Utente de um centro de apoio e reabilitação incentiva «Governo, Estado e juntas freguesia» a ficarem «mais focados no bem-estar da pessoa com deficiência»

Vila do Conde, 29 mar 2026 (Ecclesia) – João Paulo Silva, utente do Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência (CARPD), em Touguinha, lamenta os obstáculos que ainda encontra na sociedade uma cadeira de rodas, e destaca a sua evolução nesta resposta da Misericórdia Vila-condense.
“Há coisas que ainda têm que melhorar, há sítios que não, o governo e o Estado e a juntas freguesia têm que abrir os olhinhos, e ficar mais focados no bem-estar das pessoas com deficiência, seja na mobilidade reduzida, seja na mobilidade de andarilhos, na mobilidade que for”, disse o entrevistado de 39 anos de idade, em entrevista à Agência ECCLESIA.
O utente do CARPD, em Touguinha, centro da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, desloca-se em cadeira de rodas e sublinha que há “coisas que têm que melhorar, que os governos têm de trabalhar juntos”, e tentar ver o melhor para as pessoas com deficiência.
João Paulo Silva já fez “muitas operações, o total 8 ou 9 operações”, e desde “muito cedo, muito novo”, e ainda vai “ser operado outra vez”, salienta que “tem sido desde muito pequeno uma luta diária, um sacrifício diário, um querer muito caminhar, fazer exercício, um querer muito passar barreiras”.
“Nós, no mundo hoje, é muito difícil passar barreiras, se a gente não fizer por isso também ninguém vai fazer”, salientou, lamentando que “há momentos que as pessoas esquecem-se de ajudar”.
“A gente tem de ser realista, há momentos que as pessoas parecem que passam ao lado, e não veem a pessoa que precisa de ajuda, e há outras que sim, e que garantem um bem-estar, e que sabem que a pessoa com deficiência, ou com mobilidade reduzida, ou invisual, ou tem uma limitação muito reduzida, que precisa dessas ajudas, há pessoas que têm um coração enorme”, desenvolveu.
João Paulo Silva, para além do CARPD, refere-se também à comunidade do movimento ‘Fé e Luz’ da Paróquia São João Batista de Vila do Conde, “que ajudam muito” este homem que tem “uma fé enorme”, acredita “em Deus, em Jesus Cristo e em Nossa Senhora Fátima que dá muita luz, muita paz, e que o ser humano devia estar mais atento ao escutar a mensagem”.
O entrevistado está no Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência (CARPD), em Touguinha, há 23 anos, onde tem também duas irmãs, uma é utente e a outra funcionária, relata que de “ano para ano as coisas vão melhorando bastante”, e “tem sido um momento de experiências emocionantes, de sabedoria e também de conhecimento que a instituição dá, e ajuda a melhorar”.
“Já tive momentos em que caí, momentos em que achei que não andava certo, momentos que fui ao desânimo, mas tive a coragem de ultrapassar, e esta instituição abriu-me essa porta a ultrapassar essas limitações. Porque quando eu era muito jovem era muito rebelde, agora estou mais homenzinho, já sei os meus limites, já sei os truques todos, por exemplo subir uma rampa a pique. E vou-me adaptando aos degraus, às dificuldades que o mundo me dá”, desenvolveu.
“É uma aventura emocionante É uma aventura diferente também, que abrange muitos parâmetros, com várias patologias e problemas, seja no coro físico mas também no coro mental. É uma casa que me acolhe, que me ama.”
“Ele é feliz aqui”, assegura a irmã, Ana Paula Silva, ajudante de lar neste centro, onde trabalha há 31 anos.
Nesta “aventura”, o entrevistado faz “teatro, pintura, leitura, rádio”, gosta “muito de música”, e é o animador e locutor da rádio Touguilândia, “um projeto que abriu em 2013”, mas que não se limita ao CARPD, faz “parcerias com uma rádio web de amigos de Portugal”, e com uma rádio local transmitem “por todo o mundo, através das redes sociais”.
“Discos pedidos, meteorologia, temas surpresa”, fazem parte da grelha da Rádio Touguilândia, agora, na Páscoa, João Paulo Silva vai “pôr músicas mais relaxadas, com um sentido de amor verdadeiro por Cristo”, porque “a rádio é marcar a vida das pessoas”, lembrar o passado, o presente, “é trazer um bocadinho da personalidade musical”.
‘Fabricantes de sorrisos’, é mote desta emissora local que tenta também “trazer a alegria” dos ouvintes, a começar pelos utentes e funcionários deste centro da Misericórdia de Vila do Conde, e dá ao seu locutor “uma importância enorme”, porque é “escutado”, mas escuta também os outros: “ouvir o que o outro quer, ouvir as razões, ouvir as tristezas, as alegrias, os sentimentos dos outros é muito importante”.
“Gosto muito de ler, jogar playstation, jogos de futebol, gosto muito de desporto, também assumo, não sou violento mas gosto de alguma adrenalina de luta, por exemplo o WWE”, acrescenta o entrevistado que já foi “campeão da 2ª divisão regional” de Boccia, “uma competição muito forte” com “atletas que chegaram à seleção nacional”.
“Tenho que trabalhar muito. É um sonho de qualquer atleta de Boccia a seleção nacional, e os jogos olímpicos, mas tem que trabalhar muito, muito esforço, porque eles também trabalham, também se empenham, também querem como eu”, indicou.
Ana Paula Silva partilha o “orgulho enorme” pelo seu irmão, assinalando a sua evolução e os vários trabalhos e serviços, para além da participação na Via Sacra ao vivi, e não consegue “dar outras palavras” a esta “felicidade imensa”.
Para além das várias atividades e afazeres internos, é também telefonista, este utente está a trabalhar na Cooperativa Agrícola de Vila do Conde, “num programa Inclusão para Todos no Trabalho”, e que é “uma oportunidade de ter o próprio dinheiro, salário, de ter dignidade”.
“Eu sempre gostei de ter um trabalho extra, um trabalho que me dignificasse, que também me desse a minha estabilidade económica. E a Cooperativa veio trazer esse trabalho, esse esforço, faço reposição de stock, limpeza de estantes, repor os preços das etiquetas, marcando com a zebra os códigos de barras, os preços mais altos, mais baixos, e, um dia, se Deus quiser, irei para o caixa, para as contabilidades”, realçou, destacando que faz parte de uma “equipa muito divertida”.
“Começou este ano a ter um trabalhinho lá fora, está super feliz, nota-se mesmo a alegria dele, de manhã quer logo ser o primeiro a sair da cama para ir. Chega ainda me vê antes de eu ir embora também, vai ganhando ali uns trocozitos para ele”, acrescentou Ana Paula Silva.
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A funcionar desde 1994, o CARPD, em Touguinha, Vila do Conde, nasceu para dar resposta às pessoas com deficiência, sentida na altura, e que hoje continua a existir, e apresenta resposta em Lar Residencial para 97 pessoas, acolhe 120 pessoas durante o dia no Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão e apoia 20 pessoas no domicílio.
O Programa ‘70×7’ deste domingo, dia 29 de março, emitido na RTP2, foi dedicado ao Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência, da SCMVC, e à sua Via Sacra ao Vivo 2026. O utente João Paulo Silva foi o primeiro “guia” desta encenação da Via-Sacra, que teve como tema ‘dá-me de beber’ e inspirou-se no diálogo entre Jesus e a Samaritana, enquanto a sua irmão Ana Paula, funcionária do CARPD, fez parte do ‘povo’; ao todo participaram 47 pessoas, entre utentes e funcionários na representação deste texto original. |
CB/OC


