Ator vai receber prémio Árvore da Vida/Padre Manuel Antunes 2018, da Igreja Católica

Lisboa, 01 jun 2018 (Ecclesia) – O ator Ruy de Carvalho afirma que gostava de, em palco, interpretar um palhaço que “saiba dizer as coisas que podem melhorar os homens”, e pede um maior investimento na Cultura.

“Eu gostava de fazer um palhaço. Gosto muito de palhaços. Ainda não fiz nenhum, verdadeiramente, com as suas qualidades e defeitos. Com o nariz encarnado, tem de ser simpático e de saber dizer as coisas que podem melhorar os homens”, afirma em entrevista à Agência ECCLESIA, em parceria com a Rádio Renascença e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Aos 91 anos de vida e 76 de carreira, Ruy de Carvalho foi reconhecido pela Igreja católica com o prémio Árvore da Vida/Padre Manuel Antunes 2018, enaltecendo o seu percurso, a vida e obra.

O ator lamenta que o poder da representação hoje em Portugal seja pouco.

“A cultura está um pouco abandonada. Não conta. Andamos a pedir 1% do orçamento de Estado, é muito pouco”, afirma, lamentando a falta de “juízo” dos bancos.

“Há outras coisas que levam muito dinheiro e não são tão úteis. A saúde é útil, a educação é útil, mas há outras coisas que levam dinheiro. Os bancos deveriam ter tido mais juízo no dinheiro que emprestavam”, observa.

A cultura é “a arca do tesouro de um povo” e nesse sentido, afirma Ruy de Carvalho, o sentido crítico e construtivo “que se aprende na escola” deve ser cultivado.

“Estamos muito virados para coisas que não deixam um homem raciocinar e por em prática o que se aprende na escola. Temos de ter um sentido crítico e construtivo, saber viver com os nossos semelhantes e, sobretudo, viver em liberdade que é muito difícil”, refere.

Numa carreira com 76 anos, dividida entre o teatro, o cinema e a televisão, Ruy de Carvalho reconhece que o seu coração está em palco, local “quente”, onde se sente tudo o que vem da plateia, mas sublinha que o que gosta é de representar.

“O palco é um bicho, entra em nós e nunca mais nos larga até ao fim da vida”.

Às novas gerações com quem trabalha reconhece “muito talento”; da sua parte afirma um “enorme prazer” em ajudar “sem impor”, se assim o desejarem.

“Os novos que vêm trazem a reciclagem. É muito mau viver na experiência. A experiência é evolutiva, temos de caminhar com as novidades que os mais novos vão trazendo”.

Dos novos que têm “muito talento e muita qualidade” espera que continuem o teatro em Portugal.

“Quando eu partir, vou partir um dia destes, não é? Ninguém cá fica para compota… Há quem continue o teatro em Portugal e espero que os que mandam continuem a apoiar a cultura, o teatro, a música, o bailado, a escrita, a escultura, a arquitetura que é o que vai ficando e que marca a evolução das épocas”.

Aos 91 anos Ruy de Carvalho mantém uma memória viva sobre o que fez e com quem trabalhou, prova de um grande respeito pelo percurso dos seus pares e pelos escritores que lhe deram material para representar.

“Não posso improvisar Eça de Queiroz ou o Camilo Castelo Branco. São pessoas que têm o seu estilo como o Alexandre Herculano, o Almeida Garrett, o José Saramago, o Manuel da Fonseca, o José Cardoso Pires, com quem fiz uma peça «O Render dos Heróis», um escritor que merecia o Nobel da Literatura”, precisa.

A entrevista ao ator Ruy de Carvalho pode ser visionada no programa 70×7, emitido no próximo domingo às 07h30.

LS

Partilhar:
Share