«Passar de um modelo de poder para um modelo de serviço»

Homilia da Missa da Ceia do Senhor do bispo de Portalegre-Castelo Branco

Foto João Cláudio Fernandes

Caríssimas Irmãs e Irmãos em Cristo,

A cena evangélica da última Ceia, que acabamos de reencontrar, encerra, numa enorme densidade, todo o sentido da vida e missão de Jesus. Neste momento culminante, Jesus ilustra, de modo incrivelmente impactante, quem Ele próprio é, como é a Sua missão, o que nos quer revelar sobre Deus e, em consequência, o que nos quer revelar sobre nós próprios, enquanto pessoas e enquanto Igreja.

Diante deste Mestre e Senhor que se ajoelha para fazer um trabalho servil, normalmente reservado aos servidores e até aos escravos, Pedro, expressando uma reação que era certamente comum aos outros apóstolos, mostra-se profundamente embaraçado, consternado, com esta postura do Senhor. Aos olhos dos discípulos, Jesus era o Ungido de Deus, o Messias, que, portador de imenso poder, se deveria afirmar numa posição de superioridade, com uma autoridade sem equívocos nem fragilidades. Eles consideravam que, ao homem de Deus, cabia ser sinal da omnipotência de Deus, que tudo sabe, que tudo pode, que não se verga, mas se impõe. A atitude inesperada de Jesus era, para a sensibilidade dos seus seguidores, desajustada, muito desconfortável, dava parte de fraco, mostrava não saber colocar-se no seu devido lugar.

Porém, Jesus mostra-lhes que esse modelo de autoridade e essa imagem de Deus eram incompatíveis com o projeto do Reino de Deus que Ele vinha instaurar. Pedro precisava, decididamente, de passar de um modelo de poder para um modelo de serviço, de um modelo de grandeza para um modelo de humildade. A imagem de Deus que os discípulos tinham precisava de se converter na imagem que o próprio Deus revelava de Si: o Deus eterno e poderoso manifesta-se na humildade, na pequenez e na fragilidade. O gesto simbólico de lavar os pés aos seus seguidores introduz o grande acontecimento Pascal que o Senhor iria viver logo a seguir: homem de dores, sujeito ao sofrimento, revelando o Deus de Amor no ato mesmo de dar a vida entregando-se nas mãos do Pai com toda a confiança e abandono. Por nós. Para vencer na sua morte a nossa morte. Para fazer da sua derrota a porta aberta para a Sua vitória e para a nossa vitória, final e irreversível. E esta vitória não acontece na exaltação de um poder secular, mas é a vitória do amor, verdadeiramente divino e verdadeiramente humano: frágil até ao extremo e, nessa fragilidade, infinitamente poderoso. No amor, revela-se a força divina de criar todas as coisas e de, na caducidade do nosso pecado, fazer novas todas as coisas, restauradas à imagem do Filho de Deus que, fazendo-se humano, nos faz participar da Sua condição de Filho.

Esta revelação de Cristo, que acontece na Cruz, que se valida na Ressurreição e que permanece ativa e atual na Eucaristia, não diz respeito apenas a Ele. Esta revelação implica-nos: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”. Pedro não o entendia e, mesmo assim, aceitou o desafio, fundado na promessa do Senhor: “O que faço não podes entender agora, mas entendê-lo-ás mais tarde”. Trata-se aqui de um compromisso com a temporalidade e com as suas demoras, que coincidem com as próprias demoras humanas em entender o sentido dos acontecimentos, em juntar as peças nos quadros desconexos, em se situar em processos morosos, que exigem de nós paciência e, sobretudo, confiança e abandono nas mãos do Pai. Como Jesus, com Ele e Nele. E Pedro aceita esse desafio, fundado na promessa do Senhor.

O que é certo é que, para entrar no Reino, se impunha a configuração com este Jesus Cristo que se faz servidor e doador da vida. Um tal perfil é dom e desafio para a Igreja toda e, por isso mesmo, é dom e desafio para os Apóstolos. São os Apóstolos que recebem a missão específica de ajudar os outros irmãos a viverem o dom do Espírito e a confirmá-los nesse dom, auxiliando-os na missão que está inscrita na consagração batismal, garantindo que não se tornariam consumidores de atos profissionais dos líderes, mas atores e sujeitos numa Igreja toda ela ministerial, toda ela missionária, toda ela comprometida e corresponsável. Toda ela, todos os seus membros.

A compreensão da dimensão hierárquica da Igreja só pode conceber-se a esta luz e com este pressuposto. Claro que é mais fácil, num plano secularizante, sem fé, pensar numa autoridade que coincida com poder, pensar em relações comunitárias que se concebam apenas numa lógica de discentes e docentes, de chefes e chefiados. Como poderia o Senhor dizer e mostrar com mais clareza, de modo mais inequívoco, que o seu modelo não era apenas diferente deste, mas diametralmente oposto? “Se eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”. Deste modo, Jesus oferece-nos a medida e o critério para todas as relações dentro da Igreja: gente perdoada por Deus e, no Batismo, libertada do mal; gente consagrada para amar, para construir pontes, para deixar crescer a comunhão, dom de Deus, permitindo que as muitas diversidades se articulem nesse corpo harmonioso em que todos são conduzidos à unidade de Cristo. E todos a caminho, cada um na sua própria etapa, com os meios que consegue, com as competências que tem, ou não tem, mas sempre acolhido pelo amor de Deus presente no rosto dos irmãos, que acolhem sem julgar, que amparam sem cobrar, que valorizam todos. É a Boa Notícia de um novo modo de ser humano, fundado em Deus e no Seu Amor.

A nossa Igreja acredita nisto e, desde o princípio, celebra isto ao fazer memória da última Ceia. E, no entanto, precisamos ainda de crescer neste registo do Reino de Deus, sempre novo, ainda que com mais de dois mil anos; sempre desafiante, ainda que estejamos a caminhar nele desde há tanto tempo. Inspirados no exemplo de Cristo e fortalecidos pelo dom do Seu Espírito, que nos torna capazes de viver em Cristo, precisamos ainda de crescer enquanto comunidade inclusiva, que acolhe todos sem julgar nem condenar; precisamos de aumentar ainda mais a corresponsabilidade, numa Igreja em que todos são sujeitos ativos no único Senhor, que é Cristo, e que confere a cada um, e à comunidade, os necessários dons para o seguimento e para a Missão.

O que vivemos na Igreja é parábola daquilo que desejamos e propomos para o mundo: como acreditariam na nossa mensagem de amor se não vivêssemos no amor? Como levariam a sério a nossa valorização da participação ativa de todos, se entre nós só alguns tivessem espaço para decidir e agir? A escuta do Espírito é uma exigência de discernimento para todos para que, em sinodalidade, possamos perceber onde Deus nos quer levar.

Olhando o mundo que nos cerca, percebemos o quanto os caminhos humanos estão longe deste caminho de Cristo. A mentira que, de tão repetida, pretende estatuto de verdade; a violência que, de tão banalizada, pretende ser reconhecida como normal e legítima. Podemos pensar nas guerras e tantas formas de violência que, à escala global, acabam por nos afetar aqui, dramaticamente, no nosso contexto local. Mas podemos

pensar também nos dinamismos sociais e políticos que, no nosso país, dão corpo a graves disfunções nas nossas realidades comunitárias. Dados oficiais referem que o crime violento cresceu 6% no último ano e que este tipo de crime está diretamente associado ao discurso de ódio racial, de discriminação e violência verbal contra as comunidades minoritárias e contra os migrantes. A violência verbal tende a tornar-se violência física e, infelizmente, por vezes, também violência jurídica ou judicial, em que as pessoas não raramente se sentem vítimas de discriminação ou exclusão em razão da sua origem étnica, religião ou estatuto social. Para já não falar da violência contra as mulheres que ainda sofrem discriminações negativas em matéria salarial ou social.

O modelo que Cristo nos oferece, a Vida Nova do Reino de Deus, é outra coisa. Precisamos mesmo de desenvolver um espírito crítico que detete os muitos e ferozes contrastes que se encontram no mundo contemporâneo, relativamente à proposta evangélica que professamos. Não podemos embarcar nos discursos populistas dos extremismos políticos que fazem tanto mal porque, como é próprio da estratégia diabólica, parecem ter algo de verdade ou de justo, mas na verdade induzem à mentira e à injustiça, alimentam-se do medo das pessoas e, por isso, fomentam o medo; querem a violência e, por isso, manipulam para a violência. Querem reinar e, por isso, dividem.

O Senhor que queremos seguir e que celebramos na Páscoa convoca-nos para a Sua mansidão, propõe-nos um paradigma de serviço e de doação de vida, chama-nos a ser comunidade em que, todos diferentes, acolhemos o dom do Espírito de Amor, que nos faz viver em comunhão, unidade e corresponsabilidade missionária.

Por isso, mantemo-nos à escuta, vigilantes e comprometidos: “Como eu vos fiz, assim deveis vós fazer também”.

D. Pedro Fernandes
Bispo de Portalegre-Castelo Branco

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