A pessoa é a sua história e as suas circunstâncias – É desta forma que Maria Luísa Boléo lê tudo o que se foi passando na sua vida. Hoje, aos 81 anos, continua ligada à catequese e à formação de catequistas, uma ligação que começou cedo na sua vida, sem planos, sem «trombetas» mas com pequenos sinais. Foi catequista da irmã – a pedido da sua mãe na véspera de falecer – estudou Teologia, em Toulouse com os padres dominicanos – um deles conciliar, esteve em Angola a dar formação para catequistas em missões e entre contextos desconhecidos. Foi ali, nos anos 70, que conheceu muitas histórias dramáticas, de «órfãos de guerra», «filhos da guerra» e quando regressou a Portugal, trouxe a sua primeira filha, a Margarida. A ela se juntaram ainda o Nuno e o Paulo, os seus três filhos que iluminam o seu olhar e a levam, com um brilho nos olhos, a esperar o dia de amanhã.

«Ser catequista é uma missão na Igreja que nos enriquece de forma extraordinária. Obriga-nos a preparar semanalmente o que vamos fazer. É difícil encontrar outra missão na Igreja que conduz a esta preparação semanal obrigatória de reflexão sobre aspetos doutrinais, de meditação, de descoberta de novas realidades no tesouro inesgotável da Palavra de Deus. Isso é um enriquecimento permanente para o catequista»

«Quando a minha mãe faleceu – infelizmente muito cedo, a minha irmã mais nova tinha três anos e meio e a minha mãe já lhe tinha começado a fazer o despertar religioso, pediu-me – esteve acamada 10 dias antes de morrer – para continuar eu essa preparação. Eu levei a sério, comecei imediatamente a fazê-lo. Fui recuperar os livros que a minha mãe tinha usado connosco e quando considerei que estava preparada – cerca de dois meses depois dela fazer seis anos – fez a primeira comunhão e foi crismada»


«Não pode ser só uma rotina que se herdou. Tem de haver um momento na vida da pessoa, ou se calhar vários, em que a pessoa assume de facto como sua aquela fé que foi vivendo desde criança. A mim aconteceu-me com 29 anos, em que pus tudo em causa, o que tinha vivido até aí e questionei se o que estava a viver era uma ilusão. E vivi a alegria de perceber que não é uma ilusão, que é uma realidade profunda, que está metida na nossa vida e que sem ela, não se pode viver»

«Houve um apelo porque vi muitas crianças órfãs de guerra, vi muitas crianças filhas da guerra, filhas de soldados portugueses com mulheres locais. Houve qualquer coisa em mim que se moveu nessa altura. Fui lutando contra isso, porque achava um disparate tomar uma decisão precipitada. Mas algo falou mais forte. Os caminhos são muito diferentes dos caminhos que imaginamos. Quando adotei a minha filha – e chamo adotar ao dia em que a levei para casa, é esse o dia que festejamos – 25 de fevereiro, porque, na realidade, os aniversários de nascimento são quase todos hipotéticos – não se podem garantir».
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