Sinais de fogo que indicavam perigo dos piratas são hoje tradição que as novas gerações reconhecem como herança familiar

Funchal, Madeira, 28 jul 2020 (Ecclesia) – A tradição da Festa dos Fachos, com início no século XVIII, são hoje um orgulho que passou entre gerações familiares e há pouco mais de século se uniu à religiosidade da população do Machico, na ilha da Madeira.

O cónego Manuel Martins, pároco local, explica que há dois ou três séculos, quando a ilha da Madeira estava exposta aos “piratas e corsários” era necessário “avisar a população para que encontrasse forma de estar alerta e rumar à montanha para se proteger”.

“No início eram fogueiras, com pedaços de madeira, feitas em pontos altos da ilha, para avisar a população que se avistavam piratas que chegavam à ilha e roubavam ouro e prata, saqueavam as igrejas, violavam as mulheres. Começou por ser uma sinalética de defesa”, recorda à Agência ECCLESIA.

Uma tradição iniciada por militares, “que na altura não tinham rádio ou outras formas de comunicação”, foi depois abandonada quando a evolução tecnológica, mas o povo não abandonou esta tradição.

“Em 1903, na sua simplicidade, o povo considerou que se estas fogueiras serviram para se defenderem, poderiam ser também usadas como manifestação de fé para agradecer a Deus a proteção, ao longo dos tempos, contra as catástrofes e intempéries, e ligaram esta tradição às festas do Santíssimo Sacramento, que na diocese é celebrada no último domingo do mês de agosto”, conta o sacerdote, natural do Machico, pároco na matriz há cerca de 11 anos.

Das pequenas fogueiras, passaram a fazer-se desenhos de fogo, e começaram a surgir desenhos relacionados com a Eucaristia, mas também peixes, barcos, “numa alusão à Barca de Pedro” e à tradição na localidade piscatória.

No último fim-de-semana de agosto, as encostas de Machico enchem-se de estruturas “muito grandes, com 10 metros de altura, feitas em madeira, hoje em ferro, de bolas de algodão, chamado de desperdício, embebido em óleo queimado, vindo das oficinas, que é segurado às estruturas e com varas compridas são acesas à noite”.

A Eucaristia é celebrada pelas 20h00 e a igreja dá depois sinal: inicialmente eram os sinos que repicavam, hoje é o rebentar dos foguetes que dão o aviso para se acenderem os fachos.

“Ficam os desenhos a brilhar na escuridão da noite montanhas acima”, explica o cónego Manuel Martins, num momento de comunhão de toda a comunidade.

A paróquia é responsável pela oferta do material que as diferentes equipas necessitam para fazer os , mas o cónego Manuel Martins denota dificuldade crescente na aquisição do material: três mil quilos de desperdício, mais cerca de 10 a 14 de bidões de 200 litros de óleo queimado, para além do arame da vedação, alicates, pregos, luvas, entre outro material necessário.

“A Empresa de Eletricidade da Madeira deixou de nos fornecer o material; agora a paróquia adquire o material numa empresa do continente. Temos conseguido encontrar o óleo queimado em pequenas oficinas, particulares, porque as grandes têm legislação para respeitar”, indica o responsável.

Na última década, por causa do perigo dos incêndios, há uma estreita colaboração com os bombeiros, que “15 dias antes das queimas, passam pelos locais com as equipas, são feitas queimadas controladas nos terrenos circundantes das estruturas, para prevenir”.

A festa dos Fachos é uma tradição com séculos de história que foi passando entre gerações familiares.

“As equipas são aguerridas: escondem os desenhos que vão fazer, há uma rivalidade saudável que leva ao aperfeiçoamento todos os anos. É um trabalho sujo e pesado, mas feito com muito entusiasmo”, indica o pároco.

LS

 

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