Um padre e uma religiosa foram os padrinhos; D. Virgílio Antunes, presidiu à celebração, onde outros dois reclusos foram crismados

Coimbra, 05 abr 2026 (Ecclesia) – Um recluso do Estabelecimento Prisional de Coimbra recebeu os sacramentos de iniciação cristã (Batismo, Comunhão e Crisma), neste domingo de Páscoa, um “momento de grande alegria” após a oportunidade de “nascer de novo” quando aproximou-se da fé.
“Rezo todos os dias e leio o Evangelho diariamente, tentando, assim, ser a melhor versão de mim. Foi na sequência disso que decidi que fazia todo o sentido fazer parte desta tão grande família de Cristo. Então, surgiu a oportunidade de “nascer de novo”, de fazer uma grande Aliança que é o meu Batismo”, disse ‘Miguel’, num testemunho ao jornal diocesano ‘Correio de Coimbra’, enviado à Agência ECCLESIA.
O recluso, com 39 anos de idade, está “preso há quase três anos” e foi, nessa altura, que decidiu “mudar de vida”, mas, para isso, “tinha de tomar algumas decisões para ter estabilidade”, “rezava todas as noites para que a vida melhorasse”.
‘Miguel’ conta que “pedia sempre a Deus para “mostrar o caminho”, e descobriu, “através de outro recluso, que havia uma ‘igreja’ na cadeia”, onde celebravam a Missa, aos domingos.
Quando fui a primeira vez, senti um grande acolhimento, e parecia que fazia todo o sentido estar ali. Sentia uma energia tão boa… Quando liam a Palavra de Deus estavam diretamente a falar para mim, e tudo fazia sentido. Ficava muito comovido, confuso, mas, acima de tudo, feliz”.
‘Miguel’ chegou ao Estabelecimento Prisional de Coimbra “muito mal”, era “viciado em drogas e álcool”, nunca conseguiu ter “uma vida estável ou algum prazer de viver”, e encontrou um “porto seguro” na Igreja Católica, que o “salvou neste lugar”.
Num “belo domingo, na Missa”, a irmã Martinha Silva, do grupo de visitadores ‘Mateus 25’, disse ao recluso que se perguntava: ‘O que é que um homem como tu faz num sítio como este, mas agora percebo que há um propósito’.
“Aquilo pôs-me a pensar e, pouco a pouco, comecei a perceber o porquê das minhas muitas questões. A minha fé tem-me ajudado diariamente em vários sentidos. Tenho posto Deus no centro de cada decisão minha”, revela.
Segundo ‘Miguel’, o desejo de ser batizado surgiu do acolhimento do Grupo Católico de Visitadores Voluntários ‘Mateus 25’, e destaca que a ajuda da irmã Martinha foi crucial para restabelecer o contacto com a sua mãe, que vivia no estrangeiro, e foi procurar o filho.
“A mãe esteve com ele cerca de 10 minutos, foi um encontro muito emocionado, e de choque também”, explicou a irmã Martinha Silva, lembrando que, no domingo seguinte, o recluso disse que “estava preocupado com a mãe, que sabia que ela estava em Portugal”, e pediu para a procurarem, e foi-se “criando a relação de confiança com o grupo de visitadores”.
Neste domingo de Páscoa 2026, dia 5 de abril, ‘Miguel’ foi batizado pelo bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, num “momento de grande alegria”, e escolheu como padrinhos o capelão do estabelecimento prisional, o padre Nuno Santos, e a irmã Martinha Silva.
A religiosa, da Congregação das Irmãs Adoradoras Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade, é presença assídua nas celebrações dominicais na prisão e assume que é “uma grande responsabilidade” ser a madrinha de batismo do ‘Miguel’.
“Eu achei que aceitar fazia sentido nesta relação que fomos criando, e sei que ser madrinha de um recluso é exigente, sobretudo porque depois, à saída, os reclusos encontram-se com uma sociedade muitas vezes hostil, e que tem muito pouca capacidade de integrar e acolher. Isto também é um grande desafio, sobretudo na saída, nas dificuldades de retomar uma vida em liberdade”, desenvolveu a irmã Martinha Silva.

A religiosa visitadora tem consciência que, com o grupo de voluntários ‘Mateus 25’, são “instrumentos de Deus e é Ele que atua”, facilitando caminhos, e “poder caminhar ao lado destas pessoas no caminho que elas quiserem fazer”.
“Neste meu caminho de preparação para o Batismo, nomeadamente na catequese, tenho aprendido muito com a Sr.ª Cristina, a Ir. Martinha e o P. Nuno. Agradeço-lhes muito a paciência e os bons ensinamentos que, com toda a certeza, vou levar para a vida toda”, conclui o recluso ‘Miguel’, que no seu testemunho lembra ainda os “padres João Paulo Fernandes, Diniz”, e ainda “os abraços, as palavras dóceis e, acima de tudo, a boa companhia e conselhos tão acertados” dos voluntários do grupo ‘Mateus 25’.
Virgílio Antunes presidiu à celebração pascal no no Estabelecimento Prisional de Coimbra onde, para além do batismo do ‘Miguel’, que recebeu os três sacramentos de iniciação cristã – Batismo, Comunhão e Confirmação (Crisma) –, mais dois reclusos foram crismados.
CB/OC
