Antigo diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja publicou novo livro «Morri ontem» onde reflete sobre a vida, a morte e a amizade

Foto Agência ECCLESIA/LFS

Lisboa, 31 out 2019 (Ecclesia) – O padre João Aguiar Campos, cónego da diocese de Braga, publicou o livro «Morri Ontem», que nasceu do desejo de colocar em reflexão temas como a amizade e a morte acompanhada.

“A morte treina-se, é um culminar da vida e ela não tem poder nenhum para além do seu poder sobre o tempo. Ela fecha o capítulo visível e temporal; a vida não acaba mas transforma-se e eu quero transmitir a ideia de vida. Hoje esta ideia faz parte felizmente da pastoral da saúde.”, explica em declarações à Agência ECCLESIA.

No centro do livro “romanceado” uma personagem, Júnior, que envia um email a alguns amigos dizendo que tem uma doença, sem a confessar, e gera preocupações e aproximações à sua volta.

“A partir daqui ele vai tomando nota das reações e conta um pouco da sua relação com cada pessoa: a dona Rita do café; o Magalhães, médico que se recusa a ser o mero prestador de cuidados; o Antunes que é em torno de quem se vai desenrolar outro episódio da doença e que o leva a encontrar-se com Deus; a Joana que é uma amiga de 40 anos, numa relação de amizade quase mística e contemplativa; o padre Ribeiro com quem o Júnior conversa sobre o nevoeiro que vai sentindo e que o leva a questionar se aproveitou bem a sua vida”, recorda o autor.

«Morri ontem» é a expressão que os seus amigos recebem num email enviado pelo amiga Joana, com indicação de partilha de notas pessoais no dia seguinte à partida do amigo Júnior.

“É uma reflexão sobre a amizade dos simples e dos que permanecem, dos que estão lado a lado sempre, mesmo depois do prestígio e poder”, sublinha o padre João Aguiar.

Refutando a ideia de se tratar de uma autobiografia, o autor quer afirmar a importância de se assumir a fragilidade.

“Queria que os que sentem a fragilidade da sua situação tivessem a coragem de precisar de confessar a sua fragilidade e de precisar de apoio sem se agarrar à dor e se tornarem masoquistas. E dizer a todos quantos estão e que acompanham, que não é gemendo que as situações se resolvem”, enfatiza.

Pelas páginas de «Morri ontem» atravessam temas como o testamento vital, “questões sobre a vida e morte”, sobre a amizade, sobre o sacerdócio e os seminários, mas também se conjugam verbos de afeto, “que são verbos como acompanhar, deixar partir”.

“Aprendemos pouco a despedir-nos de quem morre porque temos pressa de enterrar os mortos porque queremos enterrar a ideia de morte. Saber que estamos a caminho da morte não é uma opressão, mas pode ser um momento de consagração que faço da minha vida”, sugere.

E por isso, dada a sua circunstância oncológica, o padre João Aguiar prefere “com os vários ingredientes” que dispõe, reconhecendo que poderia “cozinhar a revolta e a negação”, prefere “cozinhar uma aceitação agradecida, não resignada”.

“Com a minha fragilidade, o que posso fazer com a voz rouca e passos vagarosos? Posso ver as fachadas – antes não tinha tempo para observar – e isso dá-me reflexão e oração”, conta.

Certo de que quer preencher o seu tempo com “pessoas”, o padre João investe “em cafés, convívios, conversas, despesas mais avultadas como uma viagem, mas com pessoas”.

Como próximos projetos porque, afirma, está “sempre a mexer”, prossegue a escolha dos textos do padre Dâmaso Lambers, a partir dos escritos do falecido sacerdote luso-holandês que dedicou a sua vida à pastoral nas prisões, e pretende reunir textos da sua autoria, “feito a partir de olhares e fragmentos publicados ao longo dos dias, que planeia intitular de «Fragmentos».

LS

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