Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Por todo o mundo sente-se que o Papa elevou a consciência ambiental ao criar nas redes sociais um hashtag #TempoDaCriação em múltiplas línguas. Será que resulta?

Quando ponderava sobre o tempo que se iniciou a 1 de setembro com a oração mundial pelo cuidado da criação (que me parece ser mais transformativo se considerássemos o cuidado pela relação com a criação), pensei não tanto no tempo, mas no que queremos dizer com criação. Na prática celebramos o quê? A natureza, as pessoas, o universo, o espaço ou até o próprio tempo? Criação é, simplesmente, tudo, certo?

É claro que estou ciente de que a palavra criação é entendida pela maior parte das pessoas como ambiente, mas pensem mais longe. Deus criou-te. Deus criou-me. Deus criou a pessoa que está ao teu lado neste momento. Se cremos que tudo é, realmente, criação de Deus, celebrar o tempo da criação seria celebrar o tempo de ti mesmo, de mim, da pessoa que está ao teu lado e, também (claro!), do ambiente natural. Honestamente, o #TempoDaCriação sabe-me a pouco.

Sei que a minha é apenas uma opinião, mas se me permitem, parece-me que uma modificação atómica, ou seja, muito, muito pequena traria um algo mais com um nível de profundidade maior. Não estou nas redes sociais, mas o meu hashtag seria #TempoDeDeusNaCriação. Assim, este mês celebraríamos o tempo de Deus em ti, o tempo de Deus entre nós, o tempo de Deus na natureza, o tempo de Deus no espaço e até o tempo de Deus no tempo! Partilho o que poderia ser o tempo de Deus em ti, entre nós e na natureza.

 

Tempo de Deus em ti

O tempo de Deus em ti vive-se a partir do teu interior, chegar à consciência plena do que somos, fazemos, pensamos e qual o grau de profundidade do nosso relacionamento com Deus. Através da oração, da doação de nós mesmos, da leitura medidativa ou formativa, no encontro com a nossa interioridade, podemos criar a oportunidade de um encontro único com Deus.

O desafio está na necessidade humana de algo tangível.

Deus em ti manifesta-se através da criatividade. Criatividade nos gestos simples, nas palavras ou voluntariado. Sinais tangíveis que surgem nos momentos de pausa, de silêncio, isto é, de encontro com Deus dentro de nós.

 

Tempo de Deus entre nós

O tempo de Deus entre nós vive-se nos relacionamentos de amor que aprofundamos com os outros. E o maior modo de aprofundar esses relacionamentos é… amar.

Quando amamos os outros, a partir da experiência de Deus em nós, não o fazemos tanto pelos outros em si quanto por Jesus que reconhecemos nos outros.

“Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.” (Mt 25, 35-36;40)”

Curiosamente, a unidade que experimentamos nesse relacionamento de amor fraterno, por vezes, é tão tangível que nos parece impossível. Esse é o momento, o sinal da presença viva de Deus entre nós.

 

Tempo de Deus na natureza

Sabemos que a natureza afecta o nosso modo de estar e viver. Numa vida acelerada e stressada, o contacto com o mundo natural é um verdadeiro bálsamo que nos cura. Mas mais.

Não é a natureza em si que nos transforma, mas sim a experiência da presença de Deus na natureza que nos liberta, gradualmente, das preocupações e nos conduz a uma paz interior com profundas e visíveis implicações nos actos exteriores.

Dar tempo para estar imerso no mundo natural serve para nos apercebermos de que um dia seremos nós alimento para o mundo natural. Daí a importância da Eucaristia, pois, se durante a vida somos cristificados e, por isso, Jesus em nós transforma-nos n’Ele, depois de morrermos, não fará Jesus de nós Eucaristia para a natureza?

Tempo da Criação, sim, mas Tempo de Deus na Criação talvez nos ajude a perceber que é Ele o ponto de partida ousado para uma vida ecológica integral, para uma vida que testemunhe ao mundo uma ecologia de comunhão que nos mergulha em Deus.

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