto seja falado entre as pessoas, mas só podemos produzir qualquer juízo depois de termos compreendido as raízes daquilo que parece disruptivo.

Por vezes, sinto um certo preconceito da parte dos que subscrevem o lado minoritário dos temas fracturantes no seio da vida católica em relação à maioria que acha estranho uma orientação sexual entre pessoas do mesmo sexo, ou que um casal, conscientemente, prefira ter animais que a desenvolver a sua capacidade paterna e materna. O preconceito de que não partilhar das mesmas opiniões faz de nós “fóbicos” do valores subjacentes a essas. Um preconceito que gera tanta precipitação nos gestos daqueles que se consideram LBTIQ+, como naqueles que não se identificam com essas escolhas. A dignidade de uma pessoa está no quanto essa é amor e contagia os outros de amor. Um amor que está para além do corporal, mas envolve a pessoa no seu todo que é corpo-alma. Por isso, talvez seja necessário que todos desenvolvamos uma certa qualidade.

Saber aprender a não ser precipitado é trabalhar em nós a qualidade da clareza. Como li do jornalista Daniel Pink, essa é — «a capacidade de ajudar os outros a enfrentarem as situações em que se encontram a partir de novos e mais reveladores pontos de vista e a identificarem problemas de que não tinham consciência.» Pois, identificar um problema exige mais criatividade do que resolver um problema. Por vezes, um sereno minuto de silêncio entre ler, ver ou ouvir alguém que escreveu, mostrou ou nos disse algo que nos choca, pode ser o tempo suficiente para ver com maior clareza qual a melhor manifestação de amor que leva a acolher o outro como Deus gostaria que o fizéssemos.


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