Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila Real 

Vagueava eu, um dia, pela bonita biblioteca do Seminário Maior do Porto, à procura de um novo livro que me oferecesse mais umas boas horas de agradável leitura, e, sem querer, chega-me às mãos «Introdução ao Cristianismo», do agora falecido Papa Bento XVI, versão brasileira, editado em 1968. É uma sorte termos entre mãos o livro certo para o momento certo da vida. Recomendo-o vivamente a todos os cristãos. Com a clareza e a profundidade de um proeminente teólogo e um fecundo pensador, o Papa Bento XVI (então Professor Ratzinger) reflete sobre os contornos e ambiguidades de ser crente e faz uma apresentação geral do Cristianismo, defendendo a razoabilidade e riqueza do conteúdo e da vivência da fé cristã, que não nos deixa indiferentes.

No início do livro, mais concretamente no prefácio da primeira edição e na introdução, O Papa Bento XVI conta duas histórias simples, de que se serviu para refletir sobre o valor da fé e da difícil condição de ser crente. A primeira história é a do «Joãozinho feliz», uma boa parábola daquilo que muitos crentes católicos têm feito da fé nos últimos anos e que outros poderão fazer ou não. Joãozinho tinha ganho uma barra de ouro com o seu esforço e trabalho. Achando que ela era demasiado pesada e incómoda, troco-a primeiro por um cavalo, depois trocou o cavalo por uma vaca, a vaca por um ganso e o ganso por uma pedra de amolar. Como esta lhe pareceu insignificante e de pouco valor, acabou por lançá-la ao rio. Livre de tudo, achou que, finalmente, tinha ganho o dom precioso da liberdade completa. Nem se deu conta de que teve um tesouro nas mãos e de troca em troca acabou por deitá-lo fora. Agora era livre, mas não tinha nada. E era livre para quê? Era ilusoriamente livre e o que o esperava agora era viver no vazio.

Muitos cristãos católicos, por vezes, olham para a fé cristã como um conjunto de princípios e valores demasiado pesado e incómodo, que em vez de ajudar a ser livre e apontar o verdadeiro caminho para uma vida totalmente realizada, pelo contrário, retira a liberdade e asfixia a vida. Possivelmente, tudo seria bem melhor sem a «submissão» à fé. Talvez esta convicção tenha nascido devido a um discurso moralista e regrador que a Igreja hierárquica adotou durante muitos anos. A impressão, sem dúvida errada, que impera na sociedade é que a religião ou a fé é um conjunto de mandamentos, regras e proibições que são «impostas» aos fiéis. Logo, a vida é muito mais interessante e agradável sem o jugo e o fardo dos códigos religiosos. O que se fez então? Sem terem descoberto a beleza e a grandeza da fé que têm e fortemente influenciados pela mentalidade dominante, que teima em alimentar um debate enviesado e exíguo à volta da religião, muitos católicos vão cedendo à imprudência de reinterpretar a sua fé, ano após ano, até chegarem a um mínimo essencial, que mais não é que um cristianismo light, feito à medida das conveniências, necessidades e apetites de cada um. Sem se darem conta estão na fase da pedra de amolar. Não demorará muito, até daquela «réstia» de fé vão abdicar, afirmando com ar solene que «já se deixaram dessa coisa da Igreja e da religião».

Quem nunca descobriu um tesouro, como a fé é, nunca o defenderá e lhe dará o devido valor. Este é o problema de muitos católicos. Por força de vários fatores, dos quais destacaria um percurso catequético titubeante e deficitário e influência do discurso pós-moderno sobre temas da doutrina da Igreja Católica, colocados de forma descontextualizada em relação ao todo da mensagem cristã, nunca chegaram ao âmago do conteúdo e da vivência da fé cristã, assente numa relação viva com Jesus Cristo vivo e ressuscitado, caminho, verdade e vida. Quem descobre este tesouro valioso e o partilha com os outros, dificilmente abdica dele.

Espero sinceramente que a próxima Jornada Mundial da Juventude, mais do que colecionar mais uma experiência para o currículo religioso, mais do que um grande evento ou um grande encontro ímpar, para o qual já estamos a caminhar com os motores a todo o vapor, sirva, sobretudo, para os jovens redescobrirem a beleza e o tesouro de ouro da fé, a importância de se viver de Deus e com Deus, que nos torna livres e realizados como pessoas humanas, e se tornem verdadeiramente presença de Cristo e da Igreja em todas as realidades que os envolvem e ambientes que frequentam, e protagonistas de uma humanidade tecida pelos valores do Evangelho. A Jornada será para muitos jovens um ponto de chegada de um ano vivido com muita intensidade, mas tem de ser, sobretudo, o ponto de partida para a renovação e transformação do mundo, que bem precisa de mudanças e de esperança, e os jovens católicos, com os outros também, têm de ser a força dessas mudanças e dessa esperança.

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