Frade Menor Capuchinho conheceu a vida do ‘Santo de Assis’ quando jovem universitáriuo foi bater à porta da fraternidade à procura de livros sobre «ecologia» para um trabalho para o curso de Geografia

Lisboa, 07 out 2026 (Ecclesia) – O Frei Hermano Filipe, sacerdote da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, disse que o «Cântico das Criaturas», escrito por São Francisco de Assis “quase cego”, convida hoje a encontrar o “essencial da vida”.
“Pegar neste cântico é voltar à profundidade da vida em Deus, da profundidade de quem se coloca às questões essenciais acerca da vida, e é nesse sentido que ele permanece muito atual. E eu penso que é muito importante que as conferências episcopais, as Igrejas, as dioceses, as paróquias procurem ler o que está para lá das aparências; procurem ver com este olhar de Francisco, quase cego, mas capaz de reconhecer o que há de maravilhoso em cada oportunidade”, explica à Agência ECCLESIA.
“Um texto cheio de cor, cheio de imagens, cheio de luz, foi escrito por um homem praticamente cego, uma pessoa quase invisual, que já só via sombras. Como é que um homem que só vê sombras consegue ver com tanta clareza toda esta luz? E eu acho que, 800 anos depois da sua morte, temos que nos perguntar isso. Se aquilo que está diante dos nossos olhos é, na sua superfície, o todo de que podemos beber, ou se não será algo de misterioso e muito mais complexo e profundo, porque geralmente o é, como é o caso da criação”, acrescenta o frade capuchinho.
O Frei Hermano Filipe, que atualmente integra uma fraternidade em Samora Correia, na arquidiocese de Évora, aponta a oportunidade que o Papa Francisco lançou à Igreja católica para “todos se sentarem” e “sonharem a Igreja, porque este dom o Senhor concede a todos os batizados”.
Natural do Porto, e a residir em Gondomar, onde cresceu, o Frei Hermano recorda a casa dos avós com tinha cheiro a “pobreza”, e assinala com eles ter aprendido o valor da sobriedade.
“Já adolescente, eu recusava usar relógio porque achava que era uma coisa desnecessária e luxuosa. Gostava de ter três ou quatro t-shirts, todas iguais e da mesma cor, para não ter que pensar e escolher. E para mim estava sempre tudo bem. Quem não ficava contente era a minha mãe. Acredito que a sobriedade e simplicidade, simplificam a vida”, sustenta.
Estudante de Geografia na universidade, “estava a fazer um trabalho sobre biodiversidade”, quando conheceu uma figura, “de seu nome São Francisco de Assis, patrono dos ecologistas”.
“Mas o que é que a Igreja tem a ver com isto? Enchi-me de coragem e fui bater à porta do convento, da casa, dos capuchinhos, e perguntei, a quem me abriu a porta, se tinham livros especificamente sobre a ecologia, coisas ligadas a São Francisco e a ecologia. Eu pensava que ia ali buscar algum livro; o Frei Vítor Arantes achou que eu ia ali buscar outra coisa, qualquer, e achou bem”, recorda.
A “descoberta vocacional leva muitos anos”, reconhece o frade capuchinho, um caminho que continua a fazer porque, aponta, ter receio de uma “petrificação da busca”.
“Hoje, com os irmãos, preparamo-nos para celebrar os 500 anos da reforma dos capuchinhos, e penso que mais do que nunca essa busca é fundamental. Que eu nunca sinta que estou acomodado a tradições ou a lugares, porque aquilo que faz o carisma franciscano vivo, aquilo que faz dele uma metáfora que possa significar algo na vida das pessoas, é precisamente a sua capacidade de releitura em cada contexto e em cada tempo”, destaca.
A vida do Frei Hermano Filipe é marcada pelos anos em que viveu em Timor, país onde consolidou a sua opção pela ordenação sacerdotal.
“Timor aconteceu-me e marcou-me no pior e no melhor. Obrigou-me a uma desinstalação para a qual não estava preparado: não tínhamos eletricidade, nos primeiros meses não tínhamos água nas torneiras. Por outro lado, isso ajuda-nos a viver sem queixumes, porque sabemos que Deus providenciará aquilo que nós precisamos. Deus nunca me falhou em nada”, sublinha.
É neste contexto que se descobre frade capuchinho chamado a viver “no estabelecimento de relações mútuas, de quem dá, de quem se dá e de quem recebe”: “É a melhor aprendizagem até aos dias de hoje”.
O percurso da vida do frei Hermano Filipe passou ainda pelo Hospital de Barcelos, onde foi capelão durante a pandemia Covid-19, e pela diocese de Bragança-Miranda, onde com mais dois frades capuchinhos viajou pelo território com a «Caravana da Esperança».
A conversa com o frei Hermano Filipe pode ser acompanhada esta noite no programa ECCLESIA, com emissão na RTP Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilidade no podcast «Alarga a Tua tenda».
LS
