«Não pode haver lugar nas comunidades cristãs para a xenofobia, o racismo ou qualquer forma de discriminação», salienta documento final do encontro que decorreu na Alemanha
Lisboa, 29 out 2026 (Ecclesia) – Um grupo de 36 agentes pastorais ligados às comunidades católicas de língua portuguesa na diáspora na Europa manifestaram hoje “preocupação com a disseminação de discursos de ódio, xenofobia, racismo e discriminação” conta migrantes, após um encontro na Alemanha.
“Perante estas situações, a Igreja é chamada a exercer a sua dimensão profética: denunciar a desumanização, promover a cultura do encontro e criar espaços de diálogo, sem abdicar da verdade do Evangelho nem da defesa dos mais vulneráveis”, pode ler-se no documento de síntese e linhas orientadoras para o futuro enviado à Agência ECCLESIA.
A fé cristã abre ao outro e ao diferente. Por isso, não pode haver lugar nas comunidades cristãs para a xenofobia, o racismo ou qualquer forma de discriminação”, acrescentou.
O Centro de Schoenstatt, na cidade alemã de Rottenburg, acolheu o encontro de agentes pastorais das comunidades católicas de língua portuguesa na diáspora, em torno do tema “O contributo da pastoral das migrações para a sinodalidade”.
A iniciativa reuniu bispos, sacerdotes, religiosas, diáconos permanentes, assistentes pastorais e leigos, de várias origens – Angola, Brasil, Camarões, México, Itália, Indonésia, São Tomé e Príncipe, Portugal e Moçambique -, com experiência pastoral na Alemanha, Bélgica, Luxemburgo, Estados Unidos da América, França e Suíça.
Portugal esteve representado através da participação de D. Pedro Fernandes, presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana e bispo de Portalegre-Castelo Branco, e Eugénia Costa Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM).
Em declarações à Agência ECCLESIA, a responsável da OCPM afirmou que os participantes do encontro abordaram a importância de “investir e capacitar as comunidades para reconhecer e contrariar” os discursos de ódio contra migrantes.
“É importante fazer memória, porque quem está no mundo da imigração, quem viveu fora, também experimentou, de alguma forma, esta xenofobia, também esta dificuldade de ser aceite”, destacou.
Eugénia Costa Quaresma relatou que os agentes pastorais sublinharam a necessidade de, enquanto Igreja, serem a voz profética que “denuncia”, “contraria”, “apela à verdade dos factos” e que “é capaz de promover o diálogo e o encontro”.

“E outra coisa que, também, às vezes, nos esquecemos, e que é um dom, é a questão da reconciliação e do perdão, que são valores profundamente evangélicos, cristãos, e que o mundo precisa. São valores que nos ajudam a lidar com a polarização”, indicou.
Entre as linhas orientadoras para o futuro apontadas no documento final do encontro está a atitude de “assumir um testemunho profético perante a xenofobia e a discriminação”.
Nesse sentido, os agentes pastorais defendem que é preciso “capacitar as comunidades” para reconhecer e contrariar discursos de ódio, “favorecer espaços de diálogo com a sociedade civil e com pessoas de diferentes convicções, contribuindo para uma cultura do encontro” e “acompanhar de modo particular as pessoas e famílias que vivem situações de exclusão, precariedade ou fragilidade”, entre outros.
O encontro concluiu também que a “integração exige acolhimento, diálogo e reciprocidade”, tendo sido “identificadas dificuldades relacionadas com a abertura das comunidades, o acolhimento de novas pessoas, a aceitação das diferenças culturais e a cooperação entre sacerdotes, agentes pastorais e estruturas paroquiais”.
“Estas tensões que existem, estas dificuldades que existem, são muito humanas. Mas se nós as formos rezando e se nos formos deixando transformar, se nos formos deixando evangelizar, conseguimos superar algumas destas tensões”, evidenciou.
O documento apontou também à necessidade de “investir na formação dos agentes pastorais”, promovendo percursos de formação bíblica, teológica, espiritual e pastoral destinados aos leigos e aos restantes agentes.
Importa, igualmente, promover a formação dos sacerdotes e dos restantes agentes pastorais para a interculturalidade, a mobilidade humana e a prática da sinodalidade”, assinalou.
Eugénia Quaresma destaca esta como uma “prioridade”, observando que “há um desconhecimento” sobre o Magistério da Igreja no campo das migrações.
Os participantes do encontro mencionaram também outras linhas orientadoras para o futuro: promover uma cultura de acolhimento e integração, construir pontes entre comunidades e igrejas locais, reforçar a participação e a corresponsabilidade sinodal e renovar a ação missionária num contexto de mudança.
“Queremos ser uma Igreja para todos: que faz da diversidade um caminho de comunhão, da sinodalidade uma prática quotidiana e da proximidade a Cristo o centro da sua missão”, conclui o documento.
LJ/PR

