Portugal: Representantes de três religiões destacam importância do «diálogo e encontro», nos 25 anos da Lei da Liberdade Religiosa

Programa ECCLESIA juntou um líder religioso muçulmano, um sacerdote católico e um membro da comunidade Bahá’í

Lisboa, 22 jun 2026 (Ecclesia) – Representantes de três religiões defenderam o diálogo e o encontro no Programa ECCLESIA (RPT2), desta segunda-feira, que assinalou os 25 anos da Lei de Liberdade Religiosa, apresentada como uma das mais avançadas da Europa.

“Concordo plenamente porque Portugal é um país distinto dos outros países da Europa. Portugal teve as suas colónias e, mesmo no Ultramar, havia já uma convivência com as outras confissões, não só culturalmente, mas também ideologicamente, até futebolisticamente”, disse o xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa.

O líder religioso exemplificou que na Guiné e em Moçambique, “onde a população islâmica é numerosa”, já havia uma boa convivência entre cristãos, muçulmanos, hindus, ismaelis, “provavelmente também bahá’ís, e era uma convivência sã, pacífica, havia um respeito mútuo”.

Da Igreja Católica, o padre Adelino Ascenso olha “com muito bons olhos o percurso que foi feito” nestes 25 anos, desde a aprovação da Lei de Liberdade Religiosa pela Assembleia da República, observa que “a prática fica sempre aquém da teoria”, e têm que ir encontrando formas de pôr essa teoria em prática.

“Há necessidade de uma maior valorização do diálogo entre as diferentes religiões. Há uma necessidade premente de formação nesse campo, no campo do diálogo inter-religioso, porque como dizia xeque Munir, naturalmente está no nosso ADN esta ligação com outras culturas e com outras religiões”, desenvolveu o diretor da Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso (SCDIR), da Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

O sacerdote acrescenta que “só” o encontro experiencial com os membros de outras religiões é que se pode “ir alicerçando algo e construindo um edifício de verdadeiro diálogo e de verdadeiro encontro”.

A Assembleia da República (AR) aprovou, por unanimidade, um projeto de resolução que instituiu 22 de junho como Dia Nacional da Liberdade Religiosa e do Diálogo Inter-Religioso, a 21 de junho de 2019.

Para Carlos Jalali, da Comunidade Bahá’í, a avaliação deve ser feita “não apenas pela lei no livro, mas também naquilo que se chama lei na ação”, no que se vê na prática da liberdade religiosa em Portugal, e reforçou a ligação que o padre Adelino Ascenso fez entre liberdade religiosa e diálogo inter-religioso, porque essas duas dimensões “devem ser tidas como duas asas de uma mesma árvore, e é preciso que sejam em equilíbrio”.

“O que vemos em Portugal é que a lei da liberdade religiosa propiciou um diálogo inter-religioso muito frutífero, e muito saudável, e onde a interação entre as diferentes confissões religiosas e entre as diferentes comunidades religiosas se produz de uma forma que, diria, é, de facto, infelizmente, excecional no quadro europeu”, salientou, a partir de Aveiro.

O Dia Nacional da Liberdade Religiosa e do Diálogo Inter-religioso remete para a data da publicação da Lei de Liberdade Religiosa, há 25 anos, neste dia em 2001; o novo quadro legal que aponta para ambiente de diálogo entre as religiões, consagrado na Constituição da República Portuguesa logo após o 25 de Abril.

Carlos Jalali, doutorado em Ciência Política, realça que o sentimento religioso “é um dos sentimentos mais profundos que Portugal tem, e pode ser manipulado”, há exemplos de aproveitamento político das identidades religiosas “um pouco por todo o mundo e, no limite, conflitos políticos, que são levados a cabo sob a capa da religião”.

“Este é um bem frágil, este não é um bem que se mantém necessariamente por si só, tem que ser alimentado. É importante que as confissões, e este programa é um bom exemplo disso, se esforcem por refletir aquilo que significa a liberdade religiosa; requer também que a sociedade mais ampla reconheça os benefícios coletivos que esta convivência pacífica gera, porque tem efeitos muito importantes em termos societais”, desenvolveu o membro Bahá’í

O xeque David Munir lamenta que misturem que “o Islão é a religião do imigrante, e é mentira”, assinalou que “há portugueses que são muçulmanos”, afirmou que a questão da imigração “é muito mais política do que religiosa”, e diferenciou várias fases de migrações para Portugal, com os “retornados, refugiados” e “imigrantes”.

Para o futuro, o diretor da SCDIR da Conferência Episcopal Portuguesa gostaria de ver concretizado o diálogo em três vertentes, “tem a ver naturalmente também com aquelas correntes que, muitas vezes, se aproveitam dos mais débeis, dos mais fracos”.

O padre Adelino Ascenso explica que essas três vertentes são o diálogo pré-religioso, “ir ao encontro dos anseios das pessoas naquilo que é mais profundo, mais antropológico”, o diálogo inter-religioso, “entre os diversos membros de diversas religiões, não se dialoga entre duas religiões em abstrato, mas entre membros de duas ou mais religiões”, e o diálogo pós-religioso, “num mundo secularizado onde se vive uma religião arreligiosa, uma espiritualidade difusa”.

O imã da Mesquita Central de Lisboa acrescenta que considera muito importante o diálogo inter-religioso entre os religiosos, mas também “a congregação, a comunidade, os jovens” com vários encontros, convívios, “para que um jovem muçulmano conhecesse melhor um cristão, um hindu, um budista, um bahái”, para além da importância das pessoas “visitarem os lugares sagrados”, para um contato mais direto e não “depender das informações falsas que vão surgindo nas redes sociais”.

Da Comunidade Bahá’í, Carlos Jalali destacou dois aspetos que interessa concretizar, a necessidade de assegurar “o maior diálogo entre as diferentes comunidades em Portugal”, para que a “diversificação não leve a grupos fechados que vivem juntos, mas separados”, e retrabalhar “a ponte ética entre as confissões”, para, em conjunto, resolverem “problemas que individualmente as comunidades não podem resolver”.

PR/CB/OC

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