José Miguel Sardica pede um regresso às ideias e pactos que comprometam «atores políticos» no futuro do país

Foto: Lusa

Lisboa, 12 jan 2021 (Ecclesia) – O professor e historiador José Miguel Sardica lamenta que a pandemia tenha “congelado” o debate político e a oposição ao governo, pede um regresso às “ideias”, ao contributo da “academia, de gente nova”, e noção de “serviço público”.

“Precisamos voltar às ideias, precisamos de, com «think-tanks», com a Academia e gente nova, estabelecer grandes linhas para desenvolver sustentadamente a sociedade, a economia e apostar nelas. Debater, comparar com o que de melhor se faz lá fora e não olhar a política no imediato”, afirma o docente da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, em entrevista à Agência ECCLESIA.

José Miguel Sardica sublinha a importância de se depurar a noção de “serviço público”, enquanto “contributo para um todo”: “A noção de usarmos um cargo político para melhorar a sorte dos outros, e não a nossa, é algo que moralmente tem vindo a diluir-se”.

A pandemia em março de 2020 “congelou” o debate político, facto que na opinião do professor da UCP, “não justifica tudo”.

“Foi passada a mensagem de que toda a luta política deveria abrandar ou considerar que há um objetivo superior: o combate à pandemia não justifica tudo. O que me parece que se passa no ambiente político em geral, em Portugal, é um governo cuja oposição é quase nula”, reconhece.

O docente preconiza uma “oposição realista” que, afirma, não encontrar “nos extremos”.

“Vemos nos extremos começarem a aparecer vozes oposicionistas mas, não é para mim claro que possam ser alternativas viáveis. O que vemos é que, não só o governo não tem concorrência, e isso fá-lo adormecer dando por adquirido uma aceitação que as sondagens dizem que tem mas pode ser enganador e, sobretudo, não cria uma dinâmica de renovação e reformas que é necessário implementar, o que pode estar a atrasar o país na competição internacional”, preconiza.

José Miguel Sardica lê que para garantir uma “paz social, sindical” não se realizaram “reformas que eram importantes” e que, atualmente, mostram “um vazio na oposição e um autofechamento de conforto sobre uma situação instalada que pode ser má”.

Num quadro em que a abstenção eleitoral cresce, “em todas as eleições”, se prevê um “desânimo” e “falta de participação”, o professor alerta para uma situação que um governo pode vir a ser eleito “não pela maioria mas pela minoria”.

“A abstenção é tão grande que faz não contestar a legitimidade formal mas a legitimidade substancial de alternativas políticas que não colhem mais do que 10 ou 20% dos votos”, indica.

Em plena campanha eleitoral para as eleições presidenciais, agendadas para 24 de janeiro, marcadas pela “agenda instantânea”, com os portugueses a acompanharem debates “onde os candidatos ao mais alto cargo da nação, discutem questões que dizem respeito ao dia a dia do governo”, José Miguel Sardica prevê uma “continuidade” com um resultado “expectável” nas Presidenciais, e mais no final do ano, com as eleições autárquicas previstas para setembro ou outubro, a servirem de avaliação ao governo.

O docente indica faltar à política “passar da espuma e do ruído, da acusação fácil, para um nível mais construtivo”, com o contributo dos “principais atores políticos” a pensarem no país “daqui a 10 anos e não daqui a um mês”.

José Miguel Sardica crítica ainda a comunicação social que “corre atrás do «soundbite» para abrir noticiários” e não dá espaço de “explicação política”.

Ao longo da semana o programa Ecclesia na Antena 1 vai estar à conversa com o professor e historiador José Miguel Sardica, perspetivando os acontecimento deste ano em diferentes áreas – Igreja, Política, Sociedade, Europa e Ambiente.

LS

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