O Monsenhor Vítor Feytor Pinto celebra hoje 88 anos de vida. O seu percurso de 65 anos de padre devo-o ao Concílio Vaticano II, onde foi beber a renovação da Igreja que tanto ansiava e hoje reconhece no Papa Francisco. Sente-se profundamente livre: diz que deve a sua liberdade ao discernimento e à educação que recebeu em casa, e isso permite-lhe ser amigo de diferentes pessoas, de diversas ideologias e contextos.

Depois de ter passado por uma septicemia, em 2018, entende hoje o seu sacerdócio como mais valioso. Com desassombro afirma que a vida cristã «não é doutrina, não é mandamentos, não é liturgia. A vida cristã é Jesus» e que o paradigma dos cristãos, tal como o do Papa Francisco, tem de ser o amor.

Entrevista conduzida por Lígia Silveira

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Agência Ecclesia (AE) – Chamam-lhe mais monsenhor ou padre?

Monsenhor Vitor Feytor Pinto (VFP) – Chamam-me mais padre porque eu gosto muito que me tratem por padre. Ser monsenhor é um título, e eu tenho de agradecer muito ao Papa Bento XVI que me deu este título, mas simplesmente no trato familiar, normal, em comunidade sou o padre Vítor. É assim que me sinto bem.

 

AE – Preparando este nosso encontro, encontrei um testemunho a seu respeito: «Tem a luminosidade intrínseca e a pureza de coração de quem foi muito amado nos primeiros anos de vida. Recebeu com o leite materno a sentido da bondade das coisas». Reconhece-se?

VFP – Penso que é um elogio muito grande. Uma coisa verdadeira é o carinho dos meus pais, sobretudo da minha mãe, que era uma senhora espantosa e me acompanhou ao longo de toda a minha vida sacerdotal.

O curioso é que ela tinha uma distância muito grande do meu pai: o meu pai era um crente fervoroso e a minha mãe era uma crente crítica. Muito interessante porque queria aprofundar as coisas. A certa altura estudou tanta Teologia e considerou que conhecia mais Teologia do que eu. Tínhamos discussões até às 4h da manhã sobre problemas teológicos, muito interessantes.

 

AE – Em herança de fé, recebeu mais da sua mãe ou do seu pai?

VFP – Dos dois. No fundo, um filho que tem uns pais assim é fruto da mistura da sua relação. O meu pai levou a minha mãe a aprofundar muito a sua fé, porque a minha mãe tinha uma fé pequenina e o meu pai tinha uma fé de beirão. A mãe tinha nascido em Coimbra, o seu pai era professor na Universidade no tempo da República. Havia uma distância muito grande dos problemas da Igreja e da fé. A minha mãe respirou essa não-fé, no ambiente em que vivia em Coimbra.

Conheceram-se a estudar na Universidade de Coimbra; a mãe achou o meu pai um rapaz simpático e ele ajudou-a a aprofundar a sua fé.

 

AE – Está na nascença, no amor e na segurança que se recebe em pequeno, as raízes para no futuro, em adulto, uma pessoa sentir-se segura, amada, confiante. Acredita que está no seu berço as razões da sua luminosidade de 87 anos?

VFP – A nossa casa era de alegria extrema. Com a cultura da minha mãe, o sentido cristão profundo do meu pai, efetivamente, isso teria de repetir-se em todos nós. Os quatro irmãos são assim, por temperamento somos assim: felizes, alegres, profundos quanto possível, crentes a não poder ser mais.

Eu escolhi o sacerdócio e sinto-me muito feliz desde que achei que devia ser padre, sinto-me muito feliz com a opção que fiz, que é uma vocação. Reconheço profundamente que estou na vocação em que Deus quis que eu estivesse.

 

AE – Em que é que a liberdade foi marcando o seu percurso? Também em casa, porque não seria esse o percurso sonhado pelo seu pai, mas com liberdade o padre Feytor Pinto foi impondo a sua vocação, no respeito pela liberdade do que o seu pai um dia sonhou para si…

VFP – Em minha casa os pais deixavam os filhos em completa liberdade, mas criavam regras e nós tínhamos de ser fiéis a essas regras. Às vezes não éramos e tínhamos uns castigos muito engraçados…

 

AE – Como por exemplo?

VFP – Ter uma linha de costura presa à perna e a uma cadeira e não poder partir a linha. Era algo muito complicado, quando rebeldes nós eramos. Senti-me bem.

 

AE – A liberdade foi sempre marcando o seu percurso.

VFP – Profundamente livre. E livre numa coisa interessante: não sou capaz de estar preso a ideologias, a partidos, a opiniões que podem ter um contraditório. Sinto completamente livre o meu coração e a minha mente, precisamente para poder optar, porque perante o meu discernimento é aquilo pelo qual devo optar. Sinto-me feliz, porque me sinto completamente livre.

 

AE – Teve a certeza da vocação muito cedo, ou foi confirmando no seu percurso no Seminário?

VFP – Aos cinco anos disse aos meus pais que queria ser padre e aos 10 impus-me. O pai queria que eu fosse para o liceu, ele tinha um Colégio, e eu disse que não, que o meu lugar seria no Seminário. Naquele tempo entrava-se no Seminário aos 10 e eu entrei aos 10.

 

AE – Porque queria fazer o percurso todo…

VFP – Queria fazer o percurso todo.

 

AE – Influenciado pelos anteriores sacerdotes da sua família.

VFP – Chegámos a ser sete padres na nossa família. Todos eles beirões, logicamente. Do lado de Coimbra não havia sacerdotes.

 

AE – Lembra-se do que o marcava ao ver os seus familiares sacerdotes? Tinha inspiração para prosseguir esta inquietação vocacional?

VFP – Tinha uma devoção imensa em ajudar à missa de dois tios padres, os mais novos. Eles preparavam. Foi curioso, já o disse, quando estávamos em Castelo Branco, um dos tios ia passar férias connosco, e eu levantava-me às 6 horas da manhã para acolitar na missa, ajudar na Sé de Castelo Branco.

 

AE – Eram os gestos, os ritos…

VFP – Tinha um gosto enorme. Sentia que o meu caminho seria parecido com os meus tios.

 

AE – Durante o tempo de Seminário não vacilou, teve dúvidas?

VFP – Tive de me discernir muito, atenção. Durante 12 ou 13 anos, no Seminário, era extremamente importante estar atento à realidade. Eu hesitei, claro, eu duvidei. Eu tive a preocupação de sentir o que era de verdade. E na altura da pós-adolescência, 16, 17 e 18 anos, foram tempos de grande clarificação.

Aos 18, 19 anos decidi, indiscutivelmente, que o meu caminho era do sacerdócio. Foi nessa altura que iniciei Teologia. Queria conhecer o mistério de Deus, o desafio de Jesus Cristo, deixar-me apanhar pela força do Espírito Santo. Foi uma riqueza enorme.

 

AE – Foi difícil deixar a família para trás?

VFP – Não, não senti que tinha deixado a família. Senti mesmo que a minha família, todos, pai, mãe e irmãos, se sentiam felizes com o meu sacerdócio. Curioso que o meu pai tinha feito ao reitor do Seminário uma exigência: durante a permanência no Seminário, quando estava em casa, vestia como os meus irmãos, convivia com os meus irmãos, ia às festas como os meus irmãos. O meu pai pediu isso ao reitor e ele concordou porque reconheceu um ambiente familiar bom. Isso também facilitou.

 

AE – É do tempo do Seminário as cartas trocadas com a sua irmã?

VFP – Sim, é do tempo do Seminário. Com uma das irmãs, a Maria de Fátima, a mais próxima de mim. Estabelecemos uma relação muito bonita. Éramos os traquinas da casa. A minha irmã mais velha era muito calma e serena, dava-se muito às leituras; o meu irmão era um homem interessantíssimo, não só com a sua cultura mas também na arte, era extraordinário. Era o pianista das grandes orquestras na Universidade de Coimbra.

 

AE – Os serões musicais marcaram a sua vida. Começou a tocar piano, violino…

VFP – Não havia televisão. Tocávamos piano, eu tocava violino, cantava-se, declamava-se poesia. Muitos poemas que hoje sei, declamava-os aos 10,11 ou 12 anos em casa.

 

AE – Que poetas?

VFP – José Régio, Fernando Pessoa, de uma forma espetacular. Outros também: Guerra Junqueiro, no livro «Os simples» tem poemas fabulosos. Mais tarde tivemos curiosidade em conhecer os poetas brasileiros. Nós cultivávamos o serão com cultura. Na altura era uma sorte não ter televisão. Havia mais convívio e os nossos pais a exigirem o contributo para a festa comum no serão.

 

AE – Na companhia de Beethoven, Mozart, Chopin.

VFP – Todos eles.

 

AE – A música marca o seu crescimento. E o seu gosto atual.

VFP – Os meus descansos são passados a ouvir música ou a ver óperas. É de uma riqueza enorme para o coração e intelecto.

 

AE – Ao longo da sua vida contatou com muitas pessoas, viu nascer muitas famílias, participa do seu dia-a-dia. O que se aprende hoje com as famílias?

VFP – Tenho famílias que acompanho há cinco gerações: os casamentos, batizados, casamentos de filhos, batizados de etos, num ou noutro funeral. Sou o padre que realiza os sacramentos. E não costumo ir almoçar nem jantar. Mesmo aqui na paróquia, praticamente nunca jantei com paroquianos, porque isso seria privilegiar uns e não outros, porque não poderia ir a todos.

 

AE – Mas acompanha o crescimento das famílias.

VFP – Sim, acompanho e isso é muito importante para mim.

 

AE – O que aprende com as famílias hoje?

VFP – Aprendo e desafio: à unidade, à comunhão. Houve famílias em que houve testamentos e não houve nenhuma briga, todos se encontraram na solução. Isso para mim é o que melhor revela a união entre as famílias, a serenidade na transmissão dos bens.

 

AE – Sente-se no coração das famílias?

VFP – E as famílias estão no meu. Rezo muito por todas, por todos os casais a que presidi ao casamento, por todas as crianças que batizei e por todas as famílias que acompanho. É um elemento da minha oração, a experiência vital de Deus. Deus está presente nestas famílias, nos casais, nas crianças. E também está presente por mim, pelo meu sacerdócio, não pela minha riqueza.

 

 

Memórias do dia da ordenação sacerdotal

AE- 65 anos de sacerdócio, a celebrar em julho. Ainda recorda esse dia?

VFP – Não havia de recordar? Levantei-me às 6 da manhã e, curiosamente, na véspera tinha estado a preparar-me na oração, e estava uma manhã lindíssima, a desafiar o sol que ia chegar. Acordei com uma pomba a picar o vidro da minha janela. Olhei e pensei: de facto o Espírito Santo está a querer chegar nesta hora. Recordo profundamente. Olhei e vi aquela pomba depois a esvoaçar.

A ordenação foi às 7 da manhã: naquela altura as ordenações eram muito cedo. Só com a família, algumas pessoas da cidade, eram muito discretas. Hoje uma ordenação sacerdotal é algo espetacular.

 

AE – E a missa nova?

VFP – Oito dias depois, no dia 17 de julho, na Sé nova de Coimbra. Os meus pais nessa altura já viviam em Coimbra. Foi de uma beleza extraordinária. Tinha como diácono e subdiáconos os meus tios padres, na altura não havia concelebrações; e como presbítero assistente um sacerdote, pároco da Sé velha de Coimbra.

Vieram os meus colegas, o reitor do Seminário do Fundão, que foi o orador, na altura era um sermão. E os paramentos eram góticos, fabulosos, do fim do século XIX.

 

AE – Há uma frase sua que diz que se não fosse o Concílio Vaticano II (1962-1965), o seu sacerdócio não teria vingado. O Concilio marca o seu ministério, mas a sua formação foi feita antes.

VFP – A minha formação foi toda pré-conciliar. Fiquei, depois, nove anos a trabalhar na diocese da Guarda, onde me ordenei. Fiquei coadjutor na Sé, durante dois anos, e depois fui fâmulo do bispo durante sete anos.

Nessa altura trabalhei na JEC (Juventude Estudantil Católica) e também dei aulas de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), e de Música e Português na Escola Comercial da Guarda, fundada nessa altura. Orientei o coro da cidade, fui fundador, e animava muitas coisas.

Naquela altura a diocese tinha grandes dificuldades, precisamente por causa dos problemas políticos. Os novos sacerdotes tinham uma cultura que já não se coadunava com a pouca liberdade de pensamento. Surgiu um grande conflito na diocese. Um grande número de sacerdotes estava a ser questionado pelo bispo. Aquilo foi muito difícil.

Eu estava fâmulo do bispo, não podia estar de acordo em algumas coisas … Associei-me muito aos que efetivamente se interrogavam sobre a presença da Igreja no mundo da política, na altura.

 

AE – Encontrava espaço para esse questionamento?

VFP – Nitidamente. Criei uma grande relação com algumas pessoas que estavam opostas ao regime de então. Tínhamos serões muito interessantes para poder conversar sobre todas as coisas. Soube depois que, quando foi o 25 de abril, o governador civil entregou a minha ficha à PIDE. Interessante.

Nessa altura eu senti que a minha vocação brigava no meio daquele conflito. Eu sentia que a Igreja tinha de ser de comunhão, não de tensão. Nessa altura pedi, profundamente, ao bispo que me deixasse ir para Roma.

 

AE – Acompanhar as duas últimas sessões do Concílio.

VFP – Com D. Manuel Vieira Pinto com quem trabalhei, depois, seis anos, a anunciar o Concilio. Na altura em que consegui ir para Roma, aprofundar a minha fé, valorizar a minha conceção teológica. Toda a Teologia do Concílio era para mim uma extraordinária revolução e uma verdadeira revelação de Deus e de Jesus Cristo. Por isso fui apaixonado pelo Concílio e o Concílio moldou a minha vida e formou o meu sacerdócio.

 

AE – Ainda hoje.

VFP – O meu grande líder e responsável por radicar o meu sacerdócio foi D. Manuel Vieira Pinto, com quem tenho uma imensa gratidão. Numa atitude de grande descrição aconselhou-me e orientou-me. Aqueles dois anos em Roma ajudaram-me muito.

 

AE – Como recordar essas duas sessões do Concilio, que teve oportunidade de acompanhar?

VFP – Os padres do Concilio eram os nossos mestres. Antevíamos a conclusão que iria ser votada, precisamente no Concilio, pela reflexão desses grandes professores, o Joseph Ratzinger era um deles. Foram momentos – estive no Centro Internacional Pio XII, onde foi ali a minha formação – e essa formação permitiu atualizar-me profundamente e revolucionar a minha teologia e ação pastoral.

 

AE – O documento «Gaudium et Spes», a constituição pastoral do Concílio Vaticano II, promulgada em 1965, é um dos documentos da sua vida?

VFP – Sem dúvida, é um documento fundamental. Tem o essencial da relação da Igreja com o mundo: defender a dignidade humana, constituir a comunidade humana e promover a atividade humana. Tem toda a presença da Igreja naquilo que é a ordem temporal: a família.

A família tem de ser cristã, não pode ser anárquica, tem de ter valores cristãos para ser projetora de uma grande felicidade.

Para além da família, um problema muito importante é o da cultura. Há muitos homens e mulheres da cultura que dizem que são agnósticos. Não conhecem o mistério de Deus, caso contrário saberiam que a cultura é um caminho para a ultrapassagem e chegar ao mistério de Deus que dá sentido à nossa vida.

Num debate em que esteve o José Saramago e o D. Manuel Clemente, o escritor dizia que não gostava nem conhecia Deus, mas o Sr D. Manuel disse-lhe, algo muito bonito: mas Deus gosta de si.

De facto o problema da cultura é um caminho extraordinário para encontrar o mistério de Deus.

Outro campo é o da economia social, que agora se desenvolve de uma maneira muito bonita, com a Economia de Francisco. A Economia de Francisco é exatamente a dimensão económica da vida económico-social contida no Concílio.

Depois, a intervenção política. Este documento, da ordem temporal, diz que os cristãos têm de estar na política, têm de desenvolver os bens da comunidade humana, não podem deixar de ser críticos perante a dignidade e liberdade humana. Têm, por isso, de intervir na política quando chamados para contemplar a verdade, a justiça, a liberdade, a paz e o amor.

A partir daí, a «Gaudium et Spes» pode atuar na construção da paz. E nesse texto o Papa Paulo VI, em 1968 criou o Dia Mundial da Paz, que ainda hoje celebramos no dia 1 de janeiro.

 

Renovação da Igreja e pontificado do Papa Francisco

AE – Está a desaparecer o sentido de renovação, aquele com que cresceu?

VFP – Em todos os ciclos históricos a realidade que está no poder tem críticos. No meu tempo, no princípio do meu sacerdócio, só se via a espiritualidade. Nós, jovens padres, sentimos a urgência da temporalidade, da dimensão cristã da temporalidade. Quisemos a renovação. Depois, veio o Concílio, que veio confirmar a nossa esperança numa renovação profunda da Igreja.

Atualmente esta renovação conciliar deveria estar a ser vivida, mas ainda está muito aquém.

 

AE – Quando o Papa Francisco diz que a realidade é superior à ideia, está precisamente a seguir essa linha…

VFP – Ele efetivamente tem uma alma conciliar, uma inteligência conciliar, um coração conciliar. Ele é fabuloso. Se esta é a corrente papal, alguns certamente começam a criticar para julgar que o importante é o passado. São tremendos conservadores.

Ser conservador, moderadamente, não é negativo, logicamente. É uma forma de estar na vida. Mas ser conservador de tal maneira que se oponha à renovação que o Papa Francisco está a tentar fazer na linha conciliar, isto é absolutamente desastroso. É dividir a comunidade cristã. Isso não pode ser.

Mas uma coisa curiosa: o Concílio de Trento (1545 — 1563) só teve a sua plenitude executiva 100 anos depois. Nós ainda estamos nos 60 anos depois do término do Concílio Vaticano II. Ainda é possível criar uma Igreja renovada que seja, de facto conciliar.

 

AE – A realização dos Sínodos que o Papa tem convocado, apela a essa dinâmica.

VFP – E muito bem. E a novidade que os Sínodos do Papa Francisco têm mostrado, mas todos, no geral. Todos foram continuação do Concílio. Não atrasaram, nem diminuíram a evolução.

 

AE – O Papa Francisco diz que o importante é abrir processos.

VFP – E caminhar. Tenho um livro que me ofereceram, publicado na altura dos meus 50 anos de sacerdócio, que diz que «o caminho faz-se caminhando». O caminho dos cristãos, o caminho da Igreja também se faz caminhando. Porque a cada passo surgem novas questões e pela luz do Espírito, pelo discernimento humano, efetivamente, iremos descobrir qual o lugar para onde devemos ir.

 

AE – No caminho, perde-se o horizonte de Jesus Cristo?

VFP – A vida cristã não é doutrina, a vida cristã não é mandamentos, a vida cristã não é liturgia. A vida cristã é Jesus. Nós temos que nos centrar em Jesus, porque é razão da vida de um cristão, da vida da Igreja.

 

AE – O que é que isso quer dizer para uma pessoa que não é crente?

VFP – É muito fácil: conversar com ele e relevar-lhe Jesus pelo amor que temos. Porque Jesus é amor. Se eu amo alguém estou a dar-lhe Jesus. Ele aos poucos, vai descobrir isso. Quem o disse foi o Papa Paulo VI, no documento «Evangelli Gaudium»: O testemunho cristão consiste em acolher e compreender toda a gente, ser solidário sobretudo com os mais pobres e viver a vida no seu ambiente, fazendo parte desse mundo. Sendo assim, os outros que nos ouvem e que nos veem a amar assim, vão perguntar porque és assim? Então eu tenho a oportunidade de dizer: porque creio em Jesus Cristo. A isto se chama o início da evangelização, o kerigma, o anúncio de Jesus Cristo. É muito bonito.

Pelo nosso amor os outros descobrem porque é que este homem é assim, porque é que ele me perdoa? Porque é que não se vingou de mim? Porque é que me perdoou e me quer reconciliado? Eu tenho a oportunidade de dizer, porque acredito em Jesus.

 

Foto: Agência ECCLESIA/MC

 

Igreja e em diálogo

AE – O padre Feytor Pinto é um homem de diálogo, e nesse diálogo encontra caminhos comuns, às vezes em campos que a sociedade considera opostos.

VFP – Nós, cristãos, não podemos ser opostos, adversários. Companheiros com ideias diferentes, ideologias diferentes, opções diferentes, religiões diferentes, mas companheiros. Com o nosso testemunho de vida, o que é a nossa realidade, anuncia o que é a comunidade cristã.

O cardeal Maradiaga disse-me, num encontro em Lisboa, que o Papa Francisco quer mudar a paradigma da Igreja. As regras eram ir à missa ao domingo, comungar na Páscoa da ressurreição, confessar-me uma vez por ano. Isto eram as regras, o paradigma. Quem é cristão é quem vai à missa? Não é. Quem é cristão é quem ama. O paradigma da Igreja, dos cristãos é o amor.

 

AE – E estamos a afirmar isso?

VFP – Não tanto, mas esta tem de ser a intenção. Eu digo, com toda a simplicidade, eu tento viver isto. Tento.

 

AE – E procurou viver com diferentes pessoas que vieram ter consigo, com quem se encontrou em diferentes contextos…

VFP – Estive num trabalho de responsabilidade política. O problema da droga e das migrações, das culturas, esse campo no Ministério da Educação, na Presidência do Conselho de Ministros. Conheci muita gente de muita cor e sou amigo de todos. Há muita gente com quem trabalhei que não tem a fé cristã, que até, eventualmente serão contra alguma aspeto, mas somos amigos. A amizade e o amor fraterno é a plataforma da evangelização, o primeiro campo do kerigma.

 

AE – No livro dos seus 50 anos de sacerdócio escreviam que, com igual dignidade, o padre Feytor Pinto está na paróquia, nas comunidades mais pequenas, como nos mais altos cargos e nas reuniões no Vaticano. Todos os ambientes trata com igual dignidade.

VFP – Não sei se sou assim, porque não me posso julgar, não sei, sei que tento isso. Cada pessoa que está ao meu lado, qualquer que seja a sua fé, qualquer que seja a sua idade ou partido político, é a presença de Jesus, porque foi Jesus que mo disse: ao mais pequenino dos meus irmãos, é a mim que serves.

 

AE – Dizem também que procura acertar numa pastoral mais próxima da vida das pessoas. Sair das ideias e dogmas para ir ao encontro da realidade.

VFP – Sem dúvida. O Papa Francisco é assim, ela fala tanto de proximidade e, talvez antes do Papa Francisco o dizer… eu estava muito preocupado com o ser próximo.

 

AE – Os seus 65 anos de padre dizem, isso, já antes do Papa Francisco o indicar. Não sabe ser diferente?

VFP – É do berço, julgo que não. Fui moldado assim pelos meus pais. Sinto isto com muita alegria.

 

AE – E escuta todos?

VFP – Sim, todos.

 

AE – O seu telefone toca, batem à porta do seu gabinete…

VFP – Está sempre aberta.

 

AE – A escuta é um ministério central de um padre? Mais do que administrar sacramentos?

VFP – A razão do seu celibato é estar completamente disponível para todos. Depois, qual o tipo de disponibilidade? Isso depende do problema da pessoa. A pessoa tem um problema, a pessoa tem de estar disponível para isso. Isto é muito bonito. São Tiago diz isto: a fé sem obras é morta.

Quando te pedirem alguma coisa e não responderes, não ajudares concretamente, efetivamente não tens uma fé ativa, mas teórica. É impressionante. As cartas dos apóstolos e os Evangelhos têm uma atualidade fantástica.

 

AE – Qual o livro que mais aprecia?

VFP – Os Evangelhos. É Jesus. O Evangelho de João, fantástico. O de Lucas, o de Marcos, são catequeses. Ali vemos a originalidade do cristianismo e a sua beleza. Jesus esteve próximo de todos.

 

AE – Quando as pessoas o procuram e o padre Feytor Pinto as escuta, o que acontece nesse encontro? As pessoas saem melhor depois de estar consigo…

VFP – Este escritório é muito giro, há pessoas que entram a chorar e saem a sorrir, não a rir, mas a sorrir. E isso é muito importante. Vou tentando fazer isso com todas as pessoas, que todos os que daqui saem, depois de conversar, saiam a sorrir.

É preciso encontrar o segredo para nortear a pessoa, ainda quando a pessoa não pode continuar a fazer o que faz. Tem de ser a pessoa a descobrir.

O problema da escuta não é de orientação. Eu não gosto da expressão de «diretor espiritual», ser eu a dizer o que ele vai fazer. Na conversa eu tenho de iluminar, apontar vários caminhos, até a pessoa descobrir o que é melhor para si. E o que é melhor para si é diferente do que julgava antes. Este segredo, esta maneira de refletir, penso que é muito importante e bonito.

 

AE – Este escritório testemunhou encontros muito bonitos. Aliás, «bonito» é uma palavra que o padre Feytor Pinto usa muito… Sente-se confortado por estes momentos.

VFP – Sinto-me muito bem. Gosto muito de ajudar uma pessoa a sair daqui em paz, serena.

 

AE – E todos os dias confirma o seu sacerdócio por esses momentos.

VFP – A minha vida hoje, é essa: celebrar a Eucaristia, algum sacramento do batismo e receber pessoas. Quando querem algum confidente.

 

Padre no mundo da saúde

AE – Nos diálogos e nas pontes que foi estabelecendo na sua vida, já falámos de vários quadrantes na vida política não apenas eclesial, em que esteve e atuou, quais as pontes mais difíceis de fazer?

VFP – Penso que o mundo da droga é muito complicado. Tentámos naqueles seis anos, em que estive à frente dessa área, desenvolver um processo que salvasse quantos fosse possível salvar. A salvação naquela altura era muito limitada, 16-18% dos que tratávamos. Mas foi muito interessante o trabalho que realizámos porque foi, de uma maneira especial, o trabalho preventivo.

Naquela altura a nossa grande preocupação era o doente, tentar curá-lo ou cuidar dele. Se não éramos capazes de o curar eramos capazes de cuidar dele. Antes queríamos prevenir: na escola, nas famílias para que os adolescentes e jovens não caíssem nos consumos.

Isto foi um trabalho muito bonito. Curiosamente, dentro da equipa de 40 pessoas vindas de todos os partidos, de todas as ideologias, da fé religiosa díspar, de todos os estatutos sociais e todos unidos. Todos nos respeitávamos e estávamos objetivados na luta contra o consumo da droga, na luta pela cura dos doentes, estávamos objetivados nisto e tudo o resto era secundário.

Às terças-feiras tínhamos uma reunião com representantes de oito Ministérios. No primeiro ano foi muito difícil porque era um filho de muita mãe. E a perspetiva de cada ministério era terrível. No fim dos seis anos éramos amigos profundos e continuamos hoje a sê-lo.

 

AE – Na altura sentia-se que o Ministério das Finanças era o que mais mandava?

VFP – Na altura deram-nos muito dinheiro. Os dois Ministérios, a Presidência do Conselho de Ministros, com o primeiro-ministro Cavaco Silva, deu razoavelmente um orçamento bom. O orçamento que nos foi dado pelo engenheiro Guterres foi espetacular. Pudemos fazer muito trabalho. Cada tostãozinho era aplicado a sério e com imenso rigor.

Eu nunca assinava um cheque em primeiro lugar; a primeira assinatura era de um ministro. Ter muito cuidado e ser muito transparente para poder ser eficaz.

 

AE – A eutanásia está a ser colocada da melhor forma?

VFP – Está a ser colocada da pior forma. Não é um problema religioso mas humano. Não é um problema de opinião pessoal, mas da Constituição Portuguesa, artigo 41, artigo 3º dos Direitos Humanos: o direito à vida é incondicional e não se pode travar precisamente a vida por circunstância nenhuma.

Temos de cultivar os cuidados paliativos porque, eu sei muito bem isso, são suficientemente eficazes para poder tirar completamente a dor, sofrimento não tira porque é espiritual.

 

AE – O facto de não haver investimento nos Cuidados Paliativos é uma questão de orçamento?

VFP – Julgo que se dá razão ao orçamento, mas penso que efetivamente, não sei se sou capaz de dizer uma coisa, é muito mais caro os cuidados paliativos do que a precipitação da morte. E os governos, às vezes, e os políticos às vezes, têm o problema económico e técnico muito mais à frente do que o problema humano.

O Papa diz isso num documento notável, «Laudato Si». O novo paradigma do mundo é o paradigma tecnológico, científico e económico, e sacrifica-se o paradigma fundamental que é da dignidade e liberdade humana. Não podemos tirar liberdade a ninguém, não podemos tirar dignidade a ninguém, não podemos tirar vida a ninguém porque não há dignidade nem liberdade sem a vida.

O problema da eutanásia é um problema de destruição de vida, não de destruição do sofrimento. Temos sim de destruir o sofrimento mantendo a vida. Destruir o sofrimento só com cuidados paliativos. São caros mas temos de fazê-los para garantir a vida de todos os cidadãos para todos terem a certeza de que no fim da sua vida não lhes vão provocar a sua morte por conveniência política, económica ou das famílias que sofrem.

As famílias podem sofrer mas não podem destruir a dignidade.

 

A fé, o sofrimento e a morte

AE – A sua fé nunca vacilou?

VFP – Não. Tenho dúvidas, de explicação de algumas coisas, mas aqui respondo como o Papa. Ele diz: «Eu também tenho dúvidas».

 

AE – Que dúvidas tem?

VFP – No campo da Teologia, justificar muitos princípios e valores. Mas tenho uma síntese extraordinária utilizada no Novo Testamento: quando esbarro com uma porta e a minha razão não consegue, penso: «A Deus nada é impossível». Esta palavra serena-me. Ofereço a Deus e digo-lhe «Cuida Tu das minhas dúvidas».

 

AE – O desconhecido não o amedronta?

VFP – Não, é normal. Vou entrar num avião e ele pode cair, mas não deixo de entrar.

 

AE – Confia em Deus para se abandonar nas suas mãos e não perder tempo a pensar no desconhecido?

VFP – Deus é amor. Nada mais. Não é um juiz, não é um carrasco, não é um castigador, nada disso. Deus é amor e ama-me. Deus fará tudo para que se eu for pecador, me converta. Para poder depois, estar com ele na glória. Mas tenho de fazer o meu caminho de fidelidade ao Senhor.

 

AE – É natural ter medo da morte?

VFP – Sim, é natural, mas quando lemos São Paulo, sobretudo, compreendemos precisamente que a vida não acaba, apenas se transforma. Desfeita a morada do exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna.

 

AE – E como é que essas palavras de tornam vida e não apenas palavras escritas?

VFT – Há uns tempos falei com uma jornalista e disse-lhe: a morte é apenas uma porta, do lado de cá está um limite da natureza, não é a bondade de Deus, não é um castigo de Deus, mas o limite. A morte é um limite da natureza. Do lado de lá está a ternura maravilhosa de Deus que nos acolhe.

 

AE – Como se vive isso no dia-a-dia?

VFP – Serenamente. As doenças são um limite da natureza, as ignorâncias, os desastres. São limites, assim como a morte. A natureza não nos permite a imortalidade. Temos de nos preparar para chegar a essa porta. Não sabemos quando a vamos encontrar no caminho percorrido. Mas eu sei que do lado de lá está a misericórdia de Deus.

São Paulo disse-nos isto de uma maneira espantosa: no capítulo 15 da sua primeira carta aos Coríntios: Há por ai Coríntios que dizem que não há ressurreição, mas se não há ressurreição Cristo não ressuscitou e a nossa fé é vã, a nossa vida é inútil, sem significado. Mas ele ressuscitou, e porque ressuscitou nós ressuscitamos com ele.

 

AE – Essa é a sua esperança?

VFP – Completamente e acrescento com muita verdade: quero merecê-lo, quero merecer que Deus me acolha.

Nós, padres rezamos uma oração fantástica, no breviário, do velho Simeão: Senhor, tu podes hoje levar o teu servo em paz, porque já vi a salvação de Israel. Em cada noite, quando adormecemos estamos nas mãos de Deus.

 

AE – Como é que encara o sofrimento? Em 2018 o padre Feytor Pinto passou por um período difícil…

VFP – O sofrimento faz parte da vida. O sofrimento, por vezes, tem vantagens, valores. O sofrimento permite-nos, pela esperança, o desafio da ultrapassagem. Cremos vencer o sofrimento, queremos ultrapassá-lo e fazemo-lo às vezes, com barbitúricos e terapias, mas por vezes o sofrimento não vai com terapias vai com o controlo da mente. E acredito que com o controlo do espírito conseguimos serenar no meio do sofrimento.

 

AE – É a sabedoria que permite chegar a esse estado?

VFP – Penso que é mais: é o confiar completamente em Deus que nos possuiu e que tudo o que é o mistério do nosso sofrimento nos permite unirmo-nos ao sofrimento de Jesus, e sermos coredentores com Jesus. Esta espiritualização do sofrimento alivia-nos. Permite-nos a paz e a serenidade. Julgo isso.

Eu tive, em outubro de 2018, uma septicemia e estive do outro lado. É curioso que quando me apercebi, me pus nas mãos de Deus. E julgo que não senti mais nada. Durante aquele tempo, em que estive meio adormecido ou em coma, não senti mais nada. Fiquei sereno. Sereno com todos os problemas que uma Unidade de Cuidados Intensivos contém.

 

AE – Sentiu-se no conforto de Deus?

VFP – Senti sim. Foi-me dada a Santa Unção e eu pensei: «Senhor, estou nas tuas mãos». É curioso que acordei três, quatro ou cinco dias depois e acordei em paz, acordei muito em paz.

 

AE – Mas renovado para viver o que ainda ai vem?

VFP – E a luta. Quando saí do hospital não podia deter-me de pé. Recuperei e fui para a Casa sacerdotal, onde estou agora num ambiente de carinho enorme, e esse ambiente também me recuperou.

 

AE – Como é que olha para essa experiência, hoje?

VFP – Normal. Qualquer pessoa pode ter este problema, é uma enfermidade.

 

AE – Pelo que passou, pelo que sentiu, pelas orações que lhe foram chegando…

VFP – Penso que Deus teve piedade de mim, ou melhor, Deus disse para os seus botões: «Ainda preciso de ti ai, portanto fica».

 

AE – Para fazer o quê?

VFP – Para fazer o que faço. O exercício do meu sacerdócio hoje é muito mais rico, depois desta experiência. Foi muito forte e violenta.

 

AE – À segunda-feira ainda descansa? Desaparece?

VFP – Sim, desapareço, sem dúvida.

 

AE – Como é que descansa?

VFP – Almoço fora, ouço música, passeio se me levarem de automóvel, junto ao mar.

 

AE – Tem praias preferidas?

VFP – Neste momento é entre Cascais e o Guincho. Essa zona retempera-me.

 

AE – O mar ajuda-o a descansar?

VFP – Muito. O mar é para mim a imagem de Deus. Joga-se no mar a experiência de Deus: a sua grandeza e beleza. Olhar para o mar, para a sua beleza, necessariamente compreendemos que Deus existe.

Da mesma forma como quando olhamos para uma criança. Uma criança revela-nos, indiscutivelmente o mistério de Deus, na sua perfeição. É fantástico. Como é que aquele pequenino resulta de dois cromossomas, de uma mórula que, nove meses depois, é uma perfeição de células espetacular. Como é que isto é possível? Quando olharmos para esta realidade, não podemos deixar de ter fé.

 

Os três pontos da homilia

AE – Ardor, paixão, novidade, sentido da Igreja ainda darão muitos frutos na vida do padre Feytor Pinto….

VFP – Tenho um amor profundo à Igreja. Esta comunidade cristã quando se entrelaça pelo amor entre todos é uma imagem bela. É o que diz São João no Evangelho, capítulo 17, versículo 20: «Que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste». A evangelização faz parte de uma Igreja una, de uma Igreja unida, cheia de comunhão, cheia de vida.

 

AE – Radica a sua vida na Bíblia, são vários os trechos que sabe de cor, naturalmente pelo trabalho que faz, mas é lá que radica a sua vida.

VFP – É o meu alimento. Tudo o que é Teologia tem de radicar na Sagrada Escritura. Sobretudo no Novo Testamento, mas também no Antigo.

 

AE – Como é que com 87 anos se chega ao ambão, no domingo, e com toda a vivacidade e alegria, se pede a renovação e o contágio, com alegria dos cristãos que celebram consigo?

VFP – É uma graça muito grande que Deus me dá. Eu preparo muito bem as homilias, praticamente a partir de quinta-feira, vejo o texto, tento cruzá-los, vejo qual o pensamento comum e, ao descrever a trama bíblica, nos três textos com a coordenada comum que é a temática que quero desenvolver, faço três pontos.

É curioso que há muita gente que toma notas dos três pontos. Vai alimentar a vida das pessoas. É engraçado. As pessoas terem gosto de ouvir alguma coisa que é útil para si, não é uma conversa.

 

AE – Tem muito a ver com a forma como é transmitido.

VFP – Sem dúvida. Eu gosto muito de comunicar e um comunicar prático.

 

AE – Quando, há pouco dizia, que o seu ministério se confirma, nestes últimos tempos pelo que passou a nível de saúde, relaciona-se com o que transmite no ambão e dá significado à vida das pessoas.

VFP – O ambão é a linha profética de um sacerdote. Um sacerdote tem de ter profetismo, não pode dar palavras. Para quem tem o dever de falar, de transmitir valores para outro que ouve se transformar, não dizer nada é um pecado.

 

AE – Como é que se explicam 43 anos numa paróquia?

VFP – Foi uma presença diversificada em três tempos.

Com o padre Armindo, no início, eu vinha apenas celebrar a eucaristia das 19h, em 1975. Inicialmente estavam sete pessoas, depois foi enchendo, enchendo, enchendo, foi preciso tirar uma parede da igreja e fazer um salão, depois mais três degraus e mais tarde, o salão que está hoje. E encheu sempre.

Quando fui nomeado pároco em 1997 a organização da paróquia deu-me muito gosto: gostei muito de desenvolver e a paróquia cresceu muito.

Em 2017 o Senhor Patriarca perguntou-me se eu queria que fosse nomeado um coadjutor ou se preferia sair e ser nomeado outro sacerdote? Eu acho que o ideal seria ter um sacerdote jovem, com quem eu colaboro. Esta é a terceira fase. Estes quase três anos têm sido uma fase com o padre Hugo Gonçalves, que é um sacerdote extraordinário, e que tem a liderança da paróquia e eu obedeço ao que ele me pede. Ele consulta-me no que entende. Este intercâmbio é maravilhoso e também rejuvenesce o meu coração de padre.

 

AE – 43 anos explicam-se pelas relações que se criam, pela afetividade e pelo crescer junto?

VFP – Para meu crescimento, meu profundo crescimento. Antes tinha cargos oficiais, cargos na Igreja, mas não tinha a obrigação da eucaristia pontual, ia celebrando em diferentes locais e eu precisava de uma comunidade.

Quando tive oportunidade de me ser dada uma comunidade, para que o meu sacerdócio rendesse mais, consegui fazê-lo.

 

AE – Quando lhe perguntam por locais que lhe sejam caros é o Campo Grande que elege.

VFP – Estou a viver na casa sacerdotal, saio de lá para aqui, e ao final do dia regresso à casa para jantar. E é uma vida toda aqui, praticamente.

 

AE – Continua a movê-lo a felicidade das pessoas?

VFP – Quero que as pessoas sejam felizes. Pesar-me-ia que pudesse perturbar a vida de alguém. Quero ajudar as pessoas a ser felizes.

 

AE – E as pessoas ajudam-no ser feliz?

VFP – Eu julgo que é recíproco. Sou inspirado por um grande autor, que não é católico nem crente, Erich Fromm, autor do livro «A Arte de Amar». Ele define o amor como a arte de me esquecer de mim para ir ao encontro do outro e o fazer feliz. Esta visão está muito no meu coração.

 

AE – Tem projetos, escritos que gostaria de tornar público?

VFP – Estou a escrever mensalmente na revista «Família Cristã», escrevo também no jornal da paróquia. Ocasionalmente pedem-me algum escrito mais.

Os meus olhos já não me permitem ler, mas o secretariado da paróquia ajuda-me. Agora eu escrevo, falando. Uma das secretárias escreve o que eu digo. Fica muito bem e eu admiro muito as pessoas do secretariado, porque ainda vão à minha frente, e conseguem reproduzir o que eu já não consigo escrever.

 

AE – É mais uma forma de carinho?

VFP – É muito bonito.

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