Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

O tempo é a pedra mais preciosa que todos desejam, ninguém vê, mas está sempre ao nosso alcance.

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Dizia este Domingo a jornalista do Público, Maria João Lopes que

”A falta de tempo livre tira-nos uma parte de sermos humanos. Tira-nos os momentos em que nos podemos deitar de barriga para cima a olhar para as estrelas. Tira-nos o tédio.”

Ao que eu acrescentaria: tira-nos o silêncio. A quietude. Porém, há que recuperá-la porque, aparentemente, faz bem à nossa saúde física, mental e espiritual.

 

Da fragmentação do tempo à do silêncio

Recentemente ouvia a teóloga Ilia Delio numa entrevista onde salientava a ideia de todos estarmos sempre cientes das horas, a olhar para o relógio, para o computador ou o telemóvel, de tal modo que as nossas vidas estão cada vez mais fracturadas pelo tempo. Penso que a fragmentação do tempo afectou, também, a nossa percepção do silêncio.

“O silêncio não existe mais como mundo, mas apenas em fragmentos, como o que resta do mundo. E como o homem se assusta sempre com o que resta, assim ele se assusta com o que resta do silêncio.” (Max Picard)

Recuperar a quietude passa por desfragmentar o silêncio no quotidiano. Começa pelo nosso corpo.

 

Efeito físico do silêncio

Todos andamos muito atarefados e, por essa razão, nos queixamos de não termos tempo para relaxar. Investigadores da universidade de Pavia na Itália e do hospital John Radcliffe no Reino Unido estudaram o efeito da música no relaxamento dos artistas. Os testes implicavam escutar músicas com ritmos diferentes por dois minutos, depois por quatro e, aleatoriamente, introduziam pausas de dois minutos. Curiosamente, os resultados mostraram que o relaxamento era maior nos momentos de pausa, ou seja, nos momentos de silêncio. Diz Luciano Bernardi, um dos autores do estudo que ”dois minutos de pausas silenciosas provaram ser mais relaxantes do que qualquer música feita propositadamente para o relaxamento.”

Este estudo pode ter implicações importantes para muitos daqueles que vivem em ambientes urbanos onde o ruído, ou poluição sonora, é um assunto tão sério como a ambiental. O ruído activa a amígdala localizada nos lobos temporais do nosso cérebro, e liberta hormonas como o cortisol, associadas ao stress. Daí o potencial do silêncio para nos acalmar e aumentar o volume dos nossos pensamentos que nos permitem estar mais ligados a nós próprios, aos outros e ao mundo.

Um outro estudo realizado em ratos de laboratório por uma colaboração entre universidades alemãs e americanas, procurou avaliar o efeito dos estímulos auditivos na neurogénese (processo de formação de novos neurónios no cérebro), e incluiu o silêncio como teste de controlo. Porém, com alguma surpresa, verificaram que a ausência de qualquer estímulo auditivo – silêncio -era a que produzia mais neurónios nas células do hipocampo, a parte do cérebro ligada à memória. Imke Kirste, co-autora deste estudo, sugere que duas horas de silêncio por dia podem ajudar no desenvolvimento celular no hipocampo, rejuvenescendo-o.

Com dois simples exemplos percebemos que o silêncio, além de reduzir o stress, rejuvenesce o cérebro. Talvez por esse motivo, a Finlândia esteja a apostar no silêncio como uma das imagens de marca do país e atracção turística. Num mundo ruidoso, o silêncio vende. Na prática, a Finlândia está a promover alguma coisa, literalmente, a partir de nada. Diz a investigadora finlandesa Noora Vikman ser realmente ”estranho o modo como mudamos. Temos todo o poder – podemos quebrar o silêncio mesmo com os mais pequenos sons. E, depois, não queremos fazê-lo. Procuramos estar tão quietos quanto possível.”

Em busca dos jardins do silêncio urbanos

O impacto do silêncio sobre o nosso cérebro é espantoso e cada vez mais importante para lidar com o desenvolvimento cultural hodierno e a economia da atenção em torno de tantas inovações tecnológicas. Mas questiono se todo o benefício físico e mental não se consolida com o espiritual. É fácil fazer uma experiência de silêncio com os sons da natureza, mas muitos trabalham em ambiente urbano a maior parte do ano. O que fazer nesses casos? Onde estão os jardins?

“Sento-me na escuridão. Sento-me no silêncio humano (…) Depois, começo a ouvir a noite eloquente, a noite das árvores húmidas, com o luar deslizando sobre o ombro da igreja na pouca luminosidade e calor menos intenso.” (Thomas Merton, monge americano)

Podem existir vários jardins nas cidades, mas os que me ocorrem como jardins de silêncio são as bibliotecas e as igrejas.

Imaginem momentos de pausa em silêncio numa biblioteca, contemplando as prateleiras de livros e passando os nossos olhos pelos títulos, sem qualquer intenção imediata de os ler. Ou então, entrar numa igreja e estar diante de Jesus no sacrário, ou exposto no altar, ou simplesmente sentar-me, fechar os olhos independentemente da minha crença. São dois modos simples de passar dois minutos a duas horas em relaxamento do stress diário, regenerar o cérebro, encontrar-se na quietude com os nossos pensamentos e, quem sabe, ter uma conversa inesperada e profunda com Deus.

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