Depois de 17 anos a trabalhar numa fábrica de calçado, onde entrou aos 14 anos, a irmã Alzira dos Santos, se confrontou com o que queria fazer da sua vida. Irmã mais velha de nove irmãos, habituada a cuidar dos pais e da família, a irmã Alzira “não tinha tempo para pensar em outras vivências”, de forma natural entendia que a “vida em casal era muito bonita”, mas reconhecia que “sentia não encaixar totalmente”: “Eu só cuidava dos outros e comecei a questionar-me e a rezar”.
A vocação para ser religiosa das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo é hoje confirmada junto da população mais necessitada que recebe no refeitório social, no Campo Grande, onde todos os dias procura, como pedia o fundador, andar nas ruas, “não tendo por mosteiro se não as casas dos doentes, por cela um quarto de aluguer, por capela a igreja da paróquia, por claustro as ruas da cidade, por clausura a obediência, por grade o temor de Deus, por véu a santa modéstia e não fazendo qualquer outra profissão para garantir a própria vocação”.

«As coisas de criança são as que mais recordamos, agora com um olhar diferente, mas há memórias muito boas: ser uma família alargada, uma família unida e de bem. Isso é uma recordação muito presente. Ir para o campo, em Guisande, Santa Maria de Feira, com a mãe, onde, naturalmente se crescia no campo e em casa de vizinhos».

«Da fábrica guardo imagens muito bonitas: aprendi muito em responsabilidade, organização, soube cumprir regras que hoje nos fazem falta na sociedade. Ali me apercebi que a vida de casal era uma beleza. Mas como tinha sempre afazeres – em casa, na fábrica, e a tomar conta dos outros – achava que ali era o meu lugar, nunca tive disponibilidade para pensar em fazer outra experiência».

«Eu pensava muitas vezes que as crianças com deficiência não estavam ali por elas, mas por mim. Se eu não cuidasse delas, elas não viviam, elas estavam lá para a minha santificação, não pela delas, porque elas já estavam santificadas. Uma altura lamentava que não tinha feito a via-sacra na Quaresma e a diretora disse-me: «A Via-sacra tem 14 estações, mas aqui tem 45 quartos». E fiquei sem respostas, mas era a realidade: se eu entrasse em cada quarto com dois residentes era uma via-sacra bem mais difícil».

«O aproximar-se da pessoa pobre implica ir ao carisma de São Vicente, ver Jesus no pobre. Não é fácil com o cansaço do dia-a-dia, mas quando paro e percebo que não fui tão correta, questiono qual foi o princípio hoje do meu dia? Qual foi a minha doação total hoje? Se São Vicente estivesse cá hoje como é que ele trataria as pessoas? Se ele já era tão atualizada no seu tempo, hoje estaria ainda mais».

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