Porto: Projeto de reabilitação do Seminário Maior é uma obra de «engenharia arrojada», «muito complexa»

Padre Samuel Guedes, responsável pelas finanças diocesanas, explica «pé-de-meia», e destaca solidariedade que já começou a chegar

Foto: Agência ECCLESIA/CB

Porto, 26 mar 2026 (Ecclesia) – O ecónomo da Diocese do Porto explicou que têm “um caminho com exigência e com muito cuidado” para a reabilitação do Seminário Maior, que já não oferecia condições aos seminaristas, e que a hospedaria é uma obra de “engenharia arrojada”.

“Dizemos um ‘graças a Deus’ já começaram, é um momento histórico porque todos nós, sacerdotes, diocese, os diocesanos, olhavam para o Seminário Maior com esta esperança de um dia podermos começar esta grande obra de recuperação, de reestruturação, e de reconstrução deste espaço destinado à formação dos sacerdotes”, disse o padre Samuel Guedes, em entrevista à Agência ECCLESIA.

A Diocese do Porto assinalou o início oficial das obras de reabilitação do seu Seminário Maior com a assinatura do auto de consignação da empreitada, no dia 4 de março; neste mesmo dia, há oito anos, em 2018, D. Manuel Linda sabia que ia ser bispo desta Igreja diocesana, pelo então núncio apostólico em Portugal (representante do Papa).

O atual edifício do Seminário Maior já não oferecia condições para acolher os futuros sacerdotes, desta diocese e de outras que o Porto também acolhe, porque “estava construído à moda de uns séculos atrás”, os seminaristas tinham o seu quarto, mas “não tinham as instalações sanitárias nos seus espaços”, eram comuns, e essa “vai ser a grande modificação da casa”.

“Hoje, não é luxo, é uma questão higiene e de comodidade. Cada um de nós gosta, até nas nossas casas particulares. Portanto, um quarto com as instalações sanitárias próprias, algumas salas dotadas de equipamentos necessários para a sua formação, e o resto será mais ou menos igual”, acrescentou o padre Samuel Guedes.

O ecónomo da Diocese do Porto salienta que esta obra no Seminário Maior será um restauro do existente, “porque o edifício é muito bonito, é um edifício histórico, tem madeiras com séculos, e tudo vai ser visto ao pormenor para restaurar o que pode ser restaurado, mantendo a história e, o que é preciso substituir”.

Ao todo, este projeto de reabilitação tem um orçamento de 16 milhões de euros que inclui a criação de uma unidade hoteleira, porque têm de “pensar naquilo que é a sustentabilidade de todos os espaços ”, e decidiram criar, neste ambiente, “um espaço ao jeito dos mosteiros”, e que pudesse proporcionar ao turismo, “que é muito neste lugar”, essa experiência de hospedaria, e criarem “sustentabilidade” para o Seminário Maior, uma casa que “precisa de viver, tem os seus gastos, as suas contas, e hoje não é fácil dar resposta a isso tudo”.

Segundo o entrevistado, “esta obra é muito complexa”, no antigo Convento dos Jesuítas vai ficar a comunidade formativa do seminário, com 54 quartos, um outro edifício, “que está voltado para o Rio Douro”, vai ser separado para a hospedaria, “mas também terá a construção nova”, com mais 54 quatros.

“Nos campos que estão por cima do túnel da Ribeira, terá a construção de um edifício novo, de quartos, que é uma obra de engenharia muito complexa, porque o edifício, que tem dois pisos, vai ser peso-zero: Estão lá dois túneis, o túnel da Ribeira onde passou o trânsito, e está outro que está desativado, que era o túnel dos comboios que passavam para Alfândega, espaços que nós tivemos que os segurar e, portanto, é uma obra de engenharia arrojada”, desenvolveu.

O ecónomo da Diocese do Porto adiantou que já estão “a trabalhar para escolher um parceiro” para a parte hoteleira, porque não têm “know-how” e querem “alguém que ajude nessa parte”, para além de estarem a trabalhar para que a obra termine dentro do prazo, e “daqui a dois anos, quer a hospedaria, quer o seminário esteja a funcionar neste espaço”.

“De facto, os números são muito grandes e tivemos que fazer um desenho de um caminho com exigência e com muito cuidado. Uma parte decidimos ir ao nosso património, para ver o que é que podíamos alienar para reinvestir aqui, a outra parte estamos com um programa de retirarmos rentabilidade do património que temos restaurado, que temos feito investimento. E fizemos também um desenho de forma a podermos responder à ajuda da banca”, explicou o ecónomo diocesano.

O padre Samuel Guedes destaca ainda que “estão a chegar de vários lugares da diocese” donativos, como uma carta que tinha acabado de receber “de um idoso, um senhor já com uma idade muito bonita”, com “um cheque para as obras do seminário”, com a “manifestação da sua alegria, do gosto de poder contribuir”, para além de “algumas quantias significativas” de benfeitores, “que dão confiança e esperança que os diocesanos estão a olhar para isto como algo que é seu e querem participar”.

“Por outro lado, ao longo deste tempo, fomos fazendo aquilo que às vezes dizemos de forma simples o nosso ‘pé-de-meia’ para respondermos ao financiamento da obra”, assegurou.

O arquiteto Pedro Resende Leão é o responsável por este projeto, já trabalha com a Diocese do Porto há vários anos, e “conhece este seminário, esta estrutura, muito bem, porque a estudou durante 25 anos”, quando fez o primeiro projeto, o primeiro desenho, que “foi mudando também ao longo dos tempos”, porque não foi possível começar a obra e tiveram “outras exigências que foi preciso dar resposta”.

CB/OC

Foto: Agência ECCLESIA/CB

No Seminário Maior do Porto, na zona histórica da Sé, está instalado a sua Biblioteca e o Museu do Arte Sacra do Seminário, e, ao longo dos anos, acolheu “muitas atividades pastorais”, e “toda a diocese beneficiará deste grande espaço, que é a todos muito querido”.

Os seminaristas e a equipa formadora estão “provisoriamente” na Casa Diocesana de Vilar, que “neste momento é um hotel, a parte que estava destinada antigamente aos retiros”, e terão que sair de lá “porque não tem o silêncio, a privacidade que é necessária para um percurso de formação para a vida sacerdotal”.

“Queremos a recuperação deste espaço, é a grande vontade do clero, porque nós padres formamo-nos aqui, temos aqui o nosso coração, temos aqui a vida da nossa juventude, aqui crescemos para o sacerdócio, e era impensável decidirmos pôr o seminário noutro lado porque era mais barato, ou porque custava menos dinheiro a obra. É a nossa história, faz parte da nossa identidade como clero da Diocese do Porto e estamos todos com o coração aberto, com o coração disponível para ajudarmos da melhor forma”, desenvolveu, assegurando que o clero está disponível para serem “missionários desta obra”.

O padre Samuel Guedes também estudou nesta casa de formação, e recorda duas memórias felizes desse percurso, exatamente o seu início, quando chegou, e o momento da despedida, quando saiu para a sua ordenação sacerdotal.

“O primeiro dia da entrada neste seminário, portanto, o descer aquelas escadas todas, ser acolhido por um homem extraordinário que já está no céu, o Senhor Padre Carlos Alberto, que era uma instituição no seminário, e olhávamos para ele como uma referência de dedicação, de entrega à vida do seminário. Entrei numa casa que agora vou dizer que é a minha casa. E o outro momento feliz foi o dia da minha ordenação, em que eu subi aquelas escadas com os paramentos nos meus braços, com os meus pais, e olhei para trás, para a porta do edifício, e dizer ‘pronto, cumpriste a tua missão, terei que agora, na minha missão de sacerdote no mundo, trazer mais para esta casa’, recordou.

CB/

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