«Oito mil pessoas que não votam faz grande diferença», entende o jovem animador sociocultural que fala na importância de «participar» e não apenas «integrar» a sociedade

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Lisboa, 26 jan 2022 (Ecclesia) – Reginaldo Spínola, nascido em Portugal há 35 anos, mas cidadão português há apenas três, procura na comunidade da Cova da Moura mostrar a importância de participar ativamente na sociedade e exercer o direito de voto.

“A vontade de por a comunidade a votar é muito grande. Eu sempre ouvia o meu avô dizer que era importante ganhar um candidato e não o outro, porque um seria mais importante para a nossa comunidade. Mas o meu avô nunca votou. Um dia perguntei-lhe porquê. E ele disse que não ia votar, mas continuava a dizer que um não podia ganhar. Isto acontecia muito na nossa comunidade: muitos acompanhavam as eleições mas não tinham interesse em votar. Dai a minha vontade de mexer com a comunidade, porque aqui vivem pelo menos oito mil pessoas. Oito mil pessoas que não votam fazem grande diferença”, conta o animador sociocultural à Agência ECCLESIA.

Quando aos 32 anos, depois de conseguir a nacionalidade portuguesa, Reginaldo Spínola nunca deixou de votar, incentivando outros a fazer o mesmo.

Junto com outras associações, Reginaldo que integra um grupo «DRK – Doutores de rua», conseguiram reverter a lei da nacionalidade mas, no acompanhamento que faziam dos imigrantes, queriam comprometer as pessoas na sua participação cívica.

“Ao mesmo tempo, dizíamos às pessoas que as ajudávamos a tratar da nacionalidade, porque era o que fazíamos, e comprometíamos as pessoas com as eleições, mostrávamos que era necessário e importante votarem, porque cada um podia ajudar a mudar as coisas, se participasse civicamente nas eleições, e ser cada vez mais uma pessoa que faça parte da sociedade e não apenas integre a sociedade. Esse é o nosso contributo para a nossa comunidade. Conhecer as leis, começar a mexer com a sociedade”, valoriza.

Reginaldo Spínola recorda o “problema de identidade” que teve, partilhado por outros, que para obter a cidadania tinham de passar por um processo de obter registo criminal dos países de origem dos pais, “sem nunca lá termos estado”, fazer prova de língua “quando a quarta classe era feita em Portugal”, recorda, resumindo em “burocracias que não faziam sentido”.

“Fazíamos esse percurso para comprar a nacionalidade, tendo nascido em território nacional, trabalhando cá, descontando cá e contribuindo para a sociedade portuguesa e não eramos considerados portugueses. É uma situação muito injusta”, sublinha.

Foto: Lusa

A luta do jovem de 35 anos é “não perpetuar” a vida dos pais, semelhante a tantos imigrantes que residem em Portugal.

“O nosso objetivo é não perpetuar a vida dos nossos pais, que é trabalhar nas limpezas ou nas obras. Nós estudamos, sabemos falar português, nascemos bilingues. Sempre quis estudar, ir para a universidade, mesmo com as dificuldades que encontrei, tenho ainda o objetivo de ir estudar e, como sou animador sociocultural, no Moinho da Juventude, e gostaria de estudar educação”, conta.

Enquanto não ingressa no ensino superior, Reginaldo Spínola procura através do Teatro do Oprimido, uma metodologia de Augusto Boal e Paulo Freire, nascida nos anos 60 do século XX, criar consciência social na comunidade da Cova da Moura, na periferia de Lisboa, algo que despertou em si a vontade de contribuir para a sociedade.

“Com esta metodologia, criamos peças e convidamos os espetadores a subir ao palco para discutir os problemas connosco”, resume.

Ao longo da semana que antecede as eleições legislativas no próximo dia 30, o programa Ecclesia na Antena 1, escuta diferentes vozes do Portugal que vai a votos.

HM/LS

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