Historiador José Eduardo Franco realça importância do legado do sacerdote jesuíta

Lisboa, 021 nov 2018 (Ecclesia) – A Assembleia  da República acolhe hoje a abertura do congresso ‘Repensar Portugal, a Europa e a Globalização’, dedicado ao centenário do nascimento do Padre Manuel Antunes, jesuíta, que se destacou na defesa da democracia.

O historiador José Eduardo Franco diz que o legado do padre Manuel Antunes, mais de três décadas depois da sua morte, continua a ser essencial para ajudar a perspetivar o futuro de Portugal e da Igreja Católica.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o especialista evocou um homem que se assumiu como um dos “maiores pensadores e pedagogos do século XX”, cujos textos “poderiam ser lidos como se tivessem sido escritos hoje”.

O padre Manuel Antunes, jesuíta, professor universitário e ensaísta português, nasceu na Sertã em 1918 e faleceu no ano de 1985, em Lisboa.

O programa dos trabalhos começa às 14h00, na sala do senado, na Assembleia.

José Eduardo Franco, que preside à comissão organizadora do congresso, salienta a obra ‘Repensar Portugal’, do padre Manuel Antunes.

Um livro “pequeno” mas “fantástico”, que “ainda hoje dá pistas para compreender a melhor orientação para a democracia portuguesa, quais os seus limites, os seus vícios e as soluções a considerar para criar uma democracia sólida, avançada”.

“O padre Manuel Antunes teve um papel essencial na transição da ditadura para a democracia, através de um magistério discreto, de influência nos vários setores e nas várias correntes em confronto, em situações quase de fratura”, numa ação que “influenciou muitas das lideranças atuais”, considera José Eduardo Franco

O historiador realça a relevância e atualidade dos escritos do padre Manuel Antunes para “os desafios da Igreja Católica e da sociedade contemporânea”.

A partir do ambiente dos anos 60 do século XX, na esteira do Concílio Vaticano II, o padre Manuel Antunes já defendia a necessidade de uma “atualização da linguagem, para a Igreja se tornar audível pelos homens de homens”.

Como “fazer em termos pastorais”, a urgência de “renovação, até no plano do governo da Igreja, a relação desta com o interior e o exterior”.

De acordo com José Eduardo Franco, o sacerdote jesuíta também já sublinhava a “necessidade do diálogo com as fronteiras, com o outro”, de uma “Igreja que não se devia entrincheirar mas abrir-se no mundo, com as pessoas”

“Isto está muito na linha do Papa Francisco, aliás eles foram formados na mesma ordem religiosa, dos jesuítas, e o pensamento coincide em grande medida”, aponta o historiador.

A reflexão do padre Manuel Antunes acerca dos desafios da Igreja e da sociedade contemporânea está disponível num conjunto de textos que agora foram republicados, com o nome ‘Compreender o mundo contemporâneo e atualizar a Igreja’, da editora Gradiva.

O pensamento do padre Manuel Antunes também está plasmado em 14 volumes, numa Obra Completa publicada através da Fundação Calouste Gulbenkian.

O congresso ‘Repensar Portugal, a Europa e a Globalização’, dedicado ao centenário do nascimento do padre Manuel Antunes, vai ter lugar entre hoje e 6 de novembro, em Lisboa e na Sertã.

“Ele legou-nos um pensamento que deixou espraiado nos seus textos, que nos dão chaves de leitura importantes para compreendermos o mundo de hoje”, salienta José Eduardo Franco.

De acordo com o historiador, esta iniciativa visa sobretudo, “a partir do pensamento do padre Manuel Antunes, das suas preocupações, pensar o mundo contemporâneo” e “desenvolver um pensamento critico em relação aos grandes desafios que se colocam à humanidade de hoje”.

“O padre Manuel Antunes pensou o seu tempo em fase de mudança, em processo de globalização que é cada vez mais o nosso mundo”, salienta José Eduardo Franco, que dá como exemplo o “turbilhão de informação que chega de todo o lado pelas mais diferentes vias e meios, desde a televisão, a internet, a rádio”, e a forma como este contexto influencia os jovens.

“Este é cada vez mais um desafio que se coloca aos pedagogos de hoje, aos professores”, aponta José Eduardo Franco.

O presidente da comissão organizadora do congresso ‘Repensar Portugal, a Europa e a Globalização’ explica ainda que esta iniciativa será “uma universidade em ponto pequeno, em que se abordarão estes temas, e ao mesmo tempo servirá como “ação de formação para os professores dos vários níveis de ensino”.

Em cima da mesa estarão várias outras matérias, com base no legado do padre Manuel Antunes, desde “as questões da ética às questões sociais, da pobreza, das precariedades, até à questão da inteligência artificial, da robótica”, completou aquele responsável.

PR/JCP

O padre Manuel Antunes nasceu na Sertã a 3 de novembro de 1918; foi ordenado padre a 15 de julho de 1949, pelo bispo de Guadix, D. Rafael Alvarez de Lara.

Em 1955, rumou a Lisboa para integrar a redação da revista Brotéria, que viria a dirigir entre 1965 e 1982; como professor, marcou várias gerações de estudantes na Faculdade de Letras.

Em 1981 recebeu o título de doutor ‘Honoris Causa’ da Faculdade de Letras de Lisboa; em 1983, nas comemorações do 10 de junho, o então presidente da República Ramalho Eanes conferiu-lhe o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

A Igreja Católica, através do seu Secretariado Nacional para a Pastoral da Cultura, atribui anualmente um prémio com o nome ‘Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes’, para destacar um percurso ou obra que refletem o humanismo e a experiência cristã.

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