Coordenadora da Plataforma de do Voluntariado Missionário analisa os números referentes a 2019.São Tomé e Príncipe é o país que acolhe o grupo maior, num ano em que os reformados representam 7% dos que decidem partir em projetos de longa duração, cada vez mais procurados também por famílias

Ângela Roque (Renascença) e Paulo Rocha (Ecclesia)

Foto Joana Bougard/Renascença – Catarina Lopes António/FEC

Muitos voluntários preparam-se nesta altura para partir em missão, para os mais diversos destinos. Já é possível avançar com os números deste ano relativos ao voluntariado missionário?

Sim, já temos os números fechados. Lançámos o inquérito às nossas 61 entidades, como todos os anos tivemos dificuldades na obtenção de respostas, responderem menos do que em 2018, mas já temos o dado de que são 1.059 os portugueses a fazer voluntariado missionário.

 

São mais ou menos do que o ano passado?

São cerca de 30 pessoas a mais envolvidas. No entanto, registámos uma descida nas partidas ‘ad gentes’, para fora de Portugal, o que a nosso ver se justifica com a falta de resposta das organizações ao inquérito. Este é um inquérito que é lançado entre junho e julho, uma altura em que as organizações estão a preparar os seus voluntários e a fechar equipas e projetos, por isso achamos que esta descida nas partidas ‘ad gentes’ tem a ver com a falta de resposta, e não com a falta de voluntários a partir.

 

Mas, ainda pode haver um ajuste nos números finais?

Da nossa parte o comunicado já está fechado e lançado, já não vamos alterar números. Às vezes vão-nos chegando mais informações que vamos tentando divulgar no nosso site, no Facebook. Mas, estes dados são os oficiais que lançamos enquanto Plataforma.

 

O que não quer dizer que nestes dados esteja o número de todos os voluntários?

Com toda a certeza que não estão. Na Plataforma estão 61 entidades e responderam 37. Também sabemos que das 61, nem todas enviam voluntários em missão este ano, para algumas é um período de paragem. Se nos tivessem respondido todas, acredito que este número iria para o dobro.

 

Falamos de voluntariado missionário. De que forma é que a missão se concretiza nestes projetos?

O voluntariado missionário para nós assume duas expressões diferentes, o voluntariado da missão ‘ad gentes’, para fora de Portugal, e o voluntariado missionário em território nacional.

 

Mas, inclui uma dimensão espiritual e evangelizadora?

Inclui. A grande diferença entre o voluntariado internacional e o voluntariado missionário é a fé. Nós costumamos falar muito disto nas nossas formações, e ao longo da preparação dos voluntários, que aquilo que nós levamos diferente dos voluntários que vão com projetos específicos de voluntariado internacional é a fé, é a dimensão evangelizadora. Isso também se reflete no trabalho pastoral que vão desenvolver no terreno. A maior diferença e o maior cunho pessoal que se dá ao voluntariado missionário é mesmo este levar Deus a outros povos.

 

Nos últimos anos tem havido muitas missões solidárias, por catástrofes naturais ou por necessidades muito identificadas. Estes projetos ligados a ONG’s, a organizações da sociedade civil , também estão em franco crescimento?

Sim. Os voluntários, os jovens e os menos jovens, nunca ficam indiferentes a respostas de emergência, como costumamos dizer. Vimos o que aconteceu com o ciclone Idai (Moçambique), em que muitas pessoas se colocaram ao serviço sem ter planeado, sem ter pensado, não ficaram indiferentes. E como o voluntário missionário, além de toda a boa vontade, e vontade de ajudar, tem também o cunho da fé, não pode ficar indiferente perante o sofrimento do outro.

 

Essa dimensão crente é que diferencia o voluntariado missionário das missões solidárias?

Essa é a grande diferença.

 

É possível traçar um perfil do voluntário, em termos de idade, das missões que se propõe fazer?

Sim. Falando dos que partem entre janeiro e dezembro de 2019, a maioria vai em missões de curta duração, entre 15 dias a seis meses.

 

Muitas delas concentram-se nesta altura do verão?

Grande parte sim, porque muitos dos que partem vão no seu período de férias. São pessoas que estão empregadas, ou então estudantes, que usam o seu tempo de férias. Têm entre 18 e 30 anos, e 82 vão repetir a experiência. Ou seja, foram pessoas que já participaram em missões, e agora vão repetir, ou como coordenadores de projetos, ou pura e simplesmente porque os marcou bastante e querem voltar a dar de si.

 

Isso também acontece cada vez ao mais longo dos anos, têm essa perceção?

Sim,  o número de pessoas que vai repetindo a experiência vai aumentando de ano para ano, o que também tem a ver com os grupos que integram esta rede do voluntariado missionário. Falando, por exemplo, de organizações ligadas a universidades, de ano para ano muda a coordenação, a direção, e os que hoje são voluntários, amanhã serão coordenadores, por isso integram novamente a missão, com novas funções.

 

E quem se candidata mais a missões de longa duração?

São pessoas que já têm o seu emprego, o seu curso concluído, já estão numa fase de maior estabilidade, se bem que o nosso contexto nacional nunca dá muita estabilidade. Mas são pessoas a partir dos 25 anos, a grande parte, muitos pedem uma licença sem vencimento, ou despedem-se mesmo, para partir em missões mais longas, a partir de seis meses, mas muitas vezes vão pelo menos por um ano.

 

É relevante o número dos que pedem licença sem vencimento ou deixam emprego para partir em missão?

Este ano, por exemplo, tivemos 16 pessoas a deixar o seu emprego, e 17 a pedir uma licença sem vencimento.

Um dado curioso deste ano é que, numa faixa etária superior, temos 27 reformados que vão em missões de longa duração. É um dado que até agora não tinha sido expressivo, mas este ano representa 7% no universo de partidas, e não deixa de ser interessante. Estamos a começar a ter pessoas que quando terminam a sua vida ativa no mundo profissional dedicam o seu tempo a realizar este sonho, ou estes projetos de vida de há muitos anos.

 

Temos também indicação de que há cada vez mais famílias a participarem nas missões em conjunto com os seus filho. É verdade?

É verdade. Este ano já partiram duas ou três famílias. Uma delas partiu em junho, para estar durante um mês e meio em Moçambique. Foi com o Grupo Missão Mundo, ligado às Irmãs Concepcionistas.

É uma família composta pelos pais, pelo casal, e quatro filhos, de 16, 11 e nove anos, e a mais pequenina com cinco anos, que foi adotada com 10, 11 meses, e que tem trissomia 21. E, pelas partilhas que vão fazendo nas redes sociais, vemos que está tão bem integrada, está a fazer também missão à sua maneira, dentro daquilo que os seus cinco anos de idade permitem. Está também a ser semeada esta semente do voluntariado.

 

É uma disponibilidade em termos familiares que não será, com certeza, para todos, mas é de sublinhar?

É uma entrega muito grande. Primeiro esta família, a nosso ver, e olhando um bocadinho para a sua história de vida, já é uma família de missão, tem a sua estabilidade, já tinha três filhos e decidiu adotar uma criança. E uma criança que traz consigo todo um historial, até ao nível de saúde, mas que encararam com uma grande alegria, uma grande dádiva e uma grande bênção.

Não é para todas as famílias, mas estamos cada vez mais a ser contactados por famílias que querem partir em missão, e os grupos que vão ter que começar a pensar em formas de incluir estas famílias, porque não é fácil.

 

Em relação aos jovens, demonstram cada vez mais interesse em relação ao voluntariado em geral, e ao voluntariado missionário?

Sim, estão cada vez mais interessados. A verdade é que também estamos num momento em que se fala muito de solidariedade. Quando falamos de voluntariado, à nossa cabeça vem sempre o ajudar populações mais carentes, ajudar os doentes. Mas, estamos a ver também um grande movimento de voluntários pelo clima, voluntários nas praias, jovens que se envolvem em movimentos concretos de mudança na sociedade, e é um número que vai crescendo em Portugal. A Cases (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social), que nesta altura tutela o voluntariado em Portugal, vai lançar dados sobre a expressão do voluntariado em Portugal, e nota-se cada vez mais os jovens envolvidos.

No voluntariado missionário é um passo um bocadinho maior. Questionavam-me há dias numa escola ‘porque é que eu vou para fora se tenho tanto para fazer cá dentro?’, e eu respondo sempre a mesma coisa, que ninguém pode ser voluntário em Moçambique, em Angola, em São Tomé, se não for voluntário na sua própria comunidade. Os jovens vão-se envolvendo aqui e ali, mas começam a perceber que têm disponibilidade para dar mais, e ir mais além.

 

Será por isso que projetos como a ‘Missão País’, que envolve universitários, também tem vindo a crescer?

A ‘Missão País’ é um exemplo fantástico do que é o envolvimento dos jovens na sociedade, e cá no nosso território. Estamos a falar de entre três a cinco mil jovens envolvidos, e é por isso que me espanta quando dizem que os jovens não se envolvem. Isso é totalmente falso, porque os jovens estão cada vez mais com uma fé mais viva. O que não significa que os jovens voluntários tenham de ser obrigatoriamente católicos. É óbvio que no voluntariado missionário há aqui uma expressão diferente, mas há tanta forma de demonstrar a nossa fé e de viver a nossa fé.

 

E o voluntariado missionário já está a incluir as novas causas sociais, como a ambiental?

Olhando para os dados que recebemos, já temos organizações a trabalhar questões ambientais, que era uma coisa que uma ou outra organização trabalhava, mas agora já são mais, já se estão a envolver mais nestas causas. Obviamente que um voluntário missionário que se propõe a ir, por exemplo, um ano para fora, não pode ficar indiferente à questão ambiental, é a nossa casa comum.

 

Que valor acrescenta ao percurso académico e à definição de uma vocação, de um percurso profissional, a experiência de voluntariado missionário?

Isto muda a vida toda. Quando se começa esta viagem do voluntariado missionário, nunca mais se volta a mesma pessoa, porque se vai encontrar realidades muito diferentes. Não melhores ou piores do que as nossas, mas diferentes. E isto vai fazer com que nós tomemos consciência de que somos cidadãos do mundo, e que não há justiça em vivermos com tanto e outros com tão pouco. Isto vai mudar a vida toda do voluntário.

A nível académico, sabemos que as universidades estão a pedir muito que os estudantes façam voluntariado.

 

Seguindo o exemplo de outros países, que valorizam muito a experiência de voluntariado.

Sim. No entanto, há uma coisa que é importante que se realce: o voluntariado nunca pode ser obrigatório, porque o voluntariado é um ato gratuito e livre, não pode contradizer a palavra.

Fui há dias falar à universidade onde estudei e uma aluna perguntava-me se o voluntariado deveria ser requisito para os estágios. E eu disse ‘o voluntariado é gratuito, é livre’. Acrescenta no currículo, e sabemos que cada vez mais as empresas, as ONG’s, procuram pessoas que tenham ou façam voluntariado, porque implica um compromisso. O voluntariado não é um ato que fazemos hoje e amanhã já não queremos fazer. Quando nos comprometemos a visitar os doentes, eles estão à nossa espera, estamos a criar expectativas num público alvo que, se mudarmos de ideias, vai ficar ainda mais dececionado com a sociedade em geral.

 

E uma experiência de voluntariado missionário tem repercussões posteriores na inserção no mercado de trabalho?

Acredito que tem, muito positivas. Uma pessoa que participa numa experiência de voluntariado missionário vem totalmente diferente, vem mais predisposta à mudança, é mais flexível, é mais ‘multitask’, como se diz agora no mercado de trabalho. É uma pessoa mais atenta ao outro, e isso faz toda a diferença num profissional.

 

Há muitas missões cá dentro e lá fora. Para onde é que os portugueses partem mais?

Este ano, o país que recebe mais voluntários será São Tomé e Príncipe. É um número novo, nunca esteve em primeiro lugar no nosso top de partidas.

 

Que país costumava estar?

O ano passado era Moçambique, Guiné-Bissau. Este ano temos São Tomé, que acolhe 80 voluntários, Moçambique recebe 63, Angola 55, Guiné-Bissau 53. Depois temos também voluntariado missionário em Portugal, que acolhe este ano 22 voluntários…

 

Esse número também cresceu.

Cresceu! O ano passado a organização ‘Leigos para o Desenvolvimento’ abriu uma missão em Portugal nos mesmos moldes que vive a missão “ad gentes”.

 

Abriu no Pragal, em Almada…

Sim. Este ano temos já temos mais organizações que o fazem, embora não ainda por um ano. Tirando os’ Leigos para o Desenvolvimento’, que continuam a desenvolver a sua missão em Portugal, este ano com quatro voluntários, temos o projeto Sabi, ligado à paróquia do Parque das Nações, que também envia voluntários para missões cá dentro, o G.A.S.Porto (Grupo de Ação Social do Porto), que envia voluntários por mais do que 15 dias, por três, quatro semanas, para territórios específicos em Portugal.

 

Quais são as principais áreas de intervenção nos projetos de voluntariado missionário?

Continua a ser a educação e a formação. Grande parte do trabalho desenvolvido namissão ‘ad gentes’ continua a ser nesse campo. Também trabalham muito na parte pastoral, na animação sociocultural, desenvolvimento de atividades, dinâmicas com crianças e jovens. A saúde também cresceu este ano e tem uma expressão de 16%. Mas, as organizações trabalham sempre em várias áreas ao mesmo tempo.

 

E como é a integração de quem chega a uma missão por um ou dois meses, ou mesmo por um ano, com aqueles que lá estão a vida toda?

É-se sempre recebido com o mesmo entusiasmo! Tanto recebem com alegria quem vai por um mês, como quem vai por um ano. Obviamente que, quem vai por um mês, quando chega entra logo na rotina, não tem período de adaptação. Assim que chega, entra no campo de trabalho e adapta-se à realidade que tem quem vive lá a vida toda. Porque o voluntário vai mas regressa, mesmo quem vai por um ano ou dois anos. Os missionários que estão no terreno – grande parte são congregações religiosas – estão lá a vida toda. Por isso, os voluntários não vão mudar nada! Vamos contribuir para o trabalho que é desenvolvido, mas a maior mudança é sempre para o voluntário, é sempre a pessoal.

 

Falando um pouco sobre a FEC, a Fundação Fé e Cooperação. Que organismo é este e a que é que se dedica ao longo do ano?

Somos uma ONGD (Organização Não Governamental para o Desenvolvimento) ligada à Igreja Católica, fomos criados pela Conferência Episcopal Portuguesa. Desenvolvemos o nosso trabalho essencialmente em duas grandes áreas: a educação para o desenvolvimento e advocacia social. Grande parte do trabalho é feito em Portugal, relacionado com direitos das crianças, direitos humanos, estilos de vida sustentáveis e voluntariado missionário. Na Guiné-Bissau, em Angola e Moçambique trabalhamos em projetos de cooperação para o desenvolvimento, que são mais específicos, dirigidos ao público alvo dos países. Por exemplo, na Guiné-Bissau, temos projetos com as mulheres, e lançámos há dias os dados sobre a situação da criança, no pré-escolar, e trabalhamos muito no âmbito da educação, nomeadamente para a saúde. Fazemos um trabalho alargado a nível internacional.

 

E dão formação, quer aos voluntários, quer aos próprios formadores?

Em Portugal dinamizamos esta rede de voluntariado missionário desde 2002. Temos um plano anual de cinco sessões teóricas, a que as organizações são convidadas a enviar os seus voluntários, temos uma formação de formadores e uma atividade prática de missão em Portugal, em que os voluntários experimentam cá dentro o que vão sentir lá fora: são levados ao limite e testados nas diferentes áreas.

 

Como?

Temos realizado esta atividade sempre em casas de saúde mental. Eles têm de experimentar uma realidade em que têm de obedecer a ordens de quem está no terreno (no caso, as irmãs hospitaleiras, que estão diariamente entregues àquele serviço), têm de viver em grupo com pessoas que por vezes não são tão fáceis (e mesmo quem faz a preparação em conjunto, quando vivem juntos, 24 sobre 24 horas, as coisas mudam um pouco de figura). Têm de criar situações de resolução rápida de conflitos… enfim, é uma vida em comunidade, com tudo o que isso implica.

 

O que interessa dizer a quem nunca fez voluntariado missionário, e pensa em arriscar?

Não tenham medo! o Papa Francisco na Mensagem para o Dia Mundial das Missões deste ano tem uma frase que é muito importante: ‘Eu sou sempre uma missão. Tu és sempre uma missão. Cada batizada e batizado é uma missão. Quem ama, põe-se em movimento’.

Não tenham medo! Nós às vezes ficamos com medo de arriscar, seja o voluntariado cá dentro ou para fora, seja fazer alguma coisa diferente, porque achamos sempre ‘o que é que os outros vão pensar?’…

Quem tem Deus no coração e quem ama, nada tem a temer. Acho que é o mais importante.

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