Paulo Rocha, Agência Ecclesia

Há um projeto na televisão e na rádio em Portugal que não figura entre “os mais vistos” e raramente alimenta comentários emotivos nas redes sociais ou grupos de discussão “digital”. Mas, acredito, tem um papel principal na cultura de diálogo inter-religioso e na promoção do conhecimento do diferente, também em contexto crente. O programa “A Fé dos Homens” está em antena há 25 anos e, no contexto do Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, é oportuno evocar.

Foi no dia 16 de maio de 1997 que se selou um acordo entre 13 confissões religiosas e a RTP. O dia celebrou um diálogo entre comunidades e o operador de serviço público de rádio e televisão, onde deixaram a sua assinatura representantes da Aliança Evangélica Portuguesa, Comunidade Baha’i de Portugal, Comunidade Hindu de Portugal, Comunidade Islâmica de Lisboa, Comunidade Israelita de Portugal, Igreja Apostólica Católica Ortodoxa, Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia, Conselho Português de Igrejas Cristãs, Igreja Católica Ortodoxa, Igreja da Ciência Cristã e Igreja Velho Católica.

Quatro meses depois, a meio do mês de setembro de 1997, iniciavam as emissões do programa “A Fé dos Homens” na RTP2, de segunda a sexta-feira, pelas 18h30. Bastante tempo depois, no dia 1 de setembro de 2009, o projeto chegava à Antena 1, com o mesmo nome.

O que se vê e ouve em antena, tanto no operador de serviço público de rádio como de televisão, é uma parte do alcance deste projeto. De facto, antes das emissões, foi necessário fomentar uma aproximação entre diferentes confissões e comunidades religiosas para construir um projeto em conjunto, desde os seus fundamentos, no planeamento e depois na sua implementação, ao longo destes 25 anos: porque o diálogo com a RTP é permanente, a participação de confissões e comunidades religiosas vai sofrendo alterações e as adequações da produção aos recursos disponíveis um constante desafio. E tudo isto é tratado em conjunto, em diálogo.

O projeto nasceu com homens e mulheres que, antes de tudo, cultivaram amizades autênticas. António Rego, Dias Bravo, Mário Mota Marques, Esther Mucznik, Mohamed Abed são alguns dos protagonistas de uma nova era no diálogo entre confissões religiosas, que a comunicação social ajudou a consolidar. Diálogo que acontecia tanto nas emissões de cada programa, como nos encontros de planificação conjunta, que eram também uma ocasião de partilha de tradições, religiosas ou gastronómicas. Nessas décadas iniciais, como nas atuais…

Os 25 anos de emissão coincidem com uma proposta de alteração de grelha na Antena 1: toda a programação da rádio foi alterada, o que implicou adequar também, o formato de “A Fé dos Homens” à nova lógica implementada pela estação de serviço público. Diante desse desafio, as confissões religiosas quiseram dar mais um sinal de que o projeto é de diálogo efetivo entre as confissões participantes. E surgiu a ideia de, para além de coexistirem lado a lado nas emissões de rádio, criarem um espaço de diálogo efetivo, sobre temas que a todas interessam. Assim, o programa da primeira quinta-feira de cada mês não se reparte entre várias confissões religiosas, mas é de todas, em diálogo, num encontro permanente em torno de temas que, na inspiração de cada tradição religiosa, se reflete na construção do bem comum. Demos-lhe o nome de “Diálogos” porque se trata, de facto, de dialogo permanente entre mais de uma dezena de comunidades e confissões religiosas.

Como toda a comunicação, também a que se ocupa do tema “religião” tem de se recriar em cada tempo com novas estratégias, novos protagonistas e criatividade permanente… Não para construir mensagens por conveniência, mas para descobrir a energia e a surpresa das mensagens que mudaram a humanidade, contando-a através da história de tantas mulheres e tantos homens, em cada geração. E parece-me que este é o propósito principal de todos os projetos mediáticos, adequados a cada tempo, na gramática de cada meio. Depois, o que diz respeito à informação sobre factos que implicam pessoas ou organizações religiosas, sobretudo nas suas lideranças, apenas tem em duas caraterísticas a possibilidade de sobreviver, não só no ambiente mediático mas sobretudo no religioso: verdade e transparência.

A presença inter-religiosa nos media emergiu naturalmente na história da comunicação social em Portugal, com reflexos naturalmente positivos em toda a sociedade. Tempos houve em que projetos pessoais ou institucionais na imprensa foram a fórmula para chegar à comunidade, noutros a rádio teve um papel fundamental e tentativas passaram também pela televisão. Projetos que coexistiram e coexistem, sem fechar as dinâmicas da comunicação às vagas que a determinam, em cada tempo, e que mostram criatividade permanente, capacidade de recriar estratégias de comunicação que permitam a inscrição na sociedade e sobretudo chegar a todos os públicos.

Na atualidade, cresce a necessidade de deitar mão a uma nova mediação entre os factos e os leitores/ouvintes/telespectadores, que não passa só pelo jornalismo, mas é muitas vezes confiada a assessorias, com um quadro normativo próprio e que cruza as dinâmicas de comunicação com estatísticas, sondagens ou indicadores comerciais.

Novos desafios que é necessário assumir para a comunicação também do tema “religião”, nomeadamente na Igreja Católica, na evidência de que a narrativa com garantias dadas tem 2000 anos e teve na sua origem mestres da comunicação. Basta seguir o exemplo de quatro autores!

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