Mensagem Pastoral de D. António Carrilho, Bispo do Funchal, na comemoração dos 50 anos do Seminário Maior de Nossa Senhora de Fátima A Diocese do Funchal começa hoje, dia 13 de Maio, a comemorar os 50 anos do Seminário Maior de Nossa Senhora de Fátima. É uma ocasião propícia para lançar um olhar de gratidão, fazer memória e apontar caminhos novos sobre esta realidade que, em cada geração, renova o presbitério e toda a vida eclesial. O Seminário é lugar de experiência de fé e aprendizagem do muito que Deus quer ensinar àqueles que se preparam para Sacerdotes do Seu Povo. O Seminário é necessário e querido por Deus, hoje, porque Deus ama e tem um projecto de Salvação para a Humanidade. No Seminário encontramos a principal estrutura pastoral e centro de irradiação do chamamento de Deus para os jovens de toda a Diocese; nele cresce o futuro da nossa Igreja Diocesana. O Seminário é de tal modo importante que o Concílio Vaticano II, no seu Decreto sobre a Formação Sacerdotal, lhe chama “coração da Diocese” e o Directório para o Ministério Pastoral dos Bispos o apresenta como a “primeira” instituição da Diocese, que deve ser “objecto dos mais intensos e assíduos cuidados (…), porque dos Seminários dependem em grande parte a continuidade e a fecundidade do ministério sacerdotal da Igreja” (n. 84). Contexto histórico O Seminário da Diocese do Funchal foi criado por Carta Régia de 20 de Setembro de 1566, em obediência às determinações do Concílio de Trento. As suas primeiras instalações foram em casas contíguas à residência episcopal, nas imediações da actual ponte do Torreão. E foram variando ao longo dos tempos. Em 1909, D. Manuel Agostinho Barreto concluiu a primeira parte das instalações do Seminário na cerca do antigo Convento da Encarnação. Com a extinção dos Seminários, em 1911, o Seminário do Funchal voltou a uma vida nómada e, só em Outubro de 1933, pôde voltar a funcionar no edifício da Encarnação. Para responder às necessidades dos novos tempos, D. David de Sousa adquiriu o antigo Hotel Bela Vista, onde passou a funcionar, em 1958, o Seminário Maior, confiado à protecção de Nossa Senhora de Fátima. O Seminário Menor, confiado à protecção da Nossa Senhora da Encarnação, continuou no edifício da Encarnação até 1974, data em que foi ocupado pela Revolução de 25 Abril. A partir de 1969, os alunos do Curso Teológico começaram a frequentar a Universidade Católica, em Lisboa. Passaram, entretanto, por Braga e Porto, voltando à capital, para se fixarem nos Seminários do Patriarcado, desde 1987. Assim, na Rua do Jasmineiro passaram a residir os alunos dos últimos anos do então curso liceal, com todos os alunos do Seminário Menor a partir de 1974. O que é o Seminário «Subiu ao monte, chamou para junto de Si aqueles que entendeu e eles foram ter com Ele. Estabeleceu doze que estivessem com Ele e também para os enviar» (Mc 3, 13) ˗ Nestas palavras do Evangelho de São Marcos podemos vislumbrar tudo o que viria a ser o Seminário, como iniciativa de Deus. Depois de chamar os Apóstolos e antes de os enviar, ou mesmo para poder enviá-los a pregar, Jesus fez com eles um caminho e um tempo de formação, destinado a desenvolver uma relação de amizade e de grande intimidade com Ele e de uns com os outros. Podemos dizer que o Seminário é este tempo e este caminho, destinados à formação e ao discernimento, onde cada seminarista procura saborear a beleza do chamamento e responder à sua grande interrogação: “Senhor, porquê eu”? ˗ O amor de Deus é dom gratuito ao qual cada um responderá com o dom de si mesmo! O Seminário é iniciativa de Deus por meio da Igreja, é lugar de encontro e diálogo de Jesus Cristo com aqueles que Ele chama para estarem com Ele e aprenderem a ser ponte, para que outros O possam encontrar e seguir. No Seminário se concretiza, como no caminho de Emaús, um ensino profundo do projecto de Deus. Nele acontecem os desafios e apelos de Jesus: «Não tenhas receio, de futuro serás pescador de homens» (Lc 5,10), «Vinde e Vede» (Jo 1, 39) e «Segue-Me» (Lc 9, 59); nele o Senhor segreda os Seus sentimentos de Bom Pastor: «Tenho pena desta multidão» (Mc 8, 2). O Seminário não é só um tempo, é também o espaço, o edifício, onde, ao longo de gerações, se formaram os padres da Diocese e tantos outros jovens que, não tendo sido sacerdotes, estão hoje inseridos e comprometidos em projectos de relevante importância na nossa sociedade. Como tempo intenso de formação e de estudo o Seminário tem um projecto educativo de formação integral: humana, espiritual, doutrinal, pastoral e missionária, para que os seminaristas cresçam como homens e como cristãos, olhando para Jesus, o Bom Pastor, que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida pela redenção de muitos» (Mc 10,45; cf. Jo 13, 12-17). A comunidade do Seminário tem uma Equipa Formadora com a missão de acompanhar e ajudar a discernir a vocação daqueles que se sentem chamados ao Sacerdócio. Sobre a equipa incumbe uma especial responsabilidade na formação e na iniciação dos futuros presbíteros relativamente às ciências humanas e teológicas, à espiritualidade e à pedagogia pastoral. O papel dos formadores é decisivo: a qualidade do presbitério, numa Diocese, depende, em boa parte, da formação dada no Seminário. A formação para a missão O objectivo mais profundo da formação é ajudar aqueles que respondem com generosidade ao chamamento do Senhor a conhecerem intimamente Deus que, em Jesus Cristo, nos mostrou o Seu rosto e dar-lhes um coração de Pastor. O Seminário deve ser uma escola de Apóstolos. É necessário, para isso, um cuidadoso estudo da Sagrada Escritura, das verdades da fé e da vida da Igreja, bem como dos questionamentos da razão no contexto da vida humana e social de hoje. É igualmente importante aprender a viver as virtudes evangélicas mais necessárias ao sacerdote, como a verdade, a justiça, a responsabilidade, a generosidade e a alegria. Tudo deverá concorrer para o desenvolvimento de uma personalidade coerente e equilibrada de cada jovem, tornando-o apto a assumir e realizar a missão que a Igreja lhe confiar. O tempo do Seminário é sempre um período muito intenso e marcante da vida de cada sacerdote. Os nossos Seminaristas Na senda do último Concílio e do Sínodo dos Bispos de 1985 e de 1990, o Seminário tem no seu horizonte o mistério de comunhão que a Igreja é, assemelhando-se, hoje, cada vez mais, a uma família, a uma comunidade viva de jovens que procuram seguir e responder ao chamamento do Senhor. Cada um deles é um verdadeiro dom de Deus para a Igreja. Actualmente, no Seminário Maior de Nossa Senhora de Fátima, no Funchal, vivem 12 seminaristas: 4 no 2º ano de Teologia; 1 no 1º ano de Teologia; 1 no 12º ano de escolaridade; 3 no 11º ano de escolaridade; 3 no 10º ano de escolaridade. São alunos da Escola da APEL (Associação Promotora do Ensino Livre) desde o 10º ao 12º ano. O Seminário encarrega-se das aulas do 1º e 2º anos de Teologia, que decorrem no edifício do Colégio dos Jesuítas, abertas a outros alunos. Por sua vez, no Seminário Maior de Cristo Rei (Olivais), em Lisboa, estão 10 seminaristas que estudam na Universidade Católica: 3 no 6º ano de Teologia; 3 no 5º ano de Teologia; 1 no 4º ano de Teologia; 3 no 3º ano de Teologia. Pastoral Vocacional e Pré-Seminário O Seminário não pode fechar-se em si mesmo: ele deverá ser irradiação do chamamento de Deus por toda a Diocese. Desloca-se, por isso, e vai ao encontro das comunidades paroquiais e das famílias, levando-as, através da “pastoral vocacional”, a interrogarem-se sobre a vocação sacerdotal dos seus membros. Aos jovens que se predispõem a procurar descobrir a sua resposta pessoal, o Seminário propõe uma caminhada em “Pré-Seminário”. O trabalho do Pré-Seminário consiste num acompanhamento vocacional em grupo, onde os jovens a partir do 7º ano escolaridade fazem um caminho de encontro com outros jovens que sentem o mesmo chamamento do Senhor. Tem como principais objectivos o despertar, desenvolver e discernir a vocação dos jovens e de os acompanhar, numa caminhada comunitária e também pessoal, de modo que possam fazer a sua opção vocacional na fidelidade a Jesus e à Sua Igreja. O Pré-Seminário integra-se no Seminário Diocesano como seu prolongamento na área da promoção vocacional, dando a possibilidade a cada jovem de ser auxiliado na descoberta e no discernimento da vocação no seio da sua própria família, da sua paróquia, escola e grupo de amigos. Nesta promoção vocacional todos estamos implicados e nos devemos sentir responsáveis, porque toda a pastoral é ela mesma vocacional. Só numa Igreja com comunidades cristãs vivas crescem as vocações e é possível ir mais longe, fazendo-se ao largo na descoberta dos desafios colocados pelos homens de hoje. Consagração a Maria-Mãe Nossa Senhora de Fátima é a Padroeira do nosso Seminário Maior. Como escreveu D. David de Sousa, há cinquenta anos, “o Seminário é dedicado a Nossa Senhora de Fátima, a fim de que Ela, a Senhora de Fátima confie ao cuidado e ao zelo filial dos seminaristas a mensagem evangélica de Jesus e a mensagem de oração e de penitência por Ela mesma entregue aos homens na Cova da Iria. Como no Cenáculo para os Apóstolos, seja Ela no Seminário […] para os Seminaristas: luz, calor, força, coragem, amparo, confiança, conforto, certeza, intrepidez”. (Carta Pastoral sobre os Seminários, 29 de Junho de 1958). Renovamos, hoje, a consagração do nosso Seminário Diocesano a Maria-Mãe, a Virgem Nossa Senhora de Fátima. A ela confiamos os nossos Seminaristas e todo o esforço de pastoral vocacional e formação no Pré-Seminário, que está a ser desenvolvido, com muita fé e empenho; a ela confiamos a Equipa Formadora, a Comunidade das Irmãs Vitorianas e todas as pessoas que, de algum modo, se interessam pelo Seminário e o servem com dedicação; a ela confiamos, também, os nossos Sacerdotes, os membros dos Institutos de Vida Consagrada, as famílias cristãs, os catequistas, os professores de Educação Moral e todos os fiéis leigos, que habitualmente rezam e se interessam pelo Seminário; a Maria-Mãe confiamos, em especial, as crianças e os jovens da nossa Diocese, para que os ajude a encontrarem Jesus e O seguirem pelos caminhos da vida, para onde quer que Ele os chame. Maria de Nazaré disse um dia o seu SIM, um sim total e incondicional, que a tornou modelo de discípula e de mulher crente, na entrega dócil à vontade de Deus. Que ela segrede aos nossos corações o Seu “fiat” (“faça-se em mim segundo a Tua Palavra”) e nos dê a graça necessária, para que o nosso Sim seja quotidiano e generoso. Por isso rezamos: “Virgem Nossa Senhora de Fátima, à vossa protecção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus! Velai por nós e ensinai-nos os caminhos da fidelidade e da paz, na resposta aos apelos de Deus para o serviço do Reino, instaurado pelo Vosso Filho Jesus. Amén!” Funchal, 13 de Maio de 2008 † António José Cavaco Carrilho Bispo do Funchal

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