«Correio da Esperança» já entregou cerca de 1200 cartas em seis anos

Foto: padre João Torres

Braga, 19 nov 2020 (Ecclesia) – O «Correio da Esperança» quer voltar a ser distribuído este Natal, entre os reclusos dos estabelecimentos prisionais de Braga e Guimarães, levando palavras anónimas, carregadas de esperança e ânimo, a quem está “confinado e sem apoio”.

“É importante pensar nestas pessoas. Estar confinado é terrível, se pensarmos em quem está recluso, sem o apoio espiritual e religioso que devia ter, sem as visitas que devia ter. Acredito que por causa dos confinamentos, as pessoas em geral, percebam melhor o que é estar preso”, disse hoje à Agência ECCLESIA o padre João Torres Campos, responsável pela Pastoral Penitenciária na Arquidiocese de Braga.

Desde 2014 que o «Correio da Esperança» é distribuído, tendo entregue cerca de 1200 cartas a reclusos “essencialmente dos estabelecimentos prisionais de Braga e Guimarães”, mas também a reclusos originários da região que cumprem pena em outros locais do país.

O padre João Torres dá conta de cartas que se tornam projetos de famílias, “onde os pais escrevem, ou pedem aos filhos para escrever ou desenhar” e os conteúdos partilhado pelas crianças se torna “mais significativo para os reclusos”.

“As cartas das crianças e dos adolescentes são mais interessantes, são capazes de escrever coisas com profundidade. Há um sentimento que uma criança transmite que é fantástico, não rotula, não condena”, avança o padre que acompanha há 22 anos o Estabelecimento Prisional de Braga.

Numa ocasião uma criança escreveu a um recluso a imaginando que escrevia ao seu pai, imigrante, e escreveu que também o recluso não podia ver a sua filha. A pessoa detida que a recebeu disse-me que foi o melhor presente de Natal que recebeu em anos”.

As missivas privilegiam o anonimato de quem envia e de quem as recebe.

“Na carta ou no postal não poderá existir nenhuma informação pessoal (morada, nome completo, dados pessoais /familiares) que possa identificar a pessoa. Deve apenas ter o primeiro e/ou segundo nome da pessoa”, explica o sacerdote.

Segundo o padre João Torres, importa escrever palavras de ânimo, esperança e consolo, “palavras capazes de comunicar um sentimento de solidariedade para com quem está detido”.

“Palavras que acreditem no leitor, na sua vida, e que os pode ajudar, dar ânimo, e ajudar a combater a solidão e tristeza de estar longe”, sublinha.

“Imagine uma noite de consoada, numa cela com quatro pessoas, a ler as cartas uns dos outros, porque eles trocam as cartas entre si, o que isto pode fazer pelas pessoas”, reconhece.

Escrever aos reclusos, sublinha o padre João Torres, “é um importante ato de solidariedade e assume um valor terapêutico autêntico, pois ajuda a quebrar o isolamento que existe na prisão”.

Foto: padre João Torres

“Receber uma carta com palavras de ânimo, ajuda a «saltar» para lá dos corredores longos e quadrados, do barulho das chaves e do som das portas de ferro que se abrem e fecham inúmeras vezes ao dia. Para um recluso receber uma carta representa um «pedaço de liberdade» que contribui para fazer da prisão um lugar onde se pode permanecer humano. Por detrás de todo aquele barulho metálico e gritos confusos, naquelas celas, também há rostos, histórias, pessoas”, aponta.

O responsável pela pastoral penitenciária na arquidiocese frisa a necessidade de “gestos de humanidade” no sistema prisional português, que permitam os reclusos “sonhar”.

São pessoas com direito a sonhos, e é mais fácil proibir tudo do que ver o que é possível fazer para que as pessoas possam continuar a ser humanas. Deveria-se ter a coragem de não ter um padre numa paróquia mas não deixar de ter um estabelecimento prisional sem capelão”.

O entrevistado acredita que o sistema prisional deve ter “uma mudança”, mas que isso acontecerá quando houver uma “consciencialização das pessoas, dentro e fora da prisão, por meio da sensibilização para o drama da reclusão”.

“Tornar mais humano aquele espaço recalcado e opressor não é simplesmente uma tarefa de almas belas e amáveis, mas um compromisso necessário que deveria envolver toda a sociedade, de um modo especial as comunidades cristãs”, frisa.

O padre João Torres, que acompanha os estabelecimentos prisionais de Braga e Guimarães, fala em “quarentenas que duram muitos anos”.

“Neste tempo em quem está preso em casa ganha outra noção, estarão talvez mais próximos da realidade do que é estar detido”, reconhece.

As cartas ou postais devem ser enviados até ao dia 18 de Dezembro, para:
Correio da Esperança, Casa do Abade de Priscos, Largo Pe. Artur Lopes dos Santos, 4705-562 PRISCOS BRG.

LS

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