Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Um dia fiquei surpreendido por ver – ainda – muitas pessoas à saída da missa que a primeira coisa que fazem é voltar-se para o ecrã, em vez de se voltarem para ver quem está à sua volta. A Igreja procura entrar no mundo digital para evangelizar os jovens e todas as pessoas. Entra nas redes sociais e outros meios digitais com esse fim, mas será possível usá-los para entrar no coração das pessoas e dar-lhes o essencial? Isto é, Deus?

A internet começou como um modo de nos ligarmos cada vez mais e melhor. Mas com a capacidade de a ter, literalmente, na mão através de um smartphone, o modelo da conexão transforma-se no modelo da atenção. No novo modelo, a experiência deixa de ser o acesso à informação, partilha de conhecimento, ideias e outros conteúdos, para se tornar numa batalha entre poucas empresas que competem pelo nosso tempo e atenção. Assim, o que existe hoje é o resultado de engenharia, design e psicologia comportamental que desvirtuou a internet daquilo que Tim Berners-Lee pensou quando criou a world wide web – www-, isto é, o enriquecimento recíproco de experiências e não o domínio da nossa atenção para aceder aos nossos dados pessoais, comportamentos e fazer milhares de milhões de dólares por ano à custa disso. Qual o modelo que a Igreja pretende usar quando investe nas redes sociais? Será o mesmo modelo da atenção para alterar (manipular?) o comportamento das pessoas? Não creio.

Se o desígnio original das redes sociais foi o de conectar as pessoas, a evangelização através das mesmas pretende seguir o modelo da conexão. Mas aqui está o dilema. Como pode conectar pessoas através de apps que estão desenhadas para captar a sua atenção, tempo e dados comportamentais?

 

No princípio não era assim

Quando surgiram, as redes sociais serviam para partilharmos momentos e acompanhar amigos e familiares que há muito não víamos. Havia uma aproximação digital entre as pessoas que, em última análise, levava à aproximação real. Mas a partir do momento em que empresas como o Facebook, Twitter e outras, passaram de captar utilizadores para rentabilizar os dados e informação comportamental que recolhem deles, gratuitamente, tudo mudou.

A introdução de “Likes” foi o resultado de uma manobra psicológica para captar a nossa atenção. Já não é tanto o contacto, ou conectar com os outros, o principal motivador do tempo que passamos nas redes sociais, mas a reacção ao que publicamos. Um estudo; realizado com 300 adultos pretendia perceber a relação entre os “Likes” do Facebook, a auto-estima e o sentido para a vida. Aqueles que indicaram ter um sentido para a vida não mostraram qualquer relação entre a auto-estima e os “Likes,” mas os que não tinham sentido para a vida, quantos mais “Likes” recebiam, mais auto-estima tinham. E esta correlação foi evidente nos adultos, mais ainda nos jovens.

Diante deste cenário, como pode a Igreja apostar nas redes sociais para evangelizar? Será que devia abandonar as redes sociais e focar a sua atenção no estímulo dos relacionamentos pessoais com uma cultura do encontro? Creio que sim a esta última parte, mas não é necessário sair das redes sociais. Em si mesmas, as redes sociais não são um mal desde que saibamos como as utilizar para trazerem valor à nossa vida.

 

Discernir pelo que traz valor

Por exemplo, iniciativas como o iMissio;, apesar de terem a sua própria plataforma .net, vejo que a sua presença; nas redes sociais traz valor a muitas pessoas que sentem-se inspiradas a redescobrir e renovar o seu relacionamento com Deus, ou a pensar o mundo de um modo diferente, ou a agir com mais humanidade com os outros.

No meu caso, recorria às redes sociais para divulgar o que escrevia, mas dei-me conta de que estava a alterar os meus padrões de consumo, bem como o tempo que passava diante do ecrã a fazer scroll. Parei e pensei se isso trazia valor à minha vida. Não trazia, logo, no meu caso, resolvi sair. Outras pessoas apagam a app do seu telemóvel e usam o navegador de internet (browser), reduzindo o tempo que por lá navegam ao essencial.

Quando experimentamos a filosofia do Minimalismo Digital, como é explorada por Cal Newport, o objectivo não consiste em rejeitar os avanços tecnológicos extraordinários, como no caso da internet, mas aquirir uma consciência plena (noofulness😉 do valor que essas tecnologias trazem à nossa vida. Nesse sentido, a descoberta de Deus passa muito pelo relacionamento com os outros.

Ao conversar com jovens sobre a relação entre evangelização e redes sociais, percebi que as consideram superficiais, enquanto que a experiência de Deus que uma evangelização pode proporcionar é algo de mais profundo, e cuja partilha da experiência pessoal é fundamental para suscitar no outro o desejo da relação com Deus. Mas a descoberta de Deus pode, também, ocorrer pelo que sucede à nossa volta. E tenho experiência pessoal disso pelo modo como Deus entrou na vida da minha família de origem através da conversão da minha mãe.

Há 18 anos que um colega lhe falava de Deus sem que ela se interessasse muito. Um dia ofereceu-lhe um livro intitulado “Ele está vivo!” e ela acolheu a ideia de o ler, certamente, como um acto de amor para com o seu amigo. Porém, quando voltava do trabalho, num dia de chuva torrencial, a porta do comboio próxima do seu lugar demorava um pouco mais a fechar do que seria suposto, mas fechava. Numa das estações entra uma senhora que fica de pé apesar de haver um lugar vago, mas cuja chuva poderia molhar se a porta não se fechasse. A minha mãe disse-lhe – ”pode sentar-se à vontade que a porta fecha pouco depois do comboio arrancar. Mas dessa vez não se fechou. Pânico.

A minha mãe sentiu-se envergonhada por ter aconselhado uma coisa que não aconteceu. Naquele momento, resolveu pela primeira vez na sua vida rezar, pedindo – ”se estás vivo, faz com que aquele senhor feche a porta.” – e de imediato, o senhor a que se referia levantou-se e fechou a porta. A minha mãe estremeceu. Não foi outra pessoa, mas aquela que tinha pedido a Deus para se levantar e fechar a porta. Ao ser tocada pela imediatez da escuta de Deus à sua simples prece, descobriu o Seu amor e a partir dessa dia, Deus entrou no coração da nossa família.

Como seria hoje esta experiência quando vemos grande parte das pessoas mais atentas ao seu ecrã do que ao que se passa à sua volta? Seria, seguramente, diferente, e até poderia acontecer do mesmo modo, mas a probabilidade de estarmos distraídos é tal, que não sei se daríamos o mesmo valor a toda a sequência de eventos daquela viagem.

Imagino a minha mãe sucumbida pelas últimas selfies que eu e a minha irmã teríamos colocado no Instagram, nem se dando conta de haver uma senhora em pé e um lugar vago, ou nem sequer pensando em Deus ou “testá-Lo” com uma prece. Imagino a senhora com os headphones nos ouvidos a ouvir música e que a minha mãe não seria ouvida ainda que lhe falasse. Imagino o senhor que fecharia a porta a jogar candy crash, desatento ou dando pouca importância ao facto da porta estar aberta ou não. Imagino que Deus poderia não ter entrado na minha vida familiar e, hoje, não seria quem sou. Isso é mau? Penso que não seria mau, mas seria diferente.

 

Futuro ainda incerto

Há qualquer coisa de estranho com a indiferença em relação às mudanças induzidas no nosso comportamento pelo contacto permanente com o fluxo de informação veloz a que temos acesso pela internet. Vêem-se já os anúncios da chegada da rede 5G, mas repararam como alguns mostram pessoas sozinhas (ou mesmo se juntas) voltadas para o seu ecrã?

Estou seguro da capacidade que a Igreja tem de inovar ao ponto que chegou a Duracell no Canadá. Uma ideia simples para conectar as pessoas, e ir ao encontro das suas necessidades. Que outras ideias poderíamos inventar que inovassem o modelo de conectar?

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