Cónego Manuel Maria Madureira, Arquidiocese de Évora

A editora Paulus publicou, em 1998, um interessante livro com o título Educar através de Fábulas. É uma tradução da obra espanhola Fabulas Y Relatos em que os autores Alfonso Francia e Otilia Oviedo, à boa maneira pedagógica, quiseram “ensinar” os humanos a partir do exemplo dos animais. São fábulas nas quais revemos muitos dos nossos comportamentos. Fixei a do “O mocho jornalista”, por ver aí as características de qualquer discreto investigador e sábio observador. Eis a fábula. Numa assembleia de animais, cada um propunha aos outros aquela atividade que, na própria opinião, pudesse estar mais de acordo com as suas características e possibilidades. Ao mocho – que só consegue olhar de frente, mas vê bem tanto de noite como de dia – atribuíram-lhe o trabalho de jornalismo de investigação, desse que combate a corrupção. Faria reportagens maravilhosas, porque encarava os problemas, sem rodeios nem jogos politicamente corretos, fazendo um trabalho ímpar mesmo de noite, porque, de noite, também se fazem muitas maldades. O mocho, crente nas capacidades que nem ele conhecia, aceitou entusiasmado. Começou a seguir os movimentos dos animais mais importantes e a fazer reportagens muito originais e decisivas. Imaginava a cara dos leitores quando se encontrassem com a denúncia que fazia do cuco que criava os filhos nos ninhos das outras aves, da raposa que devorava galinhas inocentes, do leão que aterrorizava todos os animais pela sua força e violência. Também do ouriço-cacheiro que vive solitário e sempre com os espinhos de fora, do papagaio charlatão de lindas teorias, mas que, de trabalho, nada! e do pavão real que zomba dos outros. E também da cigarra que canta e não trabalha. Chegou o dia de levar as reportagens ao jornal. Começou pela da cigarra. Foi um escândalo. Parecia que todas as cigarras do mundo se tinham juntado para cantarem, raivosas e vingativas, dia e noite, à porta do mocho. Uniram-se a elas muitos outros animais que também receavam críticas duras e mordazes. Alguns, quando o viam, diziam, para lhe serem agradáveis: «sabes que gostei do artigo»? Então ele viu que, com essa espécie de jornalismo, não ia longe. Não só não fazia amigos como até criava inimigos. E deu-se conta de que nem sequer os que o tinham nomeado tinham muito interesse em que ele fosse coerente e combatesse a corrupção. Mais valia mudar, fazer reportagens adulatórias, politicamente corretas. A partir daí, enterrou-se na solidão e na noite. Parece que agora tem os olhos mais duros, maiores, mais tristes e desconfiados. Investigar sobre corrupção foi uma enorme perda de tempo e trouxera-lhe muito sofrimento, aumentado porque o não compreenderam e atacaram. Nem os bons o apoiaram. Mas o que mais o abateu foi o facto de o macaco, que lhe sucedeu como jornalista, na sua primeira reportagem o criticar por ter tido uma oportunidade e a ter perdido por covardia.

 

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