Religiões/Portugal: Novo estudo destaca «regime social de valorização da diversidade»

«Pertença religiosa pode estar agora ao serviço da construção da identidade pessoal, mais do que em função da edificação da identidade coletiva» – Alfredo Teixeira

Lisboa, 28 out 2026 (Ecclesia) – O novo estudo ‘Um Atlas da Religião em Portugal’, que é apresentado hoje, refere que a pertença religiosa no país passou da construção da identidade coletiva para a afirmação pessoal.

“Em muitos casos, a pertença religiosa pode estar agora ao serviço da construção da identidade pessoal, mais do que em função da edificação da identidade coletiva”, afirmam o antropólogo e coordenador da investigação, Alfredo Teixeira, e o sociólogo José Pereira Coutinho.

O estudo foi elaborado pelo Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER), da Universidade Católica Portuguesa (CUP) em parceria com o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Numa reflexão sobre “Religião, território e cronologia”, Alfredo Teixeira e José Pereira Coutinho abordam a “passagem de uma situação histórica de prevalência do silogismo mítico ‘português, logo católico’ para um regime social de valorização da diversidade”.

Apesar das dinâmicas de “descatolicização societal” e da perda de recursos da Igreja Católica para a sua “reprodução institucional”, os autores destacam a “resiliência própria de uma religião ‘culturalizada’, na qual a pertença apresenta uma enorme plasticidade”.

Já na análise sub-regional redigida com Margarida Franca, Alfredo Teixeira aponta que a manutenção dos valores mais elevados de catolicismo em zonas do interior norte e centro acompanha o envelhecimento e a quebra demográfica, “facilitando a reprodução de uma religião herdada” assente nas estruturas da “civilização paroquial” e da “religião popular portuguesa”.

Em sentido oposto, o investigador observa que os territórios rurais reconfigurados pela agricultura intensiva e pelos novos fluxos migratórios transnacionais, como o Litoral Alentejano, demonstram “poucas afinidades com o Portugal rural herdeiro da civilização paroquial católica”.

No ensaio de abertura do volume, intitulado ‘Mapas de religião, mapas de cidadania’, o coordenador afasta o paradigma clássico de Émile Durkheim quanto à cultura como “homogeneidade”, recorrendo à antropologia contemporânea para definir as culturas como “tecidos frágeis, constantemente em recomposição”.

Advertindo que “um atlas não pode, pois, ser lido como um objeto inerte ou puro reflexo de território”, o antropólogo assinala que as simplificações estatísticas correm o risco de “invisibilizar as identidades religiosas minoritárias” e se revelam incapazes de captar “as formas não institucionalizadas de religiosidade”.

Alfredo Teixeira propõe que o cruzamento de escalas nacionais e locais permite transformar a cartografia num instrumento de mediação e coesão social, onde os mapas de religião se tornem “mapas de cidadania”.

Perante a “vincada diferença entre os que nominalmente se identificam com uma tradição religiosa e aqueles que participam ativamente na sua inscrição nos territórios”, Alfredo Teixeira propõe que os futuros Censos portugueses introduzam um item diferenciador capaz de distinguir “identidades religiosas nominais e identidades proativas”.

O investigador do CITER-UCP considera igualmente que a categoria censitária de não pertença religiosa se afigura “demasiado rígida para compreender a atual geografia da desfiliação religiosa”, ocultando as múltiplas expressões de crentes sem filiação institucional.

Ao justificar a escolha do artigo indefinido no título ‘Um Atlas da Religião em Portugal’, o coordenador conclui que a equipa científica “renunciou a qualquer vocação totalizante”, concebendo a publicação como uma infraestrutura aberta a futuros estratos de investigação.

A apresentação pública da obra decorre hoje, às 18h30, na livraria da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, em articulação com a plataforma interativa ‘Quantos têm a minha religião?’, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

OC

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