O jesuíta Vasco Pinto Magalhães fala em dias para descobrir quem somos, para entender a liberdade ao serviço do bem e para fazer a ponte para o caminho até à Páscoa

Entrevista conduzida por Lígia Silveira

Agência Ecclesia (AE)- Que importância tem o «faz de conta na vida» de uma pessoa?

Padre Vasco Pinto Magalhães (VPM)A vida é um desafio e extravasar-se desafia-nos, faz-nos ir mais longe. Temos uma personalidade muito concreta mas está sempre em expressão e à procura de se identificar. A máscara tem a ver com a necessidade de procurar as nossas identidades múltiplas; quando conseguimos sintetizar, encontrar o nosso caminho e vocação. Claro que no exagero, despersonaliza. Mas pode ser uma forma de riqueza, de perceber como sou capaz de identificar.

O teatro vive disso: de sermos capazes de desempenhar vários papéis, no mundo do outro, percebe-lo. O pior é quando despersonaliza. Mas tem uma função. E, para as crianças que estão à procura do que querem ser, embora seja um caminho de identidade e personalização, não faz mal nenhum.

 

AE – Esta experimentação é necessária na vida?

VPM – Sim. Estamos sempre a comparar-nos, para bem e para mal. As comparações são perigosas mas não vivemos sem elas. O primeiro processo de conhecimento é por imitação: vestir-se como os pais, falar como eles, vestir-se como os irmãos… pior é quando isso atinge uma fórmula perigosa.

 

AE – Corremos o risco de querer ser outra pessoa que não nós próprios?

VPM – Um grande teólogo René Girard diz que a grande origem do mal é o mimetismo doente, a cópia: já não suporto ser eu ou o outro ao pé de mim. Isso gera a competição.

 

AE – A pergunta «quem sou eu?» pode gerar uma luta muito grande…

VPM – Necessariamente. A criança tem tendências e qualidades mas estão por expressar e amadurecer. Este trabalho de amadurecer e descobrir o que mais nos identifica, prende-se com o conhecimento próprio, mas também com a experiência, com o fazer vários papéis. Experimentar uma identificação que corresponde a três coisas: à minha identidade mais interior, à minha relação com os outros de forma mais eficaz, e, para quem tem fé, corresponde à vontade de Deus. Deus quer que sejamos quem somos no serviço, na transformação do mundo. Uma identidade egocêntrica, fechada, não percebe que os outros me mostram quem eu sou, nem se consegue transcender, fica fechado em si próprio.

 

AE – A criança, quando está a crescer, não tem a dimensão do seu crescimento à luz da fé. Que importância assumem as relações nesse crescimento? No equilíbrio entre o faz de conta e a descoberta daquilo que é?

VPM – As relações são uma aprendizagem. Temos de aprender a ter boas relações, construtivas, que ajudam a crescer, que descansam.

A identidade, muitas vezes, assenta em relações violentas, constrangedoras, que não fazem desabrochar, metem medo, são moralistas, não causam bem-estar.

Depende da educação que vem de casa: pode ser uma educação para a personalização ou para a formatação. E formatação não permite que eu me expresse com liberdade. São as relações com a natureza, com os outros, com os valores, que socializam e fazem despertar para a cultura e para a fé.

 

 AE – Nesse crescimento as máscaras são importantes?

VPM – Sim. Eu diria que o Carnaval é tirar a máscara. Vivemos mascarados, com tantos condicionamentos, desempenhamos um papel. Claro que há um certo teatro que todos temos de fazer: põe-se a gravata para o trabalho, chega-se a casa e põe-se as pantufas… são linguagens. Há pessoas que vivem mascaradas, vestiram a farda da sua profissão e têm dificuldade em tirar. O Carnaval é precisamente para tirar a máscara.

Isso é um sinal de alguma liberdade de um mundo muito quadriculado, rígido, onde há horários a cumprir, formatações, que cansam muito. O Carnaval tem esse aspeto social.

 

AE – Fazê-lo em conjunto tem um significado?

VPM – Com o perigo de ser um excesso, pode perder o equilíbrio. Vivemos condicionados por comportamentos sociais, pelo nosso «dever ser», as nossas exigências interiores e pensamos que isso é um certo descanso. Até é. O grande perigo são os exageros.

 

AE – O poeta Teixeira de Pascoaes diz que «nascer é pôr a máscara»…

VPM – As crianças começam a aprender a comportar-se. Se isso é muito exterior, sou um menino bem comportado que faz o que lhe mandam, posso estar a inibir uma força natural muito saudável e única. O contrário: a educação que deixa crescer que depois eles lá saberão, um naturalismo sem regras, é também uma máscara.

 

AE – Qual o ponto de equilíbrio? Quando se percebe que temos de equilibrar entre a necessidade de se colocar a máscara e perceber que ela nos pode auto destruir?

VPM – O ponto de equilíbrio vai-se encontrando, não é algo rígido. Há indicadores que as nossas relações são saudáveis, que experimento que estou a crescer na alegria, na esperança e na responsabilidade e que essas relações favorecem esse crescimento. Encontra-se o equilíbrio em relações construtivas: comigo, com o outro, com os valores. Este ponto de equilíbrio é um equilíbrio dinâmico. Não é estar paradinho…

 

AE – É fácil nos dias de hoje encontrar os alertas para esse equilíbrio e o necessário ajuste?

VPM – Não é fácil, porque vivemos hoje num mundo extrovertido e, no mau sentido, divertido. Que diverge e nos condiciona. Precisamos de ter a capacidade de parar, interiorizar, olhar para dentro, avaliar as relações. Hoje não há tempo para isso. As pessoas vivem exteriorizadas, no mau sentido.

Para encontrar o equilíbrio tenho de fazer a síntese, o meu exame de consciência. Tenho de ter tempo saudável, pacífico para reavaliar, e não de uma maneira genérica, a relação com esta pessoa, comigo próprio nestas circunstâncias. Isso supõe que eu me retire da confusão, do barulho, do mundo, da pressa, que são altamente condicionantes.

Por isso vemos que as pessoas têm uma grande necessidade de ir ao deserto, de se refugiar… Pode haver ambiguidade na fuga e no refúgio, mas sem esse espaço e tempo, ficamos histéricos. Quando experimentamos a paz encontramos o equilíbrio. A paz interior e nas relações. E a paz não é uma pasmaceira, não são águas paradas, nem é o bem-estar. A paz é sentir que estou num dinamismo construtivo. Sentir e experimentar, também intelectualmente e na vontade, que estou a dar os passos certos, que encontrei o ritmo da vida.

As pessoas participam num retiro espiritual para descansar e o que nos descansa é um encontro connosco próprios, encontrar-se com Deus: não há nada que mais descanse do que estar na presença de quem nos ama. Isso é dinâmico, mas descansa…

Há quem procure outras formas de descansar: apanho um avião e vou ao Carnaval do Brasil. Não quer dizer que isso não descanse, mas é outro tipo de descanso. Todos se prestam a fugas. É curioso: as pessoas descansam, vão para a praia despojar-se de tudo, descansam arranjando umas botas e um fato para subir à montanha e outros descansam a ler, outros a rezar, outros encontrando aquilo que os organiza, que lhes dá ordem à vida, vontade de viver.

 

AE – Quando preparava esta nossa conversa encontrei um anúncio de uma empresa de brinquedos que dizia: «e tu, que queres ser hoje?» Esta possibilidade de a cada dia sermos coisas novas, é também uma surpresa de Deus …

VPM – Aqui há o interesse de vende, entra a ganância e uma certa competição. Numa linguagem de crianças, pode ser, mas não se pode ficar só aqui. Quero ser pirata ou super-homem… O que queres ser hoje? Que haja indicação que não é essa a vida. Para não ficar dominado por um momento.

O mal das pedagogias, às vezes, é serem estáticas, por blocos e não por processos.

 

AE –A criatividade e a imaginação ajudam a crescer.

VPM – Sim, a descobrir riquezas que há em nós. Pôr-se no papel de outros… Lamento é que esse processo não venha com uma síntese. Em certa altura temos de fazer escolhas. O pior que podemos fazer é uma educação que não eduque para escolher, para a liberdade. Uma liberdade que seja capaz de escolher o bem.

Circula hoje a ideia de que liberdade é fazer o que me apetece: trocar de casa, de vida, trocar de tudo. Isso é libertino, não é ser livre. A liberdade é, sendo capaz de ponderar alternativas, escolher a que melhor me personaliza, me ajuda a relacionar com os outros, a encontrar o meu lugar no serviço do mundo. Uma educação que não eduque para a liberdade não é educação.

 

AE – A cada dia somos colocados perante o desafio de cultivar os dons que temos e fazer novas todas as coisas.

VPM – E o novo é personalizável: fazer à minha maneira sem a ideia de que tenho de ser um original. A vida devia ser sempre criativa. O que não significa saltar por cima de todas as regras. A liberdade é também a capacidade de assumir regras e condicionamentos e viver bem com eles. É ter o coração centrado no essencial e capaz de se descentrar, de colocar o seu foco no sítio certo. Se o coração não anda livre mas solto, não é capaz de amar.

Quando não há um quadro de valores interiorizado não é possível escolher, torna-se difícil encontrar prioridades. Vivo momento a momento, a satisfação aqui e agora, vivo um Carnaval sem antes nem depois. Hoje há muita gente que se despersonaliza por ai. Faz muita coisa mas não faz nada bem.

 

AE – Que importância têm os momentos de festa e de folia na vida?

VPM – Marcam os ritmos e o crescimento por etapas. Temos a necessidade de celebrar os nascimentos e as mortes, o fim do curso, as festas universitárias, a queima das fitas e os cortejos, o início do curso, o casamento… Estamos sempre a marcar e temos necessidade de celebrar. É preciso é celebrar bem. (A festa) é um momento de interiorizar e agradecer mas de reparar a nova etapa. As festas deveriam ser ritos de passagem, mudanças, de etapas, caso contrário fica uma celebração vazia. Varre-se a sala no fim da festa e fica tudo na mesma.

 

AE – O Carnaval é a passagem para dias de interiorização?

VPM – Sempre foi entendido assim. Atravessamos o deserto em honra a uma festa maior. Entramos num período de concentração e interioridade. O Carnaval é o momento de respirar fundo antes do mergulho. Há claro, os exageros. A ideia de que entramos num tempo de penitência, que a vida vai ser dura, com uma subida à montanha muito ingreme. Vamos por isso extravasar um bocado…

Se o Carnaval é de facto o adeus à carne, para entrar na abstinência, faz sentido. A festa que nos prepara para o mergulho.

 

AE – Mas sugeria que o Carnaval é tirar a máscara. Se entramos no Carnaval com a disposição de sermos nós próprios, é já um pórtico para o tempo que vem a seguir…

VPM – Sim, faz parte, não é separável se for vivido como um momento de transição. De sair de um tempo regularizável para outro específico. Há um ritmo. E esse Carnaval faz com que eu me despoje, para entrar num ritmo interior antes de me despojar do anterior.

Há que superar uma etapa, caso contrário vamos arrastando coisas e não se muda. Não se consegue uma nova relação porque se está preso à anterior; não se consegue entrar em algo porque a nostalgia, mesmo das coisas boas, é uma prisão. Não é saudável.

O Carnaval na medida em que se pode disparatar, seria um adeus ao que está para trás, para iniciar um caminho novo e encarar como a preparação para a conversão. Se a Quaresma é o caminho para a conversão…

 

AE – O Carnaval pode ser esse pórtico?

VPM – Pode. E devia ser. Mas tudo se reduz ao Carnaval do Rio (de Janeiro) …

 

AE – E depois há quem opte por viver estes dias de folia, retiradas.

VPM – Podiam ir fazer uma viagem que será uma forma de sair da rotina. Para muitos, até porque é prático, arranjando dias livres. Não vivemos ritmos muito humanizados. Um dos atuais perigos, do trabalhar e ganhar dinheiro, é o trabalhar mal. Trabalhamos demais, sem ritmo, horas a fio, com horários de pressão, sem respiração. Acabamos por trabalhar muito mas mal.

É bom aproveitar estes dias: pode-se fazer uma viagem, ler um livro ou escrever uma coisa que tenho ou fazer Exercícios Espirituais (EE). São exercícios, uma atividade profunda e interior para encontrar a liberdade, aquele Deus que me ama.

 

AE – Onde se propõe tirar a máscara…

VPM – Sim. O início dos EE propõe deixar para trás o que não importa e abrir caminho para os próximos passos. Embora façam o exame de consciência, não fica preso a lamentar o que passou. Serve para tomar consciência da realidade e, depois, dar vida nova a esta realidade.

Os EE de Santo Inácio são virados para a frente: a partir da minha realidade de hoje posso reiniciar um caminho de maior proximidade com Deus e com a sua vontade.

Santo Inácio diz que vamos aos EE para pôr ordem na vida, para arrumar gavetas. Deitar fora algumas coisas, arrumar outras e desenhar os passos futuros. Isso descansa, porque a pessoa reorganiza a sua vida, tranquiliza-se. Esta correria de não ter tempo para pensar, para encontrar alguém… trata-se de um acumular de coisas que não estão arrumadas. Isso cansa muito.

E por isso faz-se EE para descansar: fazer um balanço da vida sem pressa. A pressa dá cabo de tudo.

O Papa Francisco diz que uma das doenças do nosso tempo é o «rapidismo»: queremos tudo para ontem. Engolimos, sem mastigar. Por isso andamos um bocadinho enfartados. Isso não descansa nada.

A pergunta a fazer é: estou a precisar de rever as minhas relações com os outros, de me equilibrar, equilibrar a minha relação com Deus? A segunda pergunta é «Como?». Quem orienta os EE ajuda a colocar os problemas e a ponderar alternativas para encontrar a mais libertadora, a que faz encontrar consigo próprio. Deve-se sair dos EE com uma escolha, uma revisão de vida que não ficou só a ver o que aconteceu, mas sai, até à próxima vez, com estes propósitos: concretos, poucos, possíveis.

 

AE – No seu entender é uma boa forma de iniciar os 40 dias propostos pela Igreja?

VPM – Ganha-se um balanço para viver a quarentena que prepara a Páscoa, a grande festa da vida, o encontro, mas tudo precisa de conversão. Diversão ou conversão? Divergir ou convergir? E a vida deve seguir o caminho do convergir.

Dizemos que Quaresma é um tempo de conversão, de reencontro connosco, e é. Não são dias de esforço, tristeza… Cai-se no sacrifício mal-entendido. Fala-se num tempo de penitência mas esquecemo-nos de que penitência significa mudança. Pensamos em penitência para aumentar a austeridade. A austeridade é uma coisa boa porque é saber prescindir das máscaras todas, saber ser mais livre. Mas a austeridade não está na moda.

Fomos educados a perceber a penitência como algo exigente, difícil e que isso me dá pontos. Mas a palavra latina significa mudar, o coração, a atitude. Claro que isso exige esforço, reconhecer o que precisa ser mudado, o que pode ser mudado e como. Tudo isto se faz à luz do exemplo de Jesus, da sua vida e palavras, que estimulam a fazer o discernimento e escolha.

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