Publicações: Livro de José Eduardo Franco e Cristiana Silva quer mostrar que existe «humor na Igreja»

«Temos uma ideia de uma Igreja mais sisuda, muito séria, muito conservadora e, aquilo que temos também investigado, mostra-nos que não é de todo assim», afirma a coautora

Lisboa, 07 out 2026 (Ecclesia) – A jornalista Cristiana Lucas Silva afirmou que o livro “Uma Igreja que Ri”, do qual é coautora, quer contribuir para difundir a mensagem de que existe humor na vivência da fé.

“Eu espero mostrar que existe este humor na Igreja”, afirmou, em declarações ao programa ECCLESIA (RTP2, 12h50), defendendo que é preciso “dar um salto”, no seio desta instituição, mas sobretudo na perceção que quem está de fora tem dela.

“Não é um mundo à parte, não é um eu e os outros, essa visão tem de terminar. Infelizmente ainda continua a haver, e nós sabemos pelas notícias que correm. Nós sabemos que essa visão muito dicotómica está sempre muito presente e é preciso tornar esta fronteira mais invisível”, defendeu.

Com a chancela da Edições Esgotadas, a obra “Uma Igreja que Ri” explora o papel do humor na tradição cristã e na Igreja Católica, revelando uma dimensão frequentemente esquecida da vida religiosa.

“Este livro tem vindo a ser maturado há alguns anos a esta parte, porque tanto eu como o outro autor, José Eduardo Franco, temos trabalhado a temática do anticlericalismo, representações, imagens na cultura portuguesa, na historiografia”, explica Cristiana Lucas Silva.

A responsável acrescenta que a publicação é também fruto da participação dos dois autores numa associação de estudos sobre o humor e em congressos sobre o tema.

“Foi nascendo aí uma certa inquietação, que depois ganhou muita força com o encontro do Papa Francisco com os humoristas”, contou.

O antecessor de Leão XIV encontrou-se, a 14 de junho de 2024, com mais de 100 humoristas de todo o mundo, incluindo os portugueses Joana Marques, Maria Rueff e Ricardo Araújo Pereira, elogiando a capacidade de fazer rir e pedindo respeito pelos sentimentos religiosos.

“A verdade é que quando nós pensamos em Igreja e em humor, aparentemente as coisas não se ligam. Aparentemente. Temos uma ideia de uma Igreja mais sisuda, muito séria, muito conservadora e aquilo que temos também investigado mostra-nos que não é de todo assim”, destacou.

Cristiana Lucas Silva salienta que “há muito humor criado no seio da própria Igreja”, nomeadamente na esfera mais contemplativa.

“E isso é um sinal fantástico, porque mostra que esses membros da Igreja, desse clero também mais regular, são seres humanos, são pessoas”, frisa.

O humor e o saber de rir de si é um sinal de inteligência, mas é também, e acho que este é um ponto muito importante, um grande sinal de humildade. É a Igreja mostrar-se humilde também para si e para os outros”, complementou.

A jornalista lembrou que existe uma longa tradição anticlerical em Portugal, que está espraiada em toda a história e que isso motivou a criação de imagens e de estereótipos que ficam enraizados na mentalidade de cada um.

“Nós temos a ideia também de que uma Igreja deve seguir determinado padrão, tem valores morais e espirituais”, referiu.

“E eu creio que mostrar este humor na Igreja é uma forma também de mostrar que estamos a falar de homens e mulheres, que têm, é claro, uma responsabilidade acrescida, naturalmente, mas têm falhas também, como outros”, desenvolveu.

No encontro com os humoristas em 2024, o Papa questionou “É possível rir também de Deus?”, respondendo afirmativamente de seguida: “É claro que sim, isto não é blasfémia, assim como brincamos e fazemos piadas com as pessoas que amamos”.

“O Papa Francisco, ao referir isso também fez aqui uma articulação com a questão da inteligência. Portanto, Deus também ri. Portanto, o riso é também um sinal de suma inteligência. E nós, ao rirmos, ao sorrirmos, ao criarmos humor, é também um sinal de ligação com Deus, e um sinal de inteligência humana”, evidenciou Cristiana Lucas Silva.

A publicação conta com os cartoons da irmã Leonor Wemans, religiosa Concepcionista de Santa Beatriz da Silva, sendo esta colaboração, para a coautora, “uma felicidade, porque foi um fruto do acaso”.

“São desenhos muito bonitos, muito bem feitos, aparentemente muito simples também, mas com um certo humor, brincar com situações do dia-a-dia, com certas parábolas, por exemplo, mas brincar de uma forma muito saudável”, expressou.

“É uma visão muito saudável, neste caso que a irmã tem, da Igreja e do contexto em que vive, o que demonstra também, a meu ver, uma imensa felicidade da própria irmã”, menciona.

Ao longo da obra, os autores percorrem a história da Igreja, analisando os diferentes usos e significados do humor nas instituições eclesiais, nas figuras marcantes do cristianismo e na vida conventual.

LS/LJ

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