Afonso Borga, Diocese de Santarém

A pandemia que vivemos trouxe novos desafios à forma como nos relacionamos e vivemos a comunidade. Ainda que seja cedo para percecionarmos uma grande parte dos efeitos sociais resultantes da pandemia, podemos afirmar que as normas de distanciamento social e de restrições no comportamento social acentuaram em muitos casos o isolamento social e a desconfiança no “outro”.  Estes desafios trazem, no entanto, também novas oportunidades, de fortalecimento do sentido de comunidade, de que são exemplo as múltiplas iniciativas de apoio de vizinhança durante a quarentena.

As comunidades reinventam-se, com momentos “à janela”, demonstrações de solidariedade e de apoio comunitário, redes de voluntariado de proximidade e, em muitos casos, através do recurso às novas tecnologias, que tornou mais fácil e acessível o contacto com amigos e família à distância. Plataformas que usamos diariamente, como o Whatsapp o Skype ou o Facebook tornaram-se, ainda mais, parte do dia a dia e permitem-nos encurtarmos distâncias.  Um bom exemplo trata-se das novas formas de voluntariado e apoio à comunidade, que se adaptaram à realidade atual, tendo as organizações promotoras de voluntariado desenvolvido outras formas de voluntariado e de cidadania ativa, como é exemplo o voluntariado digital ou iniciativas de acompanhamento telefónico.

Mas estes desafios são maiores e continuam a colocar “à margem” muitos, pelo que esta proximidade digital não é suficiente, como aliás nos elucida o Papa Francisco na última encíclica “Fratelli Tutti”, realçando que as relações digitais “têm aparência de sociabilidade, mas não constroem verdadeiramente um «nós»”

O exercício de repensarmos a vida pós pandemia deve assim envolver necessariamente o modo como vivemos “a” e “em” comunidade, como percecionamos o “nós”, partindo do mote de não deixarmos ninguém para trás, de como criamos novas dinâmicas que fortaleçam as redes de apoio formal e informal.  Precisamos de reforçar a nossa presença e atenção com os que nos estão próximos, mas também, como nos impele o Papa Francisco na mesma encíclica, a “alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim”.

Precisamos, mais do que nunca, de reforçar o sentido de comunidade e procurarmos criar pontes, aumentando o sentimento de união e empatia para com quem nos rodeia e que está a passar por situações iguais ou semelhantes à nossa.

Afonso Borga
Mestre em Estudos de Desenvolvimento e Gestor de Projetos de Responsabilidade Social. 

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