«70% das pessoas em Portugal morrem sem ter acesso a uma possibilidade de tornar o seu sofrimento tolerável», alerta José Diogo Ferreira Martins

Lisboa, 05 jun 2022 (Ecclesia) – O presidente da Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP) disse que os projetos que visam a legalização da eutanásia vão “empurrar” as pessoas em sofrimento para esta opção, num país onde se morre mal.

“Estamos a empurrar os mais frágeis, os mais fracos, os mais idosos da nossa população para a opção da eutanásia, porque não lhes oferecemos cuidados que paliem a sua dor”, refere José Diogo Ferreira Martins, em entrevista conjunta à Agência ECCLESIA e Rádio Renascença, emitida e publicada aos domingos.

A Assembleia da República vai debater, a 9 de junho, os novos projetos de lei sobre a legalização da eutanásia, na sequência de um agendamento potestativo do PS.

O entrevistado lamenta a pressa dos deputados por retomar o tema, após dois vetos presidenciais, sublinhando que 70% das pessoas em Portugal “morrem sem ter acesso a uma possibilidade de tornar o seu sofrimento tolerável”.

“Não é uma verdadeira escolha”, defende.

O médico, especialista em cardiologia pediátrica, diz que as novas propostas legislativas deixam por resolver as questões levantadas pelos vetos anteriores e agravam “a possibilidade de haver abusos relativamente ao que se diz ser o espírito da lei”.

“A eutanásia não é um caminho aceitável para o nosso país”, sustenta o presidente da AMCP.

Como médico, sei que é francamente difícil de definir o que é uma doença com um grau evolutivo muito avançado ou, mais importante ainda, com o sofrimento intolerável”.

José Diogo Ferreira Martins realça que, a partir dos dados recolhidos nos países que legalizaram a eutanásia, é possível concluir que “a rampa deslizante se instala de forma brutal”.

“Onde inicialmente tínhamos eutanásia limitada a doentes oncológicos terminais, temos hoje em dia eutanásias que se aplicam a pessoas que estão ‘cansadas de viver’, gente que tem problemas psiquiátricos e que tem desejos de morte”, adverte.

O presidente da AMCP considera ser importante clarificar conceitos como eutanásia ou distanásia, precisando que “não deixar morrer ou prolongar de forma desnecessária a vida de alguém é absolutamente errado, condenável”.

“Não é esse facto que nos deve levar a defender a eutanásia. Nem antecipar nem adiar”, aponta.

O responsável entende que um referendo seria benéfico para os portugueses “tenham a oportunidade de perceber verdadeiramente aquilo que está em causa”.

A entrevista aborda ainda os impactos da pandemia, que recordou a importância de ser responsáveis “pelos que mais sofrem”.

O especialista em cardiologia pediátrica mostra-se preocupado com os doentes não-Covid: “Há muita gente que faltou a consultas, muita gente que não foi operada e devia ter sido operada, muito rastreio do cancro que não foi feito”.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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