Entrevista ao teólogo, filósofo e sociólogo checo sobre a busca de Deus e os perigos do populismo

Os meus leitores e ouvintes têm o direito de conhecer não só o contexto exterior, mas também o contexto interior da minha criação, não só o contexto da época e do meio social e cultural, mas também o contexto da minha história de vida, do meu drama da procura e do amadurecimento espiritual. Se quiserem, encontrarão aqui a chave para uma compreensão mais profunda daquilo que lhes tento comunicar nos meus livros e nas minhas palestras”

É com esta explicação que o padre checo Tomás Halík justifica a publicação do livro ‘Diante de ti os meus caminhos’ (Paulinas Editora). O teólogo, filósofo e sociólogo foi professor catedrático da Faculdade de Letras na Universidade Carolina de Praga, donde foi banido durante o período comunista.

Na sequência da queda do regime comunista, em 1989, prestou serviço como conselheiro do presidente checo Václav Havel, assumindo também o cargo de secretário-geral da Conferência Episcopal Checa. O Papa João Paulo II nomeou-o, em 1992, para integrar a estrutura do Conselho Pontifício para o Diálogo com os Não-Crentes e em 2014, recebeu o Prémio Templeton por contribuições excecionais ao desenvolvimento da dimensão espiritual da vida.

Entrevista conduzida por Octávio Carmo

 Agência ECCLESIA (AE) – Já conhecíamos o pensamento de Tomás Halík, mas agora vemos o seu percurso de vida, desde a ditadura aos dias de hoje, numa espécie de releitura das ‘Confissões’ de Santo Agostinho. Qual é o objetivo de partilhar vivências tão pessoais e tão íntimas?

Tomás Halík (TH) – Eu penso que as ‘Memórias’ devem ser escritas enquanto a memória ainda funciona (risos). Foram inspiradas, como disse, por Santo Agostinho, que combinava as suas histórias de vida com a Teologia. Quero oferecer um contexto, que é também o contexto da minha história de vida, da história da Igreja no meu país. Mais do que as minhas ‘memórias’ são um testemunho, sobre um percurso espiritual, os meus encontros com pessoas como João Paulo II, o Dalai Lama, Václav Havel e outros.

É mais sobre o caminho espiritual, com crises e problemas, sobre a história da Igreja e da sociedade, no meu país. Quero partilhar estas experiências com outras pessoas.

 

AE – O livro fala em muitas memórias dolorosas, momentos de tensão, perseguição. Como é que foi possível manter a esperança em tempos melhores?

TH – Eu julgo que o otimismo é a ilusão de que as coisas melhoram automaticamente, mas a esperança é a base para nos mantermos de pé em todas as situações, quando tudo parece estar a desmoronar-se. Eu sou um homem de esperança.

 

AE – Neste olhar sobre o século XX, na antiga Checoslováquia, podemos ver a força da espiritualidade para mudar a sociedade, algo que, talvez, não seja tão facilmente entendido nos dias de hoje…

TH – Penso que o nosso tempo é um tempo em que as pessoas procuram por uma profundidade espiritual. Mesmo quem não se sente tão atraído pela liturgia, pelo lado institucional da Igreja, tem muitas vezes uma sensibilidade para os valores espirituais.

A espiritualidade, claro está, não deve ser ume escape dos problemas da nossa vida e das questões morais, etc. É importante ligar a espiritualidade à ação, com a prática, especialmente no nosso tempo, em que a tecnologia é tão poderosa. Martin Heidegger disse que a tecnologia, a técnica, ultrapassa todas as distâncias, mas não cria qualquer proximidade.

As pessoas procuram pela proximidade, com outras pessoas, por uma dimensão de intimidade e também de espiritualidade. Mesmo as pessoas que não estão tão atraídas pela Igreja, como instituição, têm uma sensibilidade para o espiritual. A fé sem esta dimensão espiritual é apenas superficial.

Considero muito importante, também, o diálogo inter-religioso, com foco na espiritualidade, como antídoto para o fundamentalismo. Podemos entender-nos uns aos outros no plano espiritual: mesmo onde os ensinamentos religiosos são diferentes, há algo de similar, na experiência espiritual.

 

AE – Depois de tudo o que viveu no século XX, sente-se preocupado com o aumento de propostas políticas, na Europa, de cariz populista?

TH – Sim, claro. Sempre houve demagogos, mas agora o populismo é uma doença infeciosa. Todos temos células doentes no corpo, mas se o sistema imunitário funcionar adequadamente, não é muito perigoso; quando o sistema imunitário está fraco, então pode derivar em cancro ou algo do género.

Há sempre pessoas frustradas, zangadas, mas se o sistema imunitário da sociedade não funcionar como deve ser, isso é muito perigoso. Esse sistema imunitário é a Igreja, a Universidade, os responsáveis públicos, principalmente a família.

Há políticos que se aproveitam de sentimentos de ansiedade, de confusão, da população. O populismo, chauvinismo, nacionalismo, xenofobia, são muito, muito perigosos e temos de desenvolver uma biosfera moral para a democracia. Não bastam as instituições políticas, o Parlamento, os partidos, que são como os órgãos no corpo, mas também precisamos da circulação sanguínea, que é a sociedade civil.

A democracia é uma cultura específica de relação entre as pessoas. Aristóteles dizia que a democracia é a amizade entre as pessoas e temos de desenvolver isto.

Penso que a situação atual é muito perigosa e as razões para esta crise não são apenas económicas, são mais do plano espiritual, moral, da falta de identidade. As pessoas estão a utilizar erradamente a religião, para apoiar identidades de grupo, étnicas. O mau uso da religião pelos populistas é perigosa.

 

AE – Há no seu trabalho este grande foco na busca de Deus. Muitas vezes ouve-se a pergunta sobre onde é que Deus se “esconde”, mas talvez a pergunta certa para muitos seja descobrir onde é que Deus “mora”…

TH – Para todos os que têm uma fé viva, não apenas ideológica, também há momentos de crise, de escuridão. Jesus Cristo partilha com os discípulos não apenas a luz do Monte Tabor, mas também a escuridão do Getsémani. É uma enorme parte do caminho espiritual, a “noite escura” da alma, de que falam os místicos.

É um tempo de purificação da nossa fé. Às vezes temos de afastar algumas ilusões religiosas, mas o que fica é uma fé despida, que é mais profunda, mais madura.

 

AE – No livro relata uma experiência em que correu perigo de vida, no mar gelado da Antártida, falando num momento em que mais do que desistir, se entregou a Deus, para encontrar paz no meio de toda a tensão vivida. Foi um momento que o mudou?

TH – Sim. Eu não tinha permissão para viajar fora dos territórios comunistas, durante 20 anos, pelo que depois da queda do Comunismo tive a oportunidade de ir a muitos sítios. Ofereceram-me a possibilidade de tomar parte num projeto da Antártida, durante um mês, que eu aceitei, porque era o único continente que não tinha visitado.

Era uma experiência de sobrevivência em condições muito dramáticas, exigentes do ponto de vista físico e psicológico. O homem que me convidou [Jaroslav Pavlicek] defende que as pessoas com uma dimensão espiritual são mais resistentes neste tipo de condições.

Foi muito interessante, porque ali a natureza é como era há 20 milhões de anos. Neste continente, nunca um homem matou outro homem. Quando estamos sem qualquer aparelho, tecnologia, algo acontece…

Um dia, tive uma experiência muito dramática no Oceano, de quase morte, e este confronto com o perigo, a morte, faz com que algo aconteça na alma humana. Procuro falar sobre isso, sobre como nesse momento de stress, de perigo, alguma coisa acontece nas profundidades do coração, da mente, desta experiência espiritual.

 

AE – É uma camada mais profunda do próprio ser? É uma proposta que a fé católica pode fazer à cultura contemporânea?

TH – Diria que algo mais vasto do que a fé católica, é algo existencial, que pertence à substância do ser humano. Penso que cada pessoa tem uma dimensão espiritual, que talvez não esteja tão desenvolvida e que podemos ajudar a desenvolver.

Especialmente nos momentos mais dramáticos da vida, esta dimensão da personalidade está mais aberta. É por esta razão que tenho tanto apreço pelo serviço dos capelães: nas Forças Armadas, nos Hospitais, nas Prisões, mesmo nas Universidades, que são um período de transição.

Esta é uma inspiração para o futuro da Igreja Católica, porque no futuro não devemos estar apenas ativos nas paróquias, nas missões, temos de acompanhar as pessoas, especialmente nestes momentos. Os capelães estão lá para toda a gente e penso que este é o futuro da Igreja, estar lá para todos, para todas as pessoas. Todos têm uma dimensão espiritual e devemos evitar “empurrar” essas pessoas para as estruturas que já existem na Igreja, institucionais ou mentais, mas abrir e alargar essas estruturas, para que receber a experiência das outras pessoas.

 

AE – Escreveu que “o NADA ao qual nos dirigimos na morte é apenas outro nome maravilhoso de Deus”. Isto é compreensível para alguém que não seja crente?

TH – É preciso conhecer o misticismo cristão, é praticamente uma citação do Mestre Eckhart: Deus não é nada no mundo, que é o mundo das coisas, dos objetos. Deus não é um objeto entre outros objetos, no nosso mundo. Eckhart vai ainda mais longe e diz: não temos de usar nada para nos confrontarmos com Deus, para nos encontrarmos com Ele sem vestes.

É um esforço para nos libertarmos das várias dependências: dinheiro, carreira, sexo. São todas coisas importantes, mas não são o Absoluto. Temos de cultivar a nossa liberdade interior, isto é, ser nada. Esta é forma como os místicos falam de Deus e penso que é uma grande inspiração.

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