Homilia do bispo do Porto na Celebração da Paixão do Senhor

Paixão e sinodalidade

Foto Diocese do Porto

Depois da prostração, em silêncio, como tomada de consciência de quanto fez por nós Aquele que, a esta hora, expirou na cruz, começamos esta sagrada liturgia de sexta-feira santa com uma oração na qual se recorda uma dupla pertença presente no mundo: a da morte e do pecado, “transmitida a todo o género humano”, e a da vida sobrenatural, fruto da renovação à imagem do Filho de Deus, o “homem celeste”. Duas formas de ser e duas vias que separam a humanidade: a primeira diz respeito àquela grande parte que ainda permanece apenas no estado do “homem terreno”, egoísta e materialista, sem se preocupar com mais nada; a outra refere-se àqueles que sabem fazer caminho unidos aos irmãos, com Jesus e sob a guia de Jesus. Estes são os «sinodais», os que querem e sabem ser povo do Senhor, os que veem na Igreja a Mãe comum que a todos acolhe na fraternidade e na alegria, os dispostos a dar as mãos uns aos outros para que ninguém se disperse e todos colaborem em prol do bem comum.

Este Evangelho da Paixão, agora religiosamente escutado, também nos falava destes dois grupos e das vias que seguiam. Um, o mais numeroso, não tinha qualquer outro objetivo de unidade que não fosse potenciar o rancor e o ódio e dar a morte Àquele que não reconheciam ou deixaram de reconhecer como Mestre, Senhor e Salvador. Um outro pequeno grupo, no qual sobressaem Maria e João, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena, as mulheres piedosas de Jerusalém, Verónica, Simão de Cirene, José de Arimateia e poucos mais, não abandonam Aquele em quem puseram a sua confiança e constituem um específico grupinho unido, destemido e colaborante até na sepultura do defunto em quem continuavam a acreditar. Une-os um Jesus sofredor e crucificado, como vão ser unidos pelo Cristo ressuscitado e glorificado. E constituem, certamente, o núcleo embrionário da Igreja, mais tarde servida pelos Apóstolos, a partir do Pentecostes. Pelo menos, são sua figura.

Esta sinodalidade, este fazer caminho com Jesus, lembra-nos alguns dados que lhe são inerentes. Em primeiro lugar, apresenta-nos a Igreja como, simultaneamente, Corpo sofredor e glorioso: tal como Cristo, também a Igreja sinodal experimenta momentos de provação e conflito, de dúvidas e obscuridade. Mas, guiada pelo Espírito do Ressuscitado, supera-os na comunhão da mesma fé, na unidade de sentimentos, na escuta fraterna e no discernimento comunitário.

Depois, a sinodalidade remete-nos para a força de sermos capaz de partilhar pesos e suportar fardos: o peso da existência de tantos irmãos que carregam pesadas cruzes, incluindo a cruz da falta de uma meta e de fé e esperança para a atingir; e o fardo do serviço à Igreja enquanto tal, por vezes tão carente de ministros que a sirvam, de carismas que coloquem os seus dons a render para a vitalidade eclesial e de fiéis que se comprometam efetivamente nos ministérios e serviços com os quais se constrói o bem comum. Precisamos de mais colaboração e que todos os que têm fé vivam a Igreja como sua, a defendam e a alarguem. Então, viver a sinodalidade significa carregar, juntos, em união com o Cordeiro de Deus, o peso do pecado do mundo, aliviar os sofrimentos do presente e, em corpo organizado, juntar forças para levar a salvação a todo o mundo. É desta maneira que a Igreja se conforma ao seu Senhor, o “homem do sofrimento” e morto, mas ressuscitado e glorioso.

Irmãs e irmãos, esta sexta-feira santa, vivida em ano do lançamento do Sínodo da Igreja do Porto, nos ajude no dom de nós mesmos a Deus, tal como Jesus se doou totalmente em nosso favor, e nos fortaleça numa comunhão indestrutível de uns com os outros, sob o seu modelo supremo do amor de Cristo. Caminhar juntos exige docilidade ao Espírito de Cristo, escuta mútua e vontade de ser incentivado à participação e ao compromisso. Redimidos pela cruz do Senhor, não o neguemos.

D. Manuel Linda
Bispo do Porto

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